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O drama da única jornalista com linha direta para os jihadistas

O grupo jihadista somali al-Shabaab telefona dia e noite a Mary Harper para a intimidar e para lhe contar as atrocidades que cometeu. Seguem-na. Enviam-lhe sucessivos e-mails. Agora esta jornalista inglesa conta-nos como é estar na mira de uma das mais temidas organizações terroristas.

Foto: Jude Edginton
30 de setembro de 2020 | Louise Carpenter

Quando o telemóvel de Mary Harper toca e ela recebe uma chamada de um dos quatro ou cinco números que reconhece, em particular, a sua pulsação aumenta. Sente-se fisicamente doente porque sabe o que lá vem. Por vezes, quando o telemóvel toca, ela está ocupada. Por exemplo, a conduzir ou com a família ou mesmo às compras em Covent Garden. Outras vezes, não se sente, pura e simplesmente, com forças para falar com a pessoa que lhe telefona. Em algumas ocasiões, depois de ter recebido vários e-mails, o telemóvel não para de tocar: 17 chamadas numa hora, 14 num outro dia, 10 ou 15 noutras ocasiões. São provenientes do grupo islâmico extremista al-Shabaab que emergiu, na Somália, em meados da primeira década deste século, e que a quer contactar para reivindicar o mais recente ataque bombista que se verificou no país – por exemplo, a edifícios e hotéis protegidos por barricadas das forças governamentais, mas nos quais também trabalham civis, ataques, esses, que deixam nas ruas de Mogadíscio um rasto de cadáveres desmembrados e estruturas metálicas destruídas.

Uma vez atendeu uma dessas chamadas e a pessoa do outro lado da linha disse-lhe: "Os nossos combatentes divertiram-se a valer no hotel, Mary. Fizeram muitos mortos. Ficaram lá durante horas e não pararam até serem abatidos. Estavam ansiosos por se transformarem em mártires." Mary Harper é a editora dos assuntos africanos da BBC World Service. Esta jornalista, de 53 anos, sofre com frequência a perda de amigos e de contactos somalis nesses ataques. Um deles, cujo nome constava de uma lista "de pessoas perigosas", regressou ao quarto do hotel onde estava hospedado e encontrou-o em escombros, em resultado de um assalto do al-Shabaab, a secretária à qual trabalhava reduzida a cinzas e madeira queimada. Um outro, um jornalista somali, enviou-lhe uma fotografia do seu carro com os vidros estilhaçados devido a uma explosão. No tejadilho encontrava-se um braço e a parte superior de um tronco humano. Este mesmo jornalista, num outro ataque a um hotel à beira da praia, no qual os terroristas andaram de quarto em quarto matando tantos ocupantes quanto conseguiam, fingiu-se morto, caído no chão, enquanto os atacantes pontapeavam os cadáveres para verificarem se estavam, de facto, mortos. O ecrã do telemóvel de Mary Harper, como de costume, iluminou-se com um número pertencente ao al-Shabaab com uma chamada relativa ao ataque e ao envolvimento do seu amigo: "Conhecemos este jornalista e respeitamo-lo. Mas avisámo-lo para se manter afastado de locais frequentados por apóstatas […]. Não lamentamos o que lhe aconteceu. Não nos sentimos culpados. A culpa foi dele, por ter ignorado os nossos conselhos." Foi um dos raros momentos em que Mary Harper perdeu a calma devido a um contacto por parte de um terrorista e gritou com o desconhecido do outro lado da linha. "Acalme-se, Mary", foi a resposta dele.

