Maria Barroso, minha avó, uma voz que faz falta à democracia
Dez anos depois da sua morte, Maria Barroso continua insubstituível. Primeira-dama, atriz, única fundadora feminina do PS, avó que ligava todos os dias ao neto. "Uma mulher acima de todos os títulos que, em eleições como as que estamos a viver, não seria neutra na escolha pela democracia e o humanismo."
Numa tarde banhada pela luz de Lisboa, o nosso carro percorria calmamente a cidade a caminho do rio. Ao passar pelo Aqueduto das Águas Livres, nessa tarde como em tantas outras, a minha avó repetia: Aqueduto! Explicando-me a etimologia da palavra: Aqueduto vem da palavra latina Aquaducto, que resulta da contração das palavras: Aqua e ductos significando: o que conduz a água.
Foi assim que, durante toda a minha infância, através das suas palavras o mundo ganhava sentido. Hoje, ao passar pelo Aqueduto das Águas Livres, lembro-me desses momentos em que a minha avó me revelava a beleza e história do nosso país. Nestes momentos, só nossos, por vezes partilhados com as minhas irmãs mais velhas, recitava passagens dos seus poemas prediletos, tantas vezes repetidos com a sua voz que se impunha sem se impor, e pontuados por umas mãos que já conheci enrugadas de uma vida longa.
“Há nos meus olhos ironias e cansaços” é uma passagem do poema Cântico Negro de José Régio que várias vezes repetia com uma pontada de ironia e doçura cada vez que discordava de alguma coisa. Hoje sou eu, que por vezes, e com muito menos talento, cito esta mesma frase aos mais próximos.
Foi a voz da Mulher no papel de tantas personagens femininas. Em cima do palco foi Benilde de Régio ou Maria de Garrett. Mas a violência e arbitrariedade da ditadura atiraram-na para fora do teatro depois de interpretar a Voz Humana de Cocteau. No entanto, nesse momento, como em toda a sua vida, nunca se conformou. Não aceitou não trabalhar e rapidamente se reconverteu e, com a mesma capacidade de trabalho e dedicação, assumiu o papel de Diretora do Colégio Moderno. Aqui teve uma missão e visão que perduram até hoje e que são magistralmente continuadas pela sua filha, Isabel. E não calou a sua voz, como na sua intervenção no Congresso da oposição democrática de Aveiro de 73. Num tempo em que tantos se arvoram como defensores da Liberdade e do interesse nacional, Maria Barroso é o exemplo de quem deu a sua vida, a sua energia e a sua coragem à defesa da verdadeira liberdade. Da liberdade de pensar, de falar, de amar, de viver para além do jugo da pobreza. Ela amava o país. Não um amor cego e desculpante, mas exigente, questionador que acreditava num país melhor e mais justo.
Mas é da avó que tenho mesmo saudades. Como tantos de nós, ainda hoje dou por mim a olhar para o meu telefone esperando pela sua chamada diária que nunca falhava. A minha avó ligava-me todos os dias e dificilmente aceitava um domingo que não almoçássemos todos juntos - numas reuniões familiares onde o calor do debate, mas também o do amor familiar, estavam sempre presentes.
Para mim faltam-me estes momentos de ternura incondicional e essa procura incessante pela beleza em todos os que com ela se cruzavam. Mas Maria Barroso faz também falta ao mundo num momento em que se reduz a divergência a inimigos, em que o simplismo faccioso faz de nós uma sociedade que busca o clique imediato, o conflito ruidoso, as soluções aparentemente fáceis. E ela que nunca escolheu caminhos fáceis. Num tempo de nuvens de guerra ela ergueria os versos de Sophia: “Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos/A paz sem vencedores e sem vencidos”. Não é uma utopia, é a Humanidade em que a minha avó acreditava, a única possível e desejável.
A minha avó partiu há 10 anos. Teria hoje 100. O seu amor de sete décadas, o meu avô Mário, partiu devagarinho depois dela. O mundo que ela sonhava, livre, tolerante, de amor e harmonia, está ainda por concretizar. Mas, se vos disserem que é uma ilusão fantasista, não acreditem. Estamos aqui para o construir!
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