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Patrick Watson: “A minha história é muito pouco cool”

Preferências musicais à parte; será verdadeiramente possível não gostar da sonoridade de Patrick Watson? Cremos que não. O seu mais recente disco, ‘Wave’ marca uma viragem na vida pessoal do artista e compositor canadiano, como revela à Máxima.

16 de outubro de 2019 | Rita Silva Avelar

Patrick Watson nasceu na Califórnia (1979, Lancaster) mas cresceu no Quebec, no Canadá. Um artista solitário mas com uma animosidade muito carismática, Watson cresceu a tocar num piano e a compor sozinho. Primeiro, descobriu que tinha uma voz no coro da igreja, onde começou por cantar solos, no liceu juntou-se à banda de ska Gangster Politics. Em 2001 lançou o seu primeiro disco, Waterproof9. O seu terceiro disco, Close to Paradise (2006), recebeu o prémio Polaris Music Prize em 2007. As suas músicas, que nascem de uma sonoridade que mistura influências de indie pop, com experimentações de sintetizadores, com um estilo cinemático orquestral, a par de um tom melancólico. Entre séries e filmes, as suas músicas já fizeram parte da banda sonora de mais de 37 projetos ligados ao cinema e televisão. No ano passado, foi uma das vozes no concerto de homenagem "Tower of Song: A Memorial Tribute to Leonard Cohen". De passagem pela capital portuguesa para promover o seu novo disco, Wave, em antecipação aos concertos de 23 de fevereiro, no Coliseu de Lisboa, em Lisboa, e a 24 de fevereiro na Casa da Música, no Porto (em 2020) Patrick Watson conversa com a Máxima no Hotel Flórida, em Lisboa. Melody Noir e Dream of dreaming são os singles já revelados, embora o disco chegue às lojas a 18 de outubro.

Que sons marcaram a sua infância, em criança? E como era a cultura musical do local onde cresceu?

Eu cresci numa cidade pequena. As minhas memórias reais de a música se ter apoderado da minha vida remetem aos meus sete anos. Quando comecei a cantar num coro, nem sabia que sabia cantar. Disseram-me, a certa altura, que ia cantar um solo, por isso no primeiro domingo fiz logo um solo. Naquela cultura – e apesar de eu não ser uma pessoa particularmente religiosa – cantar em funerais ou casamentos, ou outros momentos grandes na vida das pessoas, não algo é sobre a pessoa que canta, mas sim sobre o momento em si. Eu cresci com a música a ser sobre momentos, e não sobre mim, e eu adorava esse sentimento. Era, também, o privilégio de fazer parte de momentos importantes na vida das pessoas. Acho que acabei por manter isso na minha carreira inteira. Aos 15 ou 16 anos, eu não conhecia bandas. Bem, ouvia Michael Jackson mas não era como um ícone.

Já escrevia música?

Sim, já componha as minhas próprias músicas, improvisava. Mas como cresci numa cidade pequena, o ideal de me tornar artista parecia de facto impossível. Eu era uma criança muito quieta, muito emocional, sensível, confuso e um pouco doido (risos). Em casa, por vezes, as coisas ficavam muito complicadas, e eu ia simplesmente tocar piano – esse era o meu mundo. Cheguei a pensar que os espíritos estavam a escrever música para mim.

Isso, de certa forma, criou a sonoridade Patrick Watson?

Eu sinto que quando falo com outros artistas descubro que eles ouviam bandas muito cool, como os Led Zeppelin, e todos têm histórias interessantes. A minha história é muito pouco cool (risos). Porque é uma história muito isolada, tudo o que eu tinha era um único som na minha cabeça. Desde uma idade muito tenra que desenvolvi a minha sonoridade, a minha linguagem, e sozinho.

Em que momento percebeu que o seu falseto poderia ser um aliado?

Quando era mais pequeno não era muito bom compositor. Estava mais interessado na música instrumental, e em praticar a estrutura do som. À medida que fui crescendo, melhorei a minha composição.

Perdeu a sua voz, há quatro anos… é verdade?

Sim, perdi o meu falseto, porque dei cabo da minha voz. Dei um concerto sem o meu falseto, e senti-me muito mal. No fim, as pessoas disseram-me que adoraram esse concerto. Este álbum é sobre essa nova exploração… Primeiro, foi a minha voz que quebrou. Depois foi a minha vida. E depois foi por aí a fora… No momento em que tudo ruiu, pensei: o que é que tenho, de sobra, depois de perder tudo? (…) Só me restava tentar recuperar tudo, da melhor maneira… Quando a minha voz sumiu passei por uma fase complicada com a pessoa com quem estava, não me comportei da melhor forma.

Em que momento é que isso mudou?

Quatro anos depois conheci alguém extraordinário, e a primeira coisa que fiz (porque não queria mais mentir) foi enumerar todas as coisas que fazem de mim quem sou, boas e más, e duas semanas depois a minha voz regressou. Foi estranho, porque duas semanas depois estava a cantar num concerto, e de repente consigo cantar um hino… tinha o meu falseto de volta. Uma lição? Nunca mais mentir, a não ser que isso salve a vida de uma pessoa…

O que é que pode ter influenciado esse mau momento?