Os mesmos homens que lhe transmitem informações sobre assassínios em massa, por vezes parecem manifestar alguma preocupação com ela. A 9 de novembro do ano passado, por exemplo, um contacto seu no al-Shabaab telefonou-lhe para lhe dizer que os guerrilheiros se tinham dirigido a um outro hotel, o Sahafi, com dois ou três carros armadilhados, tendo depois invadido o local. "Ah, e a propósito, tivemos a sorte de matar o novo dono do Sahafi. Penso que o conhecia…" Quando recebeu a notícia, Mary Harper estava a conduzir. "Estacione o carro, Mary", continuou o homem, pensando que ela segurava o telemóvel na mão, embora tivesse atendido no sistema mãos livres. "Atenção à Polícia de Trânsito." O homem terminou a chamada com um conselho: "Por favor, tenha cuidado, Mary, sobretudo quando está a conduzir. Adeus. Desejo-lhe um bom fim de semana." "Esta é uma das coisas mais sinistras", diz Mary Harper quando nos encontramos antes do lançamento do seu livro Everything You Have Told Me Is True: The Many Faces of Al-Shabaab. "O facto de alguém me telefonar para enunciar a lista dos horrores que está a infligir às pessoas ao mesmo tempo que manifesta preocupação com o meu bem-estar é arrepiante."

A estranha demonstração passivo-agressiva de "preocupação pessoal" não se fica por aqui. Ao longo dos últimos dois anos, o al-Shabaab informou Mary Harper de que acompanhava de perto os movimentos dela na Somália, o que lhe provocou grande ansiedade, dado que supunha estar em zonas seguras. Tanto quanto sabe, não está a ser seguida em Londres. Contudo, como ela própria diz, o al-Shabaab está em todo o lado e em lado nenhum. Ninguém sabe quem são. Jornalistas, proprietários de lojas, empregados da limpeza, empregadas domésticas – qualquer um pode ser um informador. Em resultado disto, além de um grupo de amigos de confiança criado ao longo de anos – os mais importantes dos quais são o seu motorista somali e os guarda-costas –, Mary Harper tem muito poucas pessoas em quem confiar.

Este rastreio dos seus movimentos no estrangeiro teve um novo desenvolvimento. Recentemente, quando regressou a Inglaterra depois de ter visitado a Somália, recebeu mais uma chamada no telemóvel. As suas viagens a Mogadíscio nunca se prolongam para além de uma semana por razões de segurança, mas pode demorar-se mais tempo noutras regiões. Numa viagem, em particular – sem aviso prévio e tão discreta quanto possível –, Mary Harper foi a uma zona "segura" no interior de Baidoa, uma cidade no sul da Somália, protegida pelas forças locais, incluindo a Darwish, uma milícia, e cujos arredores eram vigiados por tropas egípcias da AMISON (Missão da União Africana para a Somália), uma força de intervenção da União Africana. Não havia qualquer forma de o al-Shabaab ter tido conhecimento das suas atividades. Mary Harper pensa que devia haver espiões terroristas no aeroporto ou pessoas que trabalhavam à vista de todos nos locais que visitou. Um dos tais contactos do al-Shabaab telefonou-lhe e disse-lhe: "Você entrou numa loja no piso térreo de um centro comercial. Quando saiu levava consigo uma embalagem de Pringles. Depois encaminhou-se para um banco que ficava ao lado, mas que estava fechado. Bateu às portas e tentou abri-las. Tirou algumas fotografias. Os seus guarda-costas não são nada competentes. Vagueavam de um lado para o outro, conversavam, com as armas ao ombro, em vez de velarem por si." "Tudo o que me disse é verdade", respondeu-lhe Mary Harper. "Mas como o soube?" A parte inicial da sua resposta deu origem ao título do livro que agora publica [Everything You Have Told Me Is True], dando início a uma procura da natureza da verdade e à necessidade de questionar o testemunho pessoal – em particular o dos seus contactos no al-Shabaab. Em quem podemos confiar? Quem está a dizer a verdade? Quem é a vítima? Quem é o agressor? Quem é o bom e quem é o mau da fita? É este o mundo de Mary Harper, todos os dias, todo o dia, quando está na Somália. O problema político da Somália não se pode avaliar a preto e branco. Mary Harper diz do al-Shabaab: "É muito ágil, adaptável e resiliente, fornecendo, nalguns casos, serviços como o funcionamento de um tribunal ou emprego à população somali, 70 por cento da qual tem menos de 30 anos. Muitos jovens aderem ao grupo por razões financeiras."

