Prevenir, personalizar e antecipar. As novas palavras de ordem da dermocosmética
No International Forum of Dermatology 2026, em Lisboa, a Pierre Fabre apresentou uma visão da pele mais precisa, preditiva e personalizada. Audrey Ricard Campion, Diretora de Investigação e Desenvolvimento Dermo-Cosmético do grupo, explica por que razão o futuro da beleza poderá já não estar em corrigir os sinais visíveis, mas em antecipá-los.
Pierre Fabre antecipa o futuro da beleza com foco na pele preditiva em Lisboa
Foto: Getty Images23 de julho de 2026 às 15:31 Safiya Ayoob
Durante décadas, a indústria da beleza habituou-nos a uma lógica relativamente simples: identificar um problema, procurar um ingrediente que o corrija e esperar que a fórmula cumpra a sua promessa. Rugas pediam retinol; manchas, ativos despigmentantes; desidratação, ácido hialurónico. Um sinal, um mecanismo, uma resposta. Mas e se a próxima grande transformação da beleza não estiver em encontrar mais um ingrediente-estrela? E se estiver em compreender a pele como um sistema vivo, complexo e interligado - e em agir antes de os danos se tornarem visíveis?
Foi essa a pergunta que pairou sobre o International Forum of Dermatology 2026 (IFD), organizado pela Pierre Fabre nos dias 11 e 12 de junho, em Lisboa, sob o tema Inventing the Future(s) of Dermatology. O plural não era um detalhe: o programa propunha pensar os vários futuros da dermatologia - científico, clínico, tecnológico, relacional e social. Inteligência artificial aplicada à acne, eczema, cicatrização, saúde capilar e dermato-oncologia, teledermatologia, imagem 3D e gémeos digitais foram alguns dos territórios explorados.
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No MEO Arena, mais de 300 dermatologistas de 49 países reuniram-se para discutir inovação científica, medicina personalizada, saúde digital, telemedicina e novas formas de colocar o paciente no centro dos cuidados. No entanto, por detrás dos ecrãs, dos algoritmos e da linguagem tecnológica, emergiu uma ideia surpreendentemente humana: quanto melhor conhecermos a pele de cada pessoa, mais cedo - e melhor - poderemos cuidar dela.
International Forum of Dermatology em Lisboa, Portugal com a Pierre Fabre
Foto: DR
É aqui que entra Audrey Ricard Campion. Nomeada Diretora de Investigação e Desenvolvimento Dermo-Cosmético da Pierre Fabre em junho de 2025, depois de mais de duas décadas dedicadas à ciência da pele, Ricard Campion lidera uma organização de cerca de 420 pessoas, distribuídas sobretudo por Toulouse e pelos centros de inovação de Xangai e do Rio de Janeiro. Com formação em engenharia físico-química e experiência em áreas como a encapsulação de ingredientes ativos, fotoproteção e cuidados de rosto, a sua missão é simultaneamente imediata e profundamente especulativa: desenvolver os produtos que chegarão ao mercado nos próximos anos e decidir hoje em que ciência deverá a empresa investir para responder às necessidades do futuro. "Conduzo a ciência, como também, de forma muito concreta, os produtos que vamos colocar no mercado com as marcas", explica-nos. "A minha missão é impulsionar a inovação a curto prazo e, ao mesmo tempo, prever aquilo em que devemos investir para o futuro."
Uma das maiores mudanças identificadas por Ricard Campion não começou num laboratório, mas no comportamento do consumidor. Depois da pandemia, diz, assistimos à aceleração de uma espécie de "medicalização da beleza": uma aproximação entre os cosméticos tradicionais, a dermocosmética, o bem-estar e a saúde. "Cada vez mais, a beleza e a dermocosmética estão a fundir-se. O consumidor já não faz verdadeiramente a distinção entre aquilo que é beleza e aquilo que é dermo", afirma. "Esta expectativa global está a abalar e a remodelar o mercado." Não significa que um cosmético se tenha tornado um medicamento ou que as fronteiras regulamentares tenham desaparecido. Significa, antes, que o consumidor passou a esperar da beleza aquilo que antes exigia sobretudo da medicina: evidência, segurança, resultados mensuráveis, aconselhamento especializado e soluções adaptadas à sua realidade.
