Entrevistas

Sandra Casimiro, cientista: "Podemos aumentar o tempo de sobrevivência das doentes com cancro”

A propósito da iniciativa de saúde Hair Fashion Weeks, uma sinergia entre a Jean Louis David e o Fundo iMM-Laço, conversámos com quatro dos investigadores que, ao minuto, cooperam na luta contra as doenças oncológicas.
Por Rita Silva Avelar, 09.03.2018
As Hair Fashion Weeks – uma iniciativa da marca Jean Louis David em parceria com o Fundo iMM-Laço – estão de volta para uma 7.ª edição. A Caminho da Cura é o mote de uma cooperação entre saúde e beleza que, neste momento, ajuda sete projetos de investigação na área do cancro da mama. A 7.ª edição das Hair Fashion Weeks acontece de 12 a 25 de Março com duas semanas de packs solidários em salão (12 a 18 é a semana da coloração e brushing, 19 a 25 é a semana do corte e brushing), venda de produtos solidários e outros momentos que vão permitir potenciar esta sensibilização e contributo valoroso à causa. "O Fundo iMM-Laço apoia anualmente novos projetos de investigação na área do cancro da mama, procurando assim encontrar respostas e trazer esperança a milhares de mulheres que são anualmente diagnosticadas com a doença. Neste momento, os projetos que decorrem no Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, e que contam com o apoio do Fundo iMM-Laço, abordam áreas tão diversas como o papel do sistema imunitário ou o estudo genético dos tumores", explica à Máxima Lynne Archibald, do Fundo iMM-Laço.
 
E este ano há novidades e mais razões para apoiar. "Desde a primeira edição que temos packs de corte e coloração de valores muito competitivos e, este ano, aumentámos o contributo de cada um. Por cada pack vendido, €2 vão diretamente para apoiar o Fundo iMM-Laço. Novidade: na nossa loja online e em salão vamos ter produtos assinalados com a Pink Label, onde €0,50 são solidários. Novidade: nos salões, podem ser adquiridos vouchers dos packs de cor e corte a serem usufruídos em abril e maio ? o presente perfeito para o Dia da Mãe", explica Vasco Malveiro, diretor-geral do Grupo Provalliance (da Jean Louis David).
 
A propósito da iniciativa, conversámos com três cientistas a investigar a doença: Catarina Silveira, Sandra Casimiro e Sérgio Dias.
 
Como é o dia a dia de uma cientista que investiga o cancro?
 
Catarina Silveira, estudante de Doutoramento em Empresa na GenoMed-iMM (Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes): Neste projeto não investigamos o cancro propriamente dito, nem as suas vias. Focamo-nos principalmente no desenvolvimento laboratorial de metodologias capazes de detetar alterações nos tumores, que possam indicar-nos qual o melhor caminho a seguir no que diz respeito à escolha terapêutica. Ou seja, tentamos conseguir uma abordagem terapêutica personalizada para cada doente, consoante a biologia do seu tumor. É um dia a dia desafiante, mas ao mesmo tempo entusiasmante, pois sabemos que estamos a trabalhar para fazer a diferença na vida destas pessoas.
 
Sandra Casimiro, investigadora pós-doutorada, Laboratório Luís Costa, Oncobiologia Translacional (Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes): É passado entre a idealização e a execução de experiências, o acompanhamento dos colegas de equipa e a análise dos resultados, a gestão dos fundos disponíveis, a constante candidatura a formas de financiamento, à necessidade constante de estarmos atualizados perante as novas e constantes descobertas que podem ajudar ou mudar o rumo das nossas pesquisas.
 
Sérgio Dias, investigador principal no Laboratório de Biologia Vascular & Microambiente do Cancro (Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes): Um cientista que investiga não só o cancro como outros temas passa o seu dia a dia a ler, a estudar, a planear e a realizar experiências que procuram responder a questões que vai colocando.

Célia Carvalho, professora Auxiliar da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e Investigadora, Laboratório Maria Carmo-Fonseca, RNA e Regulação Génica (Instituto Medicina Molecular João Lobo Antunes): Uma mulher que investiga o cancro tem o seu dia a dia muito semelhante ao de qualquer outra mulher trabalhadora: além do trabalho, cuida dos filhos, da casa, do marido, dá apoio a uns e outros. Quando chega ao laboratório vai ver como estão as células que tem em cultura na estufa. As células tumorais em cultura são um instrumento fundamental para investigar mecanismos alterados no tipo tumoral em estudo e para testar alternativas terapêuticas que ajudem a eliminar seletivamente as células tumorais. Como controlo existem as culturas de células mais semelhantes às células normais que devem sofrer o mínimo com as terapias em teste. Outras atividades incluem a realização de testes moleculares a extratos de tecidos tumorais resultantes de cirurgias, a análise dos resultados e o desenvolvimento de novas metodologias para que estes testes possam dar os resultados mais fidedignos e informativos. Não é possível desenvolver todo o projeto isoladamente e é obrigatória a colaboração com colegas com especialização em áreas complementares. Existe também a componente formativa e estudantes a quem se orienta no trabalho de investigação. Existe a componente de estudar o que outros cientistas de todo o mundo publicaram em revistas científicas e a de participação em conferências internacionais da nossa área de interesse apresentado os nossos trabalhos e assistindo às apresentações dos pares.  