Ao longo dos anos, o al-Shabaab evoluiu de um pequeno grupo insurgente para um movimento islâmico draconiano que, durante algum tempo, controlou grande parte da Somália, incluindo vastas zonas de Mogadíscio (de 2010 a 2011), bem como outras cidades e povoações importantes, sobretudo no sul e centro do país. Quem integra o al-Shabaab? A sua composição, estrutura e liderança é obscura. "Seguimos todos os seus passos, aonde quer que vá", disseram a Mary Harper. "Temos pessoas no governo, nas forças de segurança, nas ONG, no mundo dos negócios e nos media. São nossos amigos e têm-na debaixo de olho."

Mary Harper revela o que sucede quando regressa a Londres depois de uma viagem: "Eu recebia, invariavelmente, uma chamada de um membro do grupo enquanto recolhia a bagagem ou estava no táxi, a caminho de casa. Perguntava-me como tinha decorrido a viagem, como estava o tempo no Reino Unido, enumerando de seguida todos os detalhes do que eu fizera, com uma dose de propaganda islâmica. O grupo, geralmente, vai mais longe do que a minha família e amigos próximos no que se refere à preocupação de saber se eu cheguei em segurança."

Um guerrilheiro do al-Shabaab frente a uma multidão de mulheres obrigadas a mostrar apoio ao grupo terrorista somali
Um guerrilheiro do al-Shabaab frente a uma multidão de mulheres obrigadas a mostrar apoio ao grupo terrorista somali Foto: Getty Images

Mary Harper é hoje, talvez, a mais calma e a mais serena das pessoas que eu conheci. "Sim, já me disseram que permaneço tranquila durante uma crise. Ser submetida a situações perigosas ajudou-me a manter a calma porque não quero exasperar as pessoas à minha volta, comportando-me de maneira a levá-las a sentirem mal-estar." Não nos encontrámos em casa de Mary Harper por razões de segurança, mas num apartamento que pertence à sua mãe. Em novembro começou a receber ameaças de morte, embora não fossem do al-Shabaab. Apesar de este grupo terrorista continuar a mutilar, a provocar mortes e a raptar (embora negue o rapto de pessoas para as treinar como soldados), Mary Harper movimenta-se num mundo cuja política tem muitas nuances. O governo, o exército e as forças da AMISON não estão isentos de culpa. Os políticos e os homens de negócios, que têm os seus próprios objetivos, são forças a ter em consideração. A pior experiência vivida por Mary Harper não envolveu o al-Shabaab. Aconteceu durante um período de grande intimidação por parte de um político somali que acusava os artigos que ela escrevia de lhe terem arruinado a carreira. Agora, declara, eles dizem que foi tudo "inventado". "Mas foi a pessoa de quem tive mais medo. Isto demonstra como a Somália pode ser perigosa", afirma. "Porque as pessoas pensam: ‘Ora, o al-Shabaab é o único grupo que representa uma ameaça para ti.’ Contudo, há políticos, raptores, criminosos – qualquer um, exceto eu… Há ali muitas pessoas que podem arquitetar planos de violência."

A segunda vez em que se sentiu realmente aterrorizada aconteceu há pouco tempo e teve que ver com trolls do Twitter. Esta última ameaça à sua vida, em novembro último – período do qual diz, sem demonstrar qualquer emoção, que "não foram tempos bons" –, foi feita por telefone, mas a chamada não proveio do al-Shabaab: "As pessoas telefonam para me pôr ao corrente, sabe?", explica. Esta ameaça conduziu à sua retirada de Londres, da casa onde vivia, e à sua recolocação. Afortunadamente, os seus filhos não se viram envolvidos nesta situação, uma vez que a mais nova, de 22 anos, vivia no campus universitário, e o mais velho, de 28 anos, encontrava-se a viver longe. O casamento de Mary Harper terminou há anos. Além de dizer que não era com um somali, não fornece qualquer outra informação.