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Ao mesmo tempo, a procura de respostas deixou de acontecer exclusivamente no consultório, na farmácia ou no balcão de beleza. A educação sobre a pele faz-se agora através de vídeos, motores de busca, influenciadores, comunidades digitais e plataformas de comércio social. Na China, observa Ricard Campion, o crescimento do social commerce transformou as próprias redes sociais num espaço de descoberta, aprendizagem e compra.
O problema é que a democratização da informação trouxe consigo uma democratização semelhante da desinformação. "Temos o pior, o melhor e o excelente", reconhece. "É por isso que uma empresa como a nossa tem de ter voz e ajudar a educar corretamente, porque existe muita pseudociência."
Talvez a mudança mais relevante descrita por Ricard Campion seja a passagem de uma inovação baseada em ações isoladas para uma compreensão sistémica da pele. A abordagem cosmética convencional, explica, começa frequentemente por separar os sinais. Estudam-se as rugas, a pigmentação, a desidratação ou a acne individualmente. Para cada mecanismo, encontra-se um ingrediente ativo. Depois, vários ativos são reunidos numa fórmula, mesmo quando o efeito biológico da combinação completa nem sempre foi estudado com a mesma profundidade. A nova ambição é diferente. "Se temos uma expectativa global, como o envelhecimento ou a longevidade, não vamos isolar as rugas da pigmentação, da desidratação ou da acne", afirma. "Olhamos para todos os sinais, para todos os dados clínicos, e procuramos perceber se existe um grande mecanismo capaz de atuar sobre vários parâmetros ao mesmo tempo."
Audrey Ricard Campion
Foto: DR
Na prática, isto significa deixar de olhar para a pele como uma coleção de pequenos defeitos e começar a entendê-la como uma rede de processos biológicos que comunicam entre si. Inflamação, barreira cutânea, pigmentação, cicatrização, microbioma, metabolismo celular e resposta imunitária não existem em compartimentos fechados. É também a lógica por detrás do programa de investigação Interactome da Pierre Fabre, uma abordagem multi-ómica que procura estudar as interações biológicas da pele e do couro cabeludo, em vez de observar cada mecanismo isoladamente. A empresa afirma trabalhar anualmente em mais de 600 projetos de investigação e cerca de 700 estudos de avaliação, com sete prioridades que incluem acne, envelhecimento cutâneo, reparação da epiderme, dermatite atópica e queda de cabelo. O futuro da beleza, nesta perspetiva, poderá ser menos sobre acrescentar ativos a uma fórmula e mais sobre identificar os pontos certos de uma rede biológica - aqueles que permitem à própria pele responder de forma mais coordenada.
Entre todos os conceitos que dominam atualmente a conversa sobre beleza, há um que Ricard Campion destaca sem hesitar: longevidade. "É a palavra-chave deste ano", diz. "E não está apenas na beleza. Está na alimentação, no wellness, em todo o lado." Contudo, falar de longevidade cutânea não deveria significar perseguir a fantasia de uma pele eternamente jovem. A diferença é subtil, mas essencial. O anti-envelhecimento tradicional concentrou-se sobretudo na aparência dos sinais visíveis. A longevidade procura perceber durante quanto tempo a pele consegue conservar as suas funções: proteger, reparar, regenerar, cicatrizar e responder às agressões.
A própria investigação científica tem vindo a mostrar que o envelhecimento da pele resulta de uma interação complexa entre genética, ambiente e alterações moleculares. Para além da aparência, está associado a mudanças na capacidade de cicatrização e na manutenção do equilíbrio cutâneo. A longevidade da pele é, assim, menos uma batalha contra o tempo do que uma procura de resiliência. Não se trata apenas de parecer mais jovem, mas de manter uma pele funcional e capaz de recuperar. É uma diferença que poderá alterar a linguagem da indústria. Em vez de “apagar” rugas ou “combater” a idade, talvez comecemos a falar mais de adaptação, defesa, reparação e saúde a longo prazo.