Crescer nos anos oitenta foi como crescer num tempo brilhante, onde é tudo feito de "açúcar" [alusão à expressão "made out of sugar". Os nossos pais vieram de uma geração que passou pela Segunda Guerra Mundial, e que quis construir um mundo "mais doce". Qualquer coisa que fosse mais desafiante, ninguém queria lidar com isso. Por isso, também, sinto que cresci numa mentira, protegido por quão "más" as coisas podem ser, na verdade. A minha mãe tinha uma doença mental grave, quando era criança. De certa forma via que num minuto estava tudo bem, no outro tudo errado, e ninguém falava disso. No final, cresci a pensar que não fazia mal usar a mentira. Isso não existe. Eu não sou um crente absoluto no certo e no errado, não sou o tipo de pessoa que escolhe "preto ou branco", acredito que toda a gente tem um lado feio. Sinto-me confortável em saber que as pessoas podem ser metade maldade… prefiro viver na verdade, do que fingir que tudo é perfeito. Além disso, tudo é mais divertido, assim.

É verdade que "Wave" tem a ver com os altos a baixos da vida, e sobre a forma como reagimos a esses momentos?

O álbum tem lugar num sítio muito específico. Não tem a ver com desgostos de amor ou fins de relacionamentos. Toda a gente vai passar por momentos loucos nas suas vidas, porque a vida é mesmo assim. Agora, há ondas muito grandes, e se tentarmos nadar sobre elas, vamos afogar-nos. Não se consegue nadar contra a corrente, quando é demasiado poderosa. Este álbum vem de um momento em que decido não nadar, e deixo as coisas acontecer. Todas estas músicas são pequenos momentos em que estou nesse espaço, em que cedo. Na segunda metade do disco sinto que estou a nadar de novo. 

Era isso que queria transparecer com este disco? Acaba por ser um pouco sobre impotência?

A música é poderosa, mesmo quando não entendemos a língua. Acredito que a nossa linguagem corporal também transmite muito. Para mim é um disco muito especial, repleto de momentos bonitos, tudo tem um significado. Sinto que poderia ter lançado as músicas uma a uma, cada música é um single.

Dream of dreaming é uma daquelas músicas que nos fazem sentir a flutuar. Qual é a história?

É uma música muito particular. Estava num avião a caminho de casa, e ao meu lado viajava uma senhora com um perfume demasiado intenso, então fiquei muito enjoado durante 10 horas. Cheguei a casa, compreendi que os meus filhos já não viviam comigo, a minha mulher tinha saído casa, e era a primeira vez que regressava a uma casa vazia. Sentei-me no sofá e pensei: "Wow…" Não teve a ver estar triste, mas sim a surpresa de estar naquela situação. Nunca pensei em estar naquele cenário, porque tinha uma ideia fixa de como a minha vida seria… Foi a sensação de pensar: "é demasiado tarde, já não posso resolver nada. Estou nas mãos do destino". Foi um sentimento estranho e assustador. É este o pior aspeto das grandes mudanças.

Cresceu numa geração que viveu o antes e o pós tecnologia. O que é que de melhor e pior o digital trouxe à música?

Quando se quer ser músico, não se estuda apenas vinte anos de história mas sim mil. Se olharmos para esse tempo, há imensas mudanças. Por exemplo, agarrarmo-nos à ideia de que os LP’s foram a grande descoberta da música, isso está errado. Porque antes disso havia sinfonias, concertos… e antes das gravadoras, toda a gente cantava uns para os outros. Sempre que a indústria da distribuição muda, há aspectos bons e maus. Por exemplo, um aspeto negativo no Spotify: quando estamos a ouvir uma música, já sabemos o que vem a seguir, e isso é um problema, é como se a nossa atenção se dispersasse. Mas também é uma janela para descobrir música nova. Uma vantagem da era dos álbuns? Ninguém é obrigado a compor oito temas que têm de funcionar juntos. Existe uma liberdade nisso. Quando comecei era quase preciso ser-se milionário para fazer com que algo soasse bem. Alguém com um labtop pode criar música boa. Vejamos a Billie Eilish? Cria música no próprio quarto, com o irmão, e a música dela é incrível. E não é num estúdio de um milhão de euros.

Sei que tem uma relação especial com Portugal, é recíproco?

Eu descobri Lisboa através de um filme chamado Viagem a Lisboa, de Wim Wenders, especialmente por causa da música, que é de Madredeus. Ouvi muito Madredeus, quando era mais jovem. E acho que a música deles traduz muito a sensação de estar em Lisboa, um pouco melancólica. Fui tão inspirado por essa sonoridade, que acho mesmo que parte da minha influência vem daqui. É um amor genuíno. Quando caminho nestas ruas é como se a cidade cantasse para mim.

Uma boa história, em palco?

Em Lisboa… o maior desastre foi quando sofri uma intoxicação alimentar durante um concerto. Toquei três músicas e avisei que voltava ao palco em 10 minutos. Quando regressei toda a gente estava a rir, eu incluído, e logo a seguir a energia foi abaixo. Todos os microfones desligaram. Acabei a cantar a capella, foi um momento mágico. Quando a luz voltou, alguém me disse que o concerto tinha dado em direto, na rádio. Ou seja, a sério que toda a gente me ouviu a vomitar durante a minha ida à casa de banho? (risos).

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