O seu silêncio acerca das emoções mais profundas é tão revelador como as suas palavras. Tornam Mary Harper tão misteriosa com as vozes e a presença de pessoas desconhecidas com as quais tem de lidar. Vinte e cinco anos a entrar e a sair da Somália têm um preço – a necessidade de ser cautelosa, o controlo de todos os aspetos da sua vida e a manutenção da calma. Na altura em que a sua vida foi ameaçada, Mary Harper recorda: "A minha família e os amigos somalis ajudaram-me, sobretudo estes, porque sabiam que medidas devia tomar em ocasiões como esta." Posso estar enganada, mas parece-me que Mary Harper interiorizou inconscientemente o seu medo. Após um ataque terrorista na Somália, as partes dos cadáveres são recolhidas por operacionais de forças de segurança estrangeiras, os quais envergam uniformes de caqui e óculos escuros e o sangue é lavado dos pavimentos por mulheres somalis vestidas com cores brilhantes e máscaras brancas sobre o nariz e a boca. Depois, os homens das reparações aparecem "e fazem o que podem para dar a ilusão de que nada aconteceu". É assim que as coisas funcionam na Somália. A vida das pessoas prossegue, como se de um ato de desafio se tratasse.

Era muito possível que, com a publicação do seu livro marcada para o final de abril de 2019, Mary Harper fosse um possível alvo para o al-Shabaab. Ela expõe as inúmeras facetas da organização, dando voz aos seus contactos altamente instruídos do al-Shabaab, mas também às inúmeras e anónimas vítimas que sobreviveram para contar como foram coagidas, intimidadas, raptadas ou abandonadas pelos terroristas. Há histórias de crianças que foram levadas, de mulheres obrigadas a fugir para campos de refugiados devido ao medo que sentiam e à culpa por servirem chá num estabelecimento frequentado pelo exército "inimigo".

Contudo, 25 anos de adoção da noção de autodomínio veiculada pela BBC leva a que o tom de Mary Harper nunca seja inflamado, nem abertamente condenatório. Ainda assim, enquanto espera trazer alguma luz sobre o al-Shaabad de uma forma que o seu trabalho para a BBC torna difícil fazê-lo (Mary não pode facilitar a máquina de propaganda do grupo, dando-lhe tempo de antena), admite que se após a publicação do seu livro a considerarmos uma apologista do grupo terrorista isso será "uma farsa".

"Eu tenho a certeza de que o al-Shabaab se vai opor a algumas das minhas afirmações, dado que dei voz a outras pessoas no meu livro que ou contradizem totalmente o que eles dizem ou porque falam dos seus atos de violência extrema. Se há algo no livro de que eles realmente não gostam, mesmo, então passarei a ser um alvo. Disseram-me [naquele momento] que eu não era um dos seus alvos. [Se eu fosse] isso afetaria a forma como conduzo o meu trabalho na Somália. Decidi arriscar. Não pensei ignorá-los porque não faz parte do meu trabalho tomar decisões dessas. Sinto que devo receber a informação que me dão, sem, contudo, fazer o que quer que seja para que continuem a informar-me telefonicamente."

E, então, quanto à vigilância de que tem sido objeto, recentemente? Onde se encaixa essa relação de jornalista com o seu contacto? "É intimidação. Mesmo que me digam: ‘Não, Mary, não é alguém que valha a pena ter como alvo a abater’, o facto de me dizerem que conhecem todos os meus passos… Enfim, é uma sensação estranha saber que me seguem. Disseram-me que durante um comício do al-Shabaab, em Elasha Biyaha, a oeste de Mogadíscio, mantiveram as ligações do meu trabalho via rádio sob escuta e que falaram sobre mim e o meu trabalho." Um dos seus contactos no al-Shabaab disse-lhe: "A razão de eu quase não ter sotaque quando falo inglês deve-se ao facto de ouvir atentamente as emissões da BBC. É essa a razão que me leva a pensar que a conheço, Mary. Ouço as suas reportagens na BBC, há anos." "Eu penso que se a publicação [do livro] tiver consequências para mim, eles informar-me-ão. É como as coisas se passam na Somália. São muito comunicativos e abertamente críticos. Não manterão [a ameaça] em sigilo. Irão informar-me. E eu lidarei com a situação quando acontecer. Mas sinto-me confortável com o que escrevi e penso que fui honesta e, assim o espero, justa." Se a ameaça surgisse, seria pelo telefone. Seria incluída numa nova categoria de risco pessoal. Por outras palavras, seria elaborado um plano para a matar. "É difícil saber se o livro não os incomoda. Vão ficar aborrecidos por eu ter dado voz a pessoas que os criticam. Portanto, não ficarão satisfeitos, mas não há nada a fazer. Além disso, quando eu falo com eles, farto-me de repetir por que razão acham que podem justificar a morte de civis e eles respondem com uma lógica distorcida de que têm a razão do seu lado. Ficam zangados e irritados comigo, ao telemóvel, mas continuam a ligar-me."