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É no campo da cicatrização que a beleza preditiva se torna mais concreta. Ricard Campion dá o exemplo da acne. Habitualmente, as rotinas dividem-se em duas fases: primeiro tratam-se as borbulhas; mais tarde, procuram-se produtos para as marcas e cicatrizes deixadas para trás. A investigação da Pierre Fabre sugere a necessidade de repensar esta sequência. “Temos de pensar nas cicatrizes desde o início da acne”, afirma. “Não é apenas um produto que se aplica depois. Essa dimensão tem de estar presente desde o princípio.”
A ideia é simples, mas altera profundamente o momento da intervenção: a prevenção da cicatriz começa quando a lesão inflamatória ainda está ativa. A literatura dermatológica tem também sublinhado que tratar a acne precocemente e reduzir a intensidade e a duração da inflamação continua a ser uma das formas mais importantes de limitar o risco de cicatrizes. O mesmo princípio poderá aplicar-se aos procedimentos estéticos e dermatológicos. Antes de um laser, de um peeling ou de outra intervenção, a pele pode ser preparada para aquilo que irá enfrentar. Em vez de atuar apenas sobre os efeitos posteriores, os cuidados poderiam estimular antecipadamente os mecanismos naturais de defesa e reparação. "Estamos a desenvolver produtos capazes de antecipar aquilo que a pele vai enfrentar”, explica Ricard Campion. “Preparamos mais cedo as defesas naturais da pele, para garantir que tudo decorre da melhor forma possível.” A beleza deixa, portanto, de ser apenas corretiva. Torna-se preparatória.
A pele não cicatriza da mesma maneira em todas as pessoas Naturalmente, antecipar exige conhecer. Duas pessoas submetidas ao mesmo procedimento ou com uma manifestação semelhante de acne não terão necessariamente a mesma resposta. O metabolismo, a ativação celular e a dinâmica inflamatória podem ser diferentes. Algumas peles cicatrizam rapidamente; outras permanecem inflamadas durante mais tempo. Algumas desenvolvem manchas; outras têm maior tendência para cicatrizes elevadas ou deprimidas.
“Quanto melhor conhecermos a pessoa, melhor será a recomendação que lhe poderemos dar”, resume Ricard Campion. É aqui que a inteligência artificial poderá revelar-se decisiva. Não necessariamente como substituta do dermatologista, mas como ferramenta para organizar volumes de informação impossíveis de processar manualmente: imagens, dados clínicos, respostas a tratamentos, diferenças geográficas, tipos de pele, hábitos e evolução ao longo do tempo. “Temos de pensar globalmente”, diz. “O consumidor que queremos compreender está em todo o mundo.”
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A promessa é uma dermatologia mais precisa, preditiva e personalizada - as três palavras que Ricard Campion utiliza para descrever esta nova etapa. A rotina deixaria de ser escolhida apenas de acordo com uma categoria genérica, como “pele seca” ou “pele com tendência acneica”, e passaria a considerar a forma particular como cada pele reage, inflama, envelhece e repara.
A rotina do futuro poderá não ter necessariamente mais passos. Poderá, pelo contrário, ter intervenções mais oportunas, mais individualizadas e biologicamente coerentes. Produtos que não se limitam a corrigir o dano, mas que preparam, acompanham e fortalecem a pele antes, durante e depois de uma agressão. No final, o futuro da beleza pode não ser um rosto sem idade, mas uma pele que conhece melhor as suas próprias forças e uma ciência capaz de as ativar no momento certo.
Entre batidos proteicos, treino de força e o objetivo de envelhecer com saúde, há uma pergunta que começa a surgir com frequência: pode uma alimentação rica em proteína aumentar o risco de gota? A Máxima falou com um especialista para perceber se a preocupação tem fundamento.
No silêncio, quase sempre sem informação e acompanhamentos claros: é assim que vivem mais de três milhões de mulheres portuguesas. Ativas, funcionais e capazes, exige-se-lhes um envelhecimento sem rugas e flutuações de humor, mas nega-se-lhes o direito à valorização pessoal e profissional. Através de subtis atos de discriminação e ignorância, o século XXI ainda não sabe lidar com as senhoras que insistem em abanar o leque em locais públicos.