Macrobiótica: energia positiva
A macrobiótica é desinteressante, trabalhosa e desenxabida. Certo? Errado. Foi para contrariar esta e outras ideias que Marta Varatojo escreveu um livro. Para isso e para provar que, se os alimentos são energia, está na hora de comer para ser feliz.

Simplicidade. A palavra que Marta Varatojo tatuou no braço colou-se-lhe definitivamente à pele. Conversar com ela é fácil mas, acima de tudo, entusiasmante. Rapidamente perdemos o fio à meada, tantos são os apartes e as derivações. E quando damos por nós já estamos a falar de tudo menos de comida, ainda que seja a ela que sempre regressamos. Até porque foi a comida, mais especificamente um livro de culinária, que nos juntou. O Livro de Cozinha da Marta – Uma Forma de Amar é o fruto de todo o seu percurso e herança familiar mas, ao mesmo tempo, o princípio de um novo capítulo na sua vida. "Já quis ser tudo e mais alguma coisa, mas nunca me passou pela cabeça ser cozinheira", confessa ela. Com formação na área artística, passou por várias experiências profissionais, sem nunca saber bem qual seria o caminho a seguir. Foi num desses momentos de indefinição que a cozinha surgiu como "resposta criativa", recorda. Filha de Francisco e Geninha Varatojo, dois nomes incontornáveis da macrobiótica em Portugal, recorreu a todos os ensinamentos que o pai lhe foi passando ao longo da vida e às receitas que se habituou a ver a mãe a preparar. E quando, aos 21 anos, saiu de casa para viver em Londres era precisamente a ela que ligava, em busca dos truques que tornavam cada prato um momento perfeito. "Há três anos e meio mudei-me para Leiria, onde abri uma sucursal do Instituto Macrobiótico. Disse que iria ser essa a minha universidade e hoje posso dizer que este livro é a minha tese, o meu projeto de final de curso. É uma compilação destes últimos anos, mas também um resumo da minha história."
Se quisermos começar mesmo pelo princípio temos de falar nos seus pais...
É verdade. Afinal, eles são os pioneiros da macrobiótica em Portugal. Há mais de 30 anos que promovem a macrobiótica que, na verdade, mais do que um tipo de alimentação, é um estilo de vida. O meu pai sempre teve uma atenção especial à alimentação e aos alimentos e, logo na adolescência, fez várias experiências no que diz respeito à dieta, e procurou informação, até que acabou por se cruzar com um livro sobre macrobiótica. Coincidentemente, nessa