Mary Harper cresceu num meio onde reinava a estabilidade. Teve uma infância idílica, rodeada de amor, segura e interessante. É a mais velha de quatro irmãos, estudou no Quénia, nos arredores de Nairóbi, e, mais tarde, na Bedales School. Ingressou depois na Universidade de Cambridge e na Universidade SOAS (Escola de Estudos Orientais e Africanos). Depois de ter feito trabalho humanitário, iniciou-se no jornalismo. Inicialmente não tinha qualquer interesse pela rádio ou pela televisão, mas, sem saber muito bem como, conseguiu um emprego no programa Focus on Africa, da BBC World Service. Durante meses, sentiu-se aterrorizada pelo microfone – uma ironia, dado o que experienciou mais tarde. O pai, agora com 83 anos, foi professor de Economia, primeiro em África e depois no Reino Unido. A mãe, que tem 77 anos, foi artista plástica e enfermeira. O desejo de serem guiados pelo intelectualismo e pela empatia parece ter moldado cada membro da família. Um dos irmãos de Mary Harper estudou medicina, outro trabalha com detidos nas prisões e outro, ainda, está na área de saúde mental. 

O pai especializou-se em ajudar economicamente as comunidades locais, ao invés do que faziam os estrangeiros que chegavam em camiões com projetos bem apoiados do ponto de vista financeiro, mas fúteis para ajudar os países africanos. A mãe voltou a estudar enfermagem. "Cuidava de toda a gente", diz Mary Harper. "E continua a fazê-lo." Foi a ajuda da família que permitiu a Mary Harper conciliar a sua vida profissional com a atenção que tinha de dar aos filhos. A primeira vez que foi à Somália, em 1994, tinha 28 anos e o filho três. Desde o seu divórcio que é mãe solteira. Inicialmente, quando os filhos eram pequenos, fazia sobretudo trabalho de secretária, mas quando começou a ter de viajar, a sua família ajudava-a. A mãe ia com frequência para a sua casa durante as suas ausências. "Eu mantive as minhas duas vidas separadas", confessa. "Compartimentava as atividades discretamente. Tenho a certeza de que o que vi me afetou. Claro que quando perdemos alguns amigos, somos afetados por isso. Mas sinto-me tranquila com as escolhas que fiz em termos de trabalho. O meu trabalho na Somália é, por vezes, muito duro. Contudo, ao contrário de muitos jornalistas que gostam de mudar de lugar, a África faz parte de mim."

Mary Harper estabelece a diferença entre o seu trabalho – que é mais análise política do que reportagens da frente de guerra, embora não seja só isso – e o dos correspondentes de guerra. "Ainda assim, é muito, muito duro. Eu penso com frequência que é preciso fazer uma escolha. Tenho filhos e eles são, definitivamente, a minha prioridade. Talvez seja essa a razão por que tenho feito um jornalismo mais discreto." Contudo, tem de fazer alguns sacrifícios. "Eu vou a uma outra zona [da Somália]. Posso falar com os meus filhos, não fico completamente fora de comunicação. Mas tenho duas vidas: uma é a que levo no Reino Unido e a outra é que levo lá. E são muito diferentes uma da outra." Quando se encontra na Somália, Mary Harper viaja num grupo de veículos escoltado por guardas armados. Os seus contactos no al-Shabaab convidaram-na para visitar as zonas controladas pelo grupo, mas ela recusou. "Não é seguro", limita-se a dizer.