Ainda estamos longe da cura? Quais têm sido as evoluções mais importantes neste caminho?
 
CS: Sabemos que a cura está longe. O cancro é uma entidade muito heterogénea e em constante transformação. Isto faz com que ganhe resistência aos fármacos usados nos tratamentos. Neste momento, parece-me mais sensato pensar em medidas que nos permitam adaptar terapias, acompanhando a constante mudança do tumor, e tornando a doença crónica, do que propriamente pensar em cura.
 
SC: Ainda estamos longe da cura, mas sem dúvida podemos aumentar o tempo de sobrevivência das doentes com cancro metastático. Neste campo, as evoluções recentes, com novos tratamentos aprovados ou em estudos clínicos, como os inibidores de ciclinas ou a imunoterapia, são uma vitória muito significativa da investigação básica e clínica.
 
SD: O cancro é um conjunto de doenças crónicas e, assim sendo, quem estuda o cancro tem como ideia subjacente tentar reduzir a progressão da doença, controlando as diferentes vertentes do corpo que vão sendo afetadas com a progressão da doença. No caso do projeto que estamos a realizar com o apoio do Fundo iMM-Laço, o que procuramos fazer é melhorar a forma como o sistema imunitário reconhece o cancro, controlando o seu crescimento.

CC: Podemos dizer que a cura para o cancro não está no horizonte, mas atualmente a abordagem clínica já dispõe de tratamentos mais eficazes e com menos efeitos secundários, com uma manutenção apreciável da qualidade de vida do doente com cancro, em numerosos casos. Ao nível molecular, os tratamentos têm vindo a evoluir devido à aplicação de novas tecnologias em investigação que permitem sequenciar em grande escala numerosos tumores e que permitem detetar ácidos nucleicos com cada vez maior sensibilidade e precisão. A grande acumulação de conhecimentos tem permitido otimizar terapias dirigidas a mutações específicas de tumores que possam contribuir para uma eliminação seletiva das células tumorais: terapia mais eficazes e com menos efeitos secundários. Em grande desenvolvimento estão as metodologias de caracterização molecular dos tumores, que procuram contribuir para um melhor diagnóstico e seleção da terapia mais adequada, chamamos a isso identificação de biomarcadores de prognóstico e de previsão de resposta a terapias. 
 
Quantas mulheres conseguem ser ajudadas com estes projetos?
 
CS: Sendo que o objetivo deste projeto é personalizar a terapêutica dos doentes, de acordo com a biologia do seu tumor, esperamos que o resultado do nosso trabalho chegue a todos os doentes oncológicos, através do nosso Sistema Nacional de Saúde.
 
SC: Com o nosso projeto em curso, apoiado pelo Fundo iMM-Laço, podemos vir a ajudar muitas das mulheres com cancro da mama metastático, que são cerca de 30% de todos os casos diagnosticados. É por isso um número significativo. Ainda que fosse um número reduzido de mulheres, num nicho particular e raro da doença, valeria sempre a pena.
 
SD: O objetivo de um qualquer projeto de investigação é, num primeiro nível, aumentar o conhecimento numa determinada área da biomedicina. Mais especificamente na área da oncologia, um outro objetivo é formar pessoas que vão progredir na carreira e levar a que estas pessoas mantenham o interesse em estudar o cancro. Por último, se os resultados obtidos tiverem um forte impacto – por exemplo a descoberta de um biomarcador de progressão da doença ou de um novo potencial alvo terapêutico, entre outras potenciais descobertas –, poderão avançar para uma nova fase, que será o desenvolvimento de produtos com eventual aplicação clínica, tendo neste caso impacto direto junto das mulheres diagnosticadas com cancro da mama.

CC: Eu faço investigação básica, ou seja, procuro saber o porquê das coisas, procuro a caracterização molecular e funcional das células tumorais. A investigação básica é muito importante, é um pilar fundamental para construir o conhecimento e é a base de toda a ciência aplicada e de todos os avanços com aplicação clínica, mas o seu efeito não é mensurável. Podemos comparar a um agricultor que semeia o seu campo. Muitas sementes são atiradas ao campo, muitas nascem e o agricultor cuida com cuidado das pequenas plantas, mas nem todas chegarão a ser adultas e a dar fruto. Podemos ter a certeza, sempre que olhamos para uma árvore grande e frondosa, cheia de suculentos frutos, que um dia foi pequenina e bem cuidada, mas quando olhamos para uma plantação de pequenas plantas sabemos que nem todas se tornarão um dia possantes e poderosas, é essa a lei da vida. 
 
O cancro de mama metastático é o causador de 90% das mortes em casos de cancro de mama. Em março do ano passado, os salões conseguiram angariar €6.877,20 para este fundo e, este ano, espera-se que o valor seja superior."A população portuguesa é muito generosa e são muitas as provas disso mesmo. Em termos das Hair Fashion Weeks e do contributo para os projetos sobre o cancro de mama, sentimos um grande apoio. A adesão crescente é reveladora. As pessoas estão disponíveis para contribuir, mas temos de ser transparentes e sinceros, sobretudo numa altura em que se multiplicam as causas a apoiar", explica Vasco Malveiro. Pode saber mais sobre a investigação, aqui: https://fundoimmlaco.pt.
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