O fenómeno do 'ick': de mastigar de boca aberta a sandálias gladiador, tudo nos mete nojo. Ou estamos em autosabotagem?
Basta um detalhe para perder o interesse? Os perigos da tendência que transforma pequenos defeitos em repelentes.
Todos temos atitudes e comportamentos que nos incomodam: mastigar de boca aberta, ler as legendas dos filmes em voz alta ou pessoas mal-educadas para o empregado de mesa de um restaurante. São coisas normais que podem deixar-nos de pé atrás quando estamos a conhecer alguém. Segundo o Urban Dictionary, um ick é “algo que alguém faz e que te desmotiva instantaneamente, fazendo com que odeies imediatamente a ideia de teres uma relação romântica com essa pessoa”. Ou seja, não se trata tanto de valores morais, são mais aspetos físicos ou comportamentos que causam repulsa.
A psicóloga Chivonna Childs, no artigo, Here’s How To Handle the Ick When You’re Dating, publicado pela Clevland Clinic, explica que este fenómeno não é novidade: “Penso que as redes sociais lhe deram vida e lhe atribuíram um novo nome”, acrescenta a psicóloga.
E apesar de algumas atitudes de repulsa serem justificadas, parece que começámos a tratar comportamentos humanos normais como um dealbreaker para não nos envolvermos com alguém. Claro que pode não gostar que alguém use ténis sem meias, mas isso não é motivo suficiente para não tentar conhecer a pessoa. O over-icking está a terminar relações sem lhes dar sequer uma oportunidade de começarem.
Mas, por que é que temos esta sensação quando alguém faz algo de que não gostamos? É simples: reforça os nossos preconceitos cognitivos. “Por vezes, vemos nas outras pessoas coisas que não gostamos necessariamente de ver em nós próprios e acabamos por atribuir-lhes um significado que, na verdade, não têm”, esclarece Childs.
É importante lembrar que icks não são red-flags: “Se alguém a está a humilhar, a insultar, a maltratar mental, emocional ou espiritualmente, essas são coisas reais e afetam a sua moral e os seus valores», adverte a psicóloga. “Mas se alguém estiver a usar o talher errado ao jantar ou a escrever com erros nas mensagens, essas podem ser coisas que se discutem e resolvem, se realmente se importar com essa pessoa”.
O Over-Icking pode ser também um mecanismo de defesa ou uma forma de auto-sabotagem (porque sejamos sinceras: não é normal o facto de só por alguém ser filho único ou usar um champô 3 em 1 automaticamente impedi-lo de ter uma relação com alguém). A especialista em relações e autora de Unsingle, Amy Chan, em entrevista à PopSugar, expica a importância de avaliar se estamos a usar o julgamento como forma de evitar conexão: “Essa sensação de repulsa tem, muitas vezes, menos a ver com a outra pessoa e mais a ver conosco. Pode tornar-se uma forma de rejeitar alguém antes que essa pessoa tenha a oportunidade de nos rejeitar, ou de evitar o desconforto de nos aproximarmos de alguém de verdade. É mais fácil julgar do que arriscar ser vulnerável."
As redes sociais estão inundadas de videos sobre icks e muitos deles são mais que válidos, mas o mais saudável a fazer é não manter uma longa lista de icks nas notas do seu telémovel. “Manter uma lista de coisas que não suportamos no outro leva-nos à falha”, alerta Chivonna. “Saber o que se está disposto a tolerar e o que não se está disposto a tolerar numa relação são os seus próprios critérios pessoais em termos de princípios morais e valores, que definem o que é bom para si numa relação. Mas essas coisas que não se suportam são mais como uma lista de verificação que vemos nas redes sociais, é tudo superficial”.
Por isso, da próxima vez que estiver a conhecer alguém e ele tropeçar no passeio, disser “xauzinho” ou aparecer de sandálias estilo gladiador no primeiro date (apesar de ser lei universal: não se mostra os dedos dos pés no primeiro date), respire e não feche logo as portas a uma relação que pode ter potencial para ser o amor da sua vida (mesmo que ele tenha feito um som demasiado agudo enquanto espirrava).
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