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Trabalhar em casa (com prazer)

Mudam-se os tempos, mudam-se os hábitos de vida. Perante o isolamento obrigatório, começou a trabalhar-se a partir de casa num ambiente novo e sem distrações. A época é de reinvenção: de hábitos, de manias e de rotinas. A zona de conforto é um lugar muito agradável, mas nada cresce a partir de lá.
Por Pureza Fleming, 02.06.2020
Muito se tem escrito acerca do que significa trabalhar-se a partir de casa. Dão-se conselhos e espalham-se truques. Alerta-se para os perigos da procrastinação, essa grande desafiadora de quem trabalha em casa… com atrações e distrações. E assegura-se que há quem possa vir a sofrer muito com a questão do isolamento. Numa Ted Talk acerca do tipo de trabalho remoto, Nicholas Bloom, professor de economia da Universidade de Stanford, na Califórnia, asseverava que existiam dois tipos de trabalho que se faziam a partir de casa: aquele a curto prazo ou ocasional e o de caráter permanente ou em período integral. E referia, ironicamente, que tal seria como "comparar exercícios leves com treinos para uma maratona".

O ano passado, um estudo reuniu 2.500 colaboradores remotos da agência de desenvolvimento de marcas online Buffer e descobriu-se que a solidão era o segundo desafio mais relatado, vivido por 19% dos entrevistados. A conclusão seria que a solidão podia fazer com que as pessoas se sentissem menos motivadas e menos produtivas. Na mesma Ted Talk, Bloom adiantava: "No geral, um período curto de duas a quatro semanas a trabalhar em casa em tempo integral seria económico e pessoalmente penoso, mas suportável. Por outro lado, um período mais longo de dois ou de três meses em tempo integral a trabalhar a partir de casa poderia levar a sérios custos económicos e de saúde."

Estudos à parte, eu não veria as coisas desse modo. São três horas da tarde quando me sento frente ao computador para escrever este texto. Antes disso, realizei uma caminhada (curta) à beira-rio, pratiquei yoga na minha sala, cozinhei (uma refeição saudável), arrumei e limpei algumas partes da casa, conversei com amigas ao telefone, apliquei uma máscara hidratante no rosto e no cabelo [ler o artigo de beleza em casa], espreitei as redes sociais e tratei de outras questões relacionadas com o trabalho. Neste tempo de confinamento devido ao surto do coronavírus, assim se passam os meus dias. Em tempos normais, também.

Enquanto freelancer, o estatuto profissional que adotei, há cerca de dois anos, é desta maneira que se desenrola o meu quotidiano. Com mais tempo para tudo e com menos stress, sempre desnecessário. Isto considerando a inconstância em termos de trabalho causada pelo estatuto do freelancer que é, como se pode constatar atualmente, uma ilusão. Quem tinha um trabalho aparentemente seguro, agora pode muito bem estar de mãos na cabeça a pensar: "E agora?!" E essa é a lição número um a tirar-se e que servirá no futuro: nada é certo, nem mesmo o trabalho mais seguro do mundo. Trabalhar em casa pode ser bom. Acredito que não seja fácil para todas as áreas. Contudo, há regras que são transversais a todos os setores profissionais para que esta realidade seja uma mais-valia e não se torne um pesadelo.

Reinventar recomenda-se

"O mais importante para o trabalho à distância ser um prazer é conseguir encontrar-se utilidade no trabalho realizado, bem como procedimentos que o tornem útil. É importante que se desvende o gosto que se pode ter ao criar-se novos métodos de trabalho (novas aprendizagens). É essencial, também, que se veja [no trabalho feito a partir de casa] uma possibilidade para se descobrir vantagens do ponto de vista pessoal, como é o caso do aumento do tempo e da disponibilidade para a própria pessoa e para a sua família e amigos através do tempo que se poupa, por exemplo, em deslocações, bem como da reorganização da rotina", elucida a psicóloga Paula Trigo da Rosa.

Os primeiros tempos não serão fáceis. A não obrigação de se cumprir uma rotina pode causar estranheza. Mas a questão é precisamente essa: é que também o trabalho feito a partir de casa necessita, imperiosamente, de uma rotina: "Essa é a grande dificuldade. Conseguir-se delinear fronteiras entre a vida pessoal e a vida laboral. Querer fazer um pouco de tudo e misturar ambas [a vida pessoal e profissional] pode levar à desorganização total. Ter rotinas, horários e até condutas, como será o ato de se vestir, por exemplo, que a coloquem num papel de tempo profissional e outras que a coloquem no papel de tempo pessoal e até de lazer, ajuda a que se ligue ao que se está a fazer e a que se foque nisso", assevera aquela psicóloga.

