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Porque é que janeiro é o mês dos divórcios (e como perceber se chegou o seu momento)

Há algo de poeticamente cruel em janeiro. Enquanto arrumamos as luzes de Natal e prometemos voltar ao ginásio, há quem esteja a preparar outra resolução – menos instagramável, mas profundamente transformadora: o divórcio.

Separados de Fresco (2006)
Separados de Fresco (2006) Foto: IMDB
26 de janeiro de 2026 às 17:42 Patrícia Domingues

Não é mito urbano nem pessimismo sazonal. Janeiro ganhou estatuto oficial de “Divorce Month”, um título informal cunhado por advogados de família que, ano após ano, notam o mesmo fenómeno: as primeiras semanas do ano trazem um pico significativo de pedidos de separação. Um estudo da Universidade de Washington identificou um aumento de 33% nos processos de divórcio em janeiro, e dados recentes mostram que as pesquisas por termos como “divorce” ou “how to get a divorce” disparam entre dezembro e janeiro. O romantismo pode até estar em pausa, mas o Google não.

Segundo Susan Myres, presidente da American Academy of Matrimonial Lawyers, esta tendência começou a ganhar força nas décadas de 1970 e 1980, quando os baby boomers começaram a divorciar-se em maior número. Desde então, janeiro consolidou-se como o mês em que muitas relações chegam ao seu ponto final.

Mas porquê janeiro? Como explica Julie Brines, socióloga e coautora de um dos estudos mais citados sobre o tema, “as pessoas enfrentam as festas com expectativas elevadas, apesar das desilusões passadas”. O fim do ano funciona como uma espécie de ritual coletivo de esperança. Um último esforço. Um talvez agora seja diferente. Quando não é, janeiro surge como o palco simbólico do recomeço. É o que a psicologia chama de “fresh start effect” – a ideia de que datas marcantes facilitam decisões difíceis, mas necessárias. No fundo era isso ou uma franja.

Para Mariana Carreiro, psicóloga clínica especializada em terapia de casal e divórcio, o fenómeno tem raízes emocionais claras. “O período das festas intensifica a convivência, expõe conflitos latentes e acentua a distância entre expectativas e realidade”, explica. Muitas decisões são adiadas para não “estragar o Natal”, sobretudo quando há filhos. O resultado? Uma acumulação silenciosa de tensão emocional que, em janeiro, deixa de ser sustentável.

Há também uma pressão invisível para manter as aparências – a fotografia perfeita, o casamento funcional, a narrativa socialmente aceitável. “Existe uma tendência para confundir estabilidade externa com bem-estar interno”, sublinha a psicóloga. O medo do julgamento, da culpa ou do rótulo de fracasso mantém muitas pessoas em relações insatisfatórias durante anos. Janeiro, com a sua promessa de folha em branco, oferece finalmente permissão para sair desse papel.

Mais do que o fim de uma relação, o divórcio é muitas vezes o início de uma pergunta desconfortável: quem sou eu fora deste nós? Segundo Mariana Carreiro, trata-se de uma verdadeira “transição identitária”. “Grandes ruturas obrigam a uma reorganização do autoconceito: que padrões repeti, que necessidades ignorei, que escolhas fiz?”, explica.

É aqui que o divórcio deixa de ser apenas jurídico ou emocional e se torna existencial. Para algumas pessoas, este “espelho” – como lhe chama a psicóloga – é brutal. Para outras, libertador. O que diferencia quem consegue transformar a separação num processo de crescimento não é a ausência de dor, mas a forma como essa dor é integrada. Estudos sobre adaptação ao divórcio mostram que atribuir significado à experiência – em vez de ficar preso à culpa ou à narrativa da perda – é um dos principais fatores de recuperação emocional, explica a especialista.

Separados de Fresco (2006)
Separados de Fresco (2006) Foto: IMDB

Antes de dizer “acabou”, o que importa mesmo ponderar

Num mundo que romantiza tanto o ficar como o sair, Mariana Carreiro deixa um aviso elegante: nem toda a crise é um fim, mas nem todo fim é evitável. Antes de tomar uma decisão, é essencial distinguir conflitos pontuais de padrões repetidos, perceber se existe disponibilidade real de ambas as partes para trabalhar a relação e avaliar se há espaço para comunicação emocional segura.

“Por vezes esquecemo-nos de que a relação é, em si, um terceiro elemento que precisa de cuidado”, explica. O acompanhamento psicológico – individual ou de casal – pode ser crucial para clarificar sentimentos e evitar decisões tomadas em exaustão emocional, quando tudo parece definitivo, mas nada está verdadeiramente pensado.

Janeiro não é cruel por provocar divórcios. Talvez seja honesto. Obriga-nos a olhar para o que foi, para o que não resultou e para quem nos tornámos no processo. Para alguns, o divórcio será sempre uma ferida. Para outros, um renascimento silencioso. A diferença está na narrativa interna: ficar preso à ideia de “falhanço” ou permitir-se reescrever a própria história.

No fim, janeiro não é o mês dos divórcios. É o mês da verdade. E, às vezes, a verdade é o primeiro passo para uma vida mais alinhada – mesmo que comece com caixas por desempacotar e um coração em reconstrução.

 

 

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