A manicure mais desejada do momento é aquela que quase não se vê

As bare nails não são apenas a tendência da vez. São o ponto de partida para uma conversa sobre quem dita o que é belo - e quando.

Charlie XCX na red carpet do Met Gala com a tendência Bare nails Foto: getty images
22 de julho de 2026 às 13:01 Rita Pinto da Silva / com Patrícia Domingues

Nos anos 2000, as unhas falavam tanto quanto os looks. Uma manicure só era considerada digna se tivesse glitter, efeito espelho, um laço em 3D e, com sorte, um pequeno coração desenhado no dedo anelar. Mas parece que as bare nails chegaram não só como uma tendência minimalista, mas como uma mudança cultural. Há muito tempo que o luxo deixou de ser sinónimo de ostentação e logótipos e passou a ser, acima de tudo, discreto: passámos pelo quiet luxury, a no makeup, makeup e o slick back sem defeitos. Agora, chegam as unhas que dão a ilusão de não terem sido feitas (mas foram e são mais caras do que parecem).  

É impossível de esquecer a cena de abertura da série Love Story de Ryan Murphy: Carolyn Bessette-Kennedy está a fazer as unhas, os paparazzi colados à janela e umas unhas pintadas de um vermelho clássico e rebelde, cor que tantas vezes fazia quando trabalhava na Calvin Klein e tomava as decisões que bem entendia. Mas, à última hora, muda de ideias e pede para mudar para uma cor neutra. O motivo? Um casamento da família Kennedy pedia uma cor vista como 'mais adequada' para um evento desse calibre.  

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De acordo com o artigo, When Did Bare Nails Become a Status Symbol?, do The New York Times, “os salões de manicure e as marcas de verniz têm registado uma preferência crescente por vernizes nude e cor-de-rosa, enquanto algumas pessoas estão a optar por não usar verniz de todo". Para alguns, a tendência tornou-se um grito de guerra contra complexos - mas, para outros, é uma forma de os poucos privilegiados mostrarem a sua riqueza. 

Esta associação entre unhas e estatuto é simples: pessoas bem-sucedidas dizem não ter tempo para passar horas num salão a fazer as unhas. Mas não é tão simples como parece. Encontrar o tom nude perfeito (ou o verniz transparente mais subtil), manter as cutículas impecáveis e garantir unhas saudáveis exige tempo, manutenção e, muitas vezes, investimento. Tal como acontece com a pele luminosa ou com um corte de cabelo aparentemente sem esforço, o objetivo é parecer naturalmente arranjado, mesmo quando existe todo um ritual.

E quando uma tendência entra em Hollywood, não há como voltar atrás. As bare nails tornaram-se símbolo de status quando influenciadoras, it girls e Zoë Kravitz começaram a usar. Na Met Gala, Chase Sui Wonders e Sarah Pidgeon assumiram também uma manicure limpa e sem esforço.  Até Marc Jacobs enviou as modelos para a passerelle da semana de moda de Nova Iorque com unhas nude: “A manicure Jin Soon Choi preparou as unhas das modelos nos bastidores usando apenas óleo para cutículas e creme para as mãos. Minutos antes do desfile, Jacobs pediu-lhe para cortar as unhas ainda mais curtas”, detalhou o The New York Times.   

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A Máxima falou com a nail artist Eva Castro para perceber como é que esta tendência se traduz nos salões em Portugal: "Sinceramente, nas minhas clientes tem sido uma constante. Tenho tanto clientes que preferem unhas mais naturais e discretas como outras que continuam a apostar em nail art mais elaborada. Na minha experiência, depende muito da fase de vida, da personalidade e até da profissão de cada pessoa. São estilos que coexistem e que continuam a ter procura", explica. Ainda assim, nota que é uma escolha mais frequente entre mulheres que trabalham em ambientes mais formais ou ocupam cargos de maior responsabilidade, onde procuram uma imagem mais discreta e intemporal. "No fundo, procuram unhas cuidadas que transmitam elegância sem chamar demasiado a atenção."

No entanto, é importante realçar que esta tendência gera alguma discordância. Muitos vêm a ascensão do clean look como uma maneira de diminuir tradições elaboradas de nail art enraizadas nas comunidades negras e de imigrantes. Cyndia Robinson, proprietária do Cure Nailhouse, em Detroit, admite em entrevista ao The New York Times que "temos lidado com isto toda a nossa vida. Dizem-nos que o nosso cabelo, as nossas unhas, os nossos corpos e as nossas roupas são exagerados". 

A Allure refere que o problema não está na tendência em si mas na sua associação com estatuto social, o que sugere que as unhas coloridas e expressivas são sinónimo de baixo estatuto. Sabla Young, autora do artigo, This Bare Nail Trend Is Just Girlboss Propaganda, publicado na publicação dedicada à beleza refere que "esta não é necessariamente uma perspetiva nova para quem está familiarizado com as dinâmicas interseccionais da beleza nas culturas não brancas", e acrescenta: "O classismo e, em particular, o racismo anti-negro têm estigmatizado consistentemente as unhas compridas, coloridas e de acrílico como pouco profissionais e 'de gueto' quando usadas por mulheres negras e latinas". No mesmo texto lemos que a arte das unhas e a cultura dos salões de beleza têm raízes profundas na história negra, latina e asiático-americana e que são uma forma significativa de autoexpressão criativa no seio da comunidade, apesar das suas origens imperialistas e da política da respeitabilidade que determina quais as unhas que são de bom gosto e quais as que são de mau gosto. "Há um luxo discreto e, depois, há uma discriminação discreta", escreve Young.

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Eva Castro admite, que enquanto técnica, tem um gosto especial pela nail art: "são trabalhos diferentes e, por isso, acho difícil compará-los diretamente. Uma nail art elaborada exige, sem dúvida, muita técnica, criatividade e concentração. No entanto, as bare nails também têm o seu grau de exigência. Como o resultado é tão natural, qualquer pequena imperfeição torna-se muito mais visível. É preciso um acabamento extremamente limpo, uma boa construção e muita atenção ao detalhe. Enquanto nail artist, confesso que me dá mais prazer criar trabalhos mais elaborados".

No entanto, não se sente desvalorizada com a crescente tendência das unhas minimalistas: "Há espaço para todos os estilos e todas as tendências. A nail art continua a ser uma forma de arte e de expressão, independentemente de, num determinado momento, o mercado estar mais virado para um estilo minimalista. No final do dia, o mais importante é que cada pessoa escolha aquilo com que se identifica e que a faz sentir bem. As unhas são uma extensão da personalidade de cada cliente e isso é muito mais importante do que seguir uma tendência." Salienta ainda que os preconceitos na escolha da manicure continuam muito vincados e que lhe chegam relatos de algumas clientes que continuam a ouvir comentários como “como é que consegues fazer as coisas com essas unhas?” ou até expressões menos polidas, como “que horror ”. 

No final, as tendências mudam, os códigos de estatuto reinventam-se, mas a pergunta permanece: quem tem o poder de decidir quando uma estética deixa de ser motivo de preconceito para passar a ser objeto de desejo? Talvez seja esta a conversa mais relevante que esta manicure quase invisível nos convida a ter.

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