Efetivamente, tudo deve começar com o despertador. Tal e qual como se fosse para o escritório. É possível adiar um pouco a tormenta de se ter de levantar num pulo da cama, uma vez que não se terá de enfrentar o trânsito caótico. Mas o despertador tem de tocar cedo, como se se tivesse de ir para o local de trabalho. Ainda que haja quem defenda que se isso continuar a gerar stress, tal como antes do confinamento, é preferível adiar um pouco o despertar, tendo em conta que tal se deve fazer com cautela para não gerar desleixo. Até porque estar-se em casa a trabalhar não é o mesmo que se estar em férias.

Uma outra maravilha é a de se poder tomar o pequeno-almoço calmamente. Esqueça-se o café engolido à pressa e o bolo calórico e vazio de nutrientes ingerido entre um e outro semáforo. Aproveite-se o facto de se estar em casa para se rever os (maus) hábitos alimentares. O dia começará melhor. Outra questão muito importante é que trabalhar em casa não é sinónimo de "festa do pijama" todos os dias. Muito pelo contrário. Manter-se à hora habitual a disciplina dos cuidados de beleza (e da roupa-além-do-pijama) é essencial ? ainda que, em formato de comemoração e de relaxe em torno das normas, se se permita passar a primeira semana a trabalhar de "pijama", mas não mais do que isso.

Num artigo publicado na revista Forbes americana, a autora ressalta a importância que é usar-se sapatos quando se trabalha a partir de casa (eu não o faço, pois sapatos usados na rua dentro de casa é algo que não se insere na minha realidade, mas sim sapatos "caseiros", tanto mais que devido às normas de contenção da pandemia, o calçado deverá ser desinfetado ao chegar-se a casa e usar-se, isso sim, calçado que só deve servir para o interior). Eis a explicação daquela autora: "Primeiro de tudo, quando não se usa sapatos (e se está descalço, de meias ou a usar chinelos), está-se a adotar uma mentalidade relaxada. Pense no ato de se trabalhar em casa como se estivesse a trabalhar no escritório. Por lá anda descalça? Depois, quando se calçam sapatos, vai-se trabalhar. Quando se usam chinelos, não. Quando se opta por se usar sapatos em casa faz-se uma associação mental ao trabalho, ainda que se esteja a trabalhar a partir de casa. Se for daquelas pessoas que se recusam a usar sapatos dentro de casa, compre um par de sapatos para usar somente quando estiver a vestir a sua ‘versão profissional’ dentro de casa.

Desenvolver uma mentalidade de trabalho em casa é vital e, por mais estranho que pareça, usar sapatos ajudará", assegura aquela autora. Crucial, e no seguimento da questão da rotina, é criar-se um plano de trabalho. Entenda qual é o seu estilo de trabalhador: funciona melhor de manhã, pela fresca? A sua produtividade é a de uma "morning person" ou nunca foi e agora pode, finalmente, rever essa situação, já que não tem de "picar o ponto" no escritório? Precisa de silêncio absoluto ou de uma música de fundo que a deixa ser mais criativa e ainda mais produtiva? Reserve algum tempo para se sentar e para entender melhor qual é o seu estilo de trabalhadora em casa e use essas ideias para planear a sua abordagem. Este é um dos fundamentos do trabalho a partir de casa.

Após uma conclusão, planeie os seus dias, seja numa agenda ou num calendário. "A sensação de se ter mais tempo pode levar a que se trabalhe mais horas e a uma maior exaustão, bem como pode deixar que a vida privada se deixe invadir pela vida profissional. [Por norma] o trabalho deve ficar à porta de casa. Porém, quando o trabalho se encontra dentro de casa este deverá ser guardado numa gaveta por períodos de tempo pré-estabelecidos", conclui a psicóloga Paula Trigo da Rosa. Trabalhar a partir de casa pode trazer à superfície algumas tensões e o isolamento social é o principal, como adiantou o estudo da Buffer citado acima. Enquanto animais sociais, trabalhar em casa o dia todo pode afetar a nossa saúde física e psicológica.

Mas é possível lutar-se contra isso. Mantenha o contacto com os seus colegas, além do e-mail. Encontre tempo para pequenos encontros virtuais com os seus colegas, nem que seja para conversar. Defina um horário, numa base diária, para fazer isso, estejam eles a trabalhar em casa ou no escritório, e faça uma videochamada para fortalecer esse vínculo social. Por fim, mas não menos importante, cuide da sua saúde física. As distrações em casa, como já aqui se salientou, podem ser mais do que muitas. Não sucumba às mesmas. No entanto, permita-se fazer pausas.

Faça alguns alongamentos. Não pode ir às suas aulas de yoga por questões de confinamento? Leve o yoga até sua casa ? praticamente todas os centros de yoga estão a disponibilizar aulas online. Ainda que estejamos em confinamento dê, se possível, uma volta ao quarteirão: ande, corra ou suba e desça as escadas do prédio, segundo as normas de segurança estipuladas oficialmente… Mas faça qualquer coisa. O autor de um artigo publicado no The Business Insider, a propósito deste tema, contava como se tinha apercebido que assim que começou a trabalhar em casa dois dias por semana, rapidamente havia ganhado peso. E é muito fácil que tal aconteça. Afinal, o frigorífico encontra-se apenas à distância de uma assoalhada. O ganho de peso pode ser um efeito colateral inesperado de se trabalhar a partir de casa, portanto encontre tempo para se mexer. Até porque, além do mais, está provado que o exercício, mesmo que seja uma curta caminhada, aumenta a criatividade e o humor. Assim, o seu corpo agradece e o seu trabalho também.

