“Uma mulher que sabe o que quer ainda assusta.” Porque é que o prazer feminino continua a ser um tabu?

No Máxima House of Beauty 2026, Rosário Mello e Castro moderou uma conversa com Bárbara Branco, Ivvi e Catarina Lucas sobre prazer, assédio, vulnerabilidade e a urgência de devolver às mulheres a posse plena dos seus corpos.

Debate sobre sexualidade no Máxima House of Beauty com Bárbara Branco e outras convidadas. Foto: claudiateixeiraphotography
27 de maio de 2026 às 15:43 Máxima

Falar de sexualidade feminina é, inevitavelmente, falar de liberdade. Como também de medo, vergonha, educação, violência, desejo e poder. Foi esse o território que Rosário Mello e Castro, diretora da Máxima, abriu no palco do Máxima House of Beauty 2026, numa conversa com Bárbara Branco, atriz, Ivvi, modelo, e Catarina Lucas, sexologa, sobre sexualidade, beleza e a linha, tantas vezes ténue, entre expressão e objetificação.

A pergunta de partida era simples, mas continua a ser desconfortável: uma mulher que vive a sua sexualidade de forma livre e descomplicada ainda é uma espécie rara? Para Catarina Lucas a resposta é clara: sim. Apesar dos avanços, a sexualidade continua a ser um lugar carregado de tabus, sobretudo quando se fala do prazer feminino. "Há coisas que continuam a ser transmitidas como inválidas, como se não fosse legítimo a mulher procurar o seu prazer", afirmou.

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Ivi Foto: claudiateixeiraphotography

A conversa mostrou que a sexualidade não começa no outro: começa no próprio corpo. Na forma como cada mulher se vê, se reconhece, se aceita e se autoriza a desejar. Catarina lembrou que muitas mulheres foram ensinadas a viver a sexualidade a partir da expectativa alheia, não da sua própria descoberta. Por isso, uma mulher que conhece o seu corpo, sabe o que quer e pede o que quer ainda assusta. "Assusta muito", disse, porque durante demasiado tempo esse não foi o papel que a sociedade reservou às mulheres.

Para Bárbara Branco, atriz, esta tensão torna-se ainda mais evidente numa profissão em que o corpo e a vulnerabilidade fazem parte do trabalho. Interpretar implica exposição, mas essa exposição não devia significar perda de autonomia. "O olhar do outro não define quem eu sou”, disse. Ainda assim, reconheceu que o male gaze continua a marcar a indústria, não apenas no que se vê no ecrã, como também na forma como os ambientes de trabalho são construídos. Estar vulnerável exige confiança; e confiança exige respeito.

Ivvi trouxe para a conversa uma frase que resume talvez todo o debate: “O corpo feminino não é um corpo público, não é um corpo de acesso comunitário”. Modelo, atriz e mulher trans, falou da forma como o seu corpo passou a ser observado, fetichizado e invadido a partir do momento em que passou a ser lido socialmente como feminino. A diferença entre admirar e apropriar-se, entre olhar e tocar, entre desejar e desrespeitar, foi um dos pontos mais fortes da conversa. Há limites. E o limite não precisa de ser negociado.

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Bárbara Branco Foto: claudiateixeiraphotography

O medo apareceu como uma palavra central. Medo de falar, de pedir, de recusar, de denunciar, de não corresponder. Ivi foi direta: “O medo é exatamente o que fez chegarmos ao lugar onde estamos hoje.” Catarina acrescentou uma nuance importante: o medo pode existir, mas não pode bloquear. A questão é o que fazemos com ele - se o deixamos calar-nos ou se o transformamos em linguagem, consciência e ação.

A partir daí, a conversa entrou num território incontornável: a educação sexual. Rosário resumiu-o bem ao lembrar que não pode continuar a ser apenas “pôr um preservativo numa banana”. Falta falar de emoções, relações, consentimento, prazer, limites e responsabilidade. Falta ensinar que o corpo não existe para servir, que o desejo feminino não é indecente e que o “não” não é uma sugestão.

Foi nesse ponto que o tema do assédio se impôs. Bárbara partilhou a frustração de ter verbalizado limites em contexto profissional e, ainda assim, sentir que nada mudava. “Eu falei várias vezes e pus um limite várias vezes”, contou. O problema, sublinhou Catarina, começa precisamente aí: quando o limite é comunicado e continua a não ser respeitado. Bárbara deixou uma pergunta que ficou a pairar: “Porque é que estamos em 2026 e isto continua a ser um tema? Porque os nossos corpos continuam a ser invadíveis.”

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Catarina Lucas Foto: claudiateixeiraphotography

A resposta, ou pelo menos parte dela, está no silêncio. No silêncio imposto às mulheres, no receio de exagerar, na ideia de que é melhor não criar conflito, na normalização do comentário, do toque, do olhar, da insistência. Ivvi recusou essa herança: “Falem mesmo, e não se deixem ser silenciadas por isso.” Rosário encerrou com a frase que sintetiza o espírito da conversa: “Não sejam silenciadas nunca.”


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