Mulheres e crianças num campo de refugiados na zona de guerra de Mogadísico, a capital da Somália
Mulheres e crianças num campo de refugiados na zona de guerra de Mogadísico, a capital da Somália Foto: Getty Images

perigo está em todo o lado, mesmo fora da Somália. Em janeiro de 2019, o al-Shabaab atacou um complexo hoteleiro de luxo, em Nairóbi, deixando atrás de si um rasto de mais de 20 mortos. Mary Harper tem estado muitas vezes nas proximidades dos ataques, o que lhe permitiu testemunhar o caos e a carnificina. Não é raro o seu telemóvel tocar pouco depois para se certificarem de que está bem. Há cinco anos, por exemplo, no dia de Ano Novo de 2014, estava a comer lagosta e a beber sumo de melão com amigos somalis quando ouviu uma enorme explosão. Um pouco mais abaixo, o Jazeera Palace Hotel tinha sido atingido, apesar das suas torres de vigia e do seu alto muro de proteção. Do telhado do lugar onde se encontrava, Mary Harper viu o hotel a arder, as ambulâncias e os veículos militares a percorrem a estrada a toda a velocidade e os restos carbonizados do veículo armadilhado que embateu contra o muro. É frequente, neste tipo de ataque, haver um segundo veículo armadilhado conduzido, também, por um motorista suicida, cujo objetivo é matar o pessoal dos serviços de urgência, sendo seguido por uma equipa armada de guerrilheiros, a pé, que cercam o edifício para matar a tiro os sobreviventes.

Mary Harper, protegida por guardas armados, apressou-se, gritando "Vamos, vamos, vamos!" ao condutor de uma carrinha, onde já se encontravam um seu amigo somali (do hotel) e um outro, amigo comum, também somali, e dirigiram-se para a praia, "um dos poucos lugares em Mogadíscio onde posso ir sem levar proteção armada", reconhece.

Numa chamada de um dos seus contactos do al-Shabaab (o que sabia tudo acerca dos seus movimentos), disseram-lhe: "Pode pensar que tem muitos amigos somalis, mas não são amigos verdadeiros. Os seus amigos verdadeiros salvá-la-iam de qualquer problema, incluindo o fogo do inferno, no qual vai acabar se não se converter ao Islão. Estou muito desapontado com aqueles a quem chama amigos somalis porque não lhes importa a sua vida no Além quando for lançada às chamas… Tem pensado na sua religião, Mary? Tem pensado na minha sugestão [de se juntar à fé muçulmana]?"

E se tivesse decidido não atender essa chamada? "Significaria que este quebra-cabeças não existia. Há 25 anos que faço reportagens e acredito, verdadeiramente, que não devemos fazer juízos de valor. Penso que as reportagens devem ser feitas para o público ler, ouvir ou ver, e que deve ser ele a tomar uma decisão. Acredito nisto e espero que assim aconteça."

É óbvio que o al-Shabaab é uma das muitas vozes – das autoridades somalis aos funcionários da AMISON e às testemunhas oculares e outras – nas reportagens de Mary Harper. "Como me sinto eu ao ouvir aqueles relatórios transmitidos a sangue-frio [pelos meus contactos]? Surpreende-me que algo assim possa acontecer a um ser humano. A alguém que, por um lado, continue a agir como um ser humano normal e racional, e que consiga desligar esta faceta e telefonar-me, num tom muito diferente, para me relatar os últimos horrores que infligiram à população. Fico confusa. Sinto-me desconfortável e muito triste quando esse ser humano, que nasceu, tal como eu ou qualquer outra pessoa, se possa transformar em algo assim. Contudo, não consigo deixar de me sentir fascinada. E quero compreender como pode isto acontecer às pessoas, como conseguem aceitar a violência como algo natural e justificarem-na com uma lógica que não tem qualquer sentido, embora para eles tenha sentido. É isto que tento compreender – e talvez seja essa a razão por que escrevi o livro. Mas não me sinto, agora, mais capaz de compreender as suas razões do que me senti quando o comecei."

Exclusivo The Sunday Times/Tradução Erica Cunha e Alves

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