Trabalhar em casa… com filhos à mistura

Na descrição do meu quotidiano não referi uma questão muito importante: eu não tenho filhos pequenos. Sou a mãe de um adolescente de 16 anos que, naturalmente, não precisa tanto de mim. É claro que este fator facilita muito a minha rotina ? mesmo em tempos de confinamento. Estar a trabalhar a partir de casa, entre telefonemas e reuniões pelo Zoom que precedem o cuidar do corpo e da casa e que antecedem a preparação da próxima refeição e de voltar a colocar tudo em ordem, outra vez, na cozinha e na sala, não se assemelha a um cenário de sonho porque isso só é visível nos feel good movies femininos, nos quais tudo se faz com leveza, destreza e glamour num estalar de dedos. Porém, sublinho, é tudo uma questão de se reinventar a rotina. Nunca ninguém disse que a vida era uma linha reta, pois não? E não parecendo nada fácil é possível, mesmo para mães com filhos pequenos.

Mariana Duarte Silva, cofundadora do Village Underground Lisboa, um espaço cultural e de empresas para a indústria criativa, tem 41 anos e três filhos de quatro, seis e nove anos. Enquanto uma profissional que trabalha na área artística, navegar fora da zona de conforto sempre foi uma realidade: "É complicado [o atual panorama de confinamento], mas não é mais complicado do que o nosso dia a dia já era. É apenas diferente", partilha comigo por telefone enquanto eu estou sentada no meu sofá da sala e ela, segundo me diz, está encostada à janela do quarto virada para o sol. O seu tom é descontraído e, em fundo, não se pressentem vestígios de confusão infantil. Tudo parece sereno. Diz-se que o hábito faz o monge e este casal é a prova disso. Mariana e Gustavo, o marido que, além do trabalho como DJ, se encarrega da parte executiva do Village Underground Lisboa, contornam a situação da quarentena com mestria absoluta. Mais: tentam tirar partido dela, apesar de todos os "mas" e os "ses" que a situação arrasta.

"Basicamente, nós reinventámos a rotina. Deixámos de pôr o despertador cedíssimo e permitimo-nos acordar um bocadinho mais tarde. Olhamos para esta situação [de confinamento] como uma oportunidade para rever as rotinas, o stress típico do dia a dia e a azáfama da vida na cidade. Se tudo correr bem, não voltaremos a ter esta oportunidade de estar semanas seguidas a viver assim", remata. E garante que "têm sido umas tardes ótimas". Faz questão de confessar que, no momento atual, se sente uma privilegiada já que se encontra em casa dos pais, em Azeitão, onde tem quem lhe prepare os almoços e os jantares.

No entanto, só tem consciência dessa benesse porque no dia a dia não é isso que se passa na sua vida: "Sempre tive de estar em todas as frentes enquanto mãe com um negócio próprio e sem um 9 to 5 job. Sempre foi assim a minha vida." Confidencia que vê muitas mães, suas amigas, preocupadas com a questão da escolaridade dos filhos, neste momento, algo que não lhe faz confusão: "Sou uma mãe que não complica muito. Estamos todos na mesma situação, o mundo inteiro. E os miúdos têm a vida toda para aprender. O mais importante agora é que eles estejam bem e que aproveitem esta altura para fazer outras coisas… Ocuparem-se com atividades além daquelas que a vida ‘normal’ se habituou a impor." O segredo parece ser relaxar. O verbo, reinventar. O panorama não vai mudar por haver mais ou menos preocupações ou por colocarmos mais ou menos stress no que se passa em nosso redor e no mundo.

No que respeita à já citada solidão, é claro que quando se trabalha isolado esta acaba por surgir. É incontornável. Mas faça este exercício: quantas vezes sentiu a solidão no local de trabalho? Incompreendida e rodeada de ninguém? Quantas vezes desejou largar tudo e fugir para casa, para perto dos seus? Não faça do queixume um hábito. Ninguém está a dizer que o momento que o mundo atravessa não é complicado, porque é. Apenas não deixe que a realidade da sua vida seja constantemente presa por ter cão e presa por não ter. Perante a mudança, reinvente-se. E se ainda assim se sentir sozinha, fique a matutar na seguinte frase de Fernando Pessoa, pela voz de Bernardo Soares: "A liberdade é a possibilidade de isolamento. És livre se te podes afastar dos homens (…). Se te é impossível viver só, nasceste escravo."
Tags: trabalhar a partir de casa confinamento isolamento social pandemia teletrabalho crianças comportamento ted talk califórnia nicholas bloom universidade de stanford buffer paula trigo da rosa mariana duarte silva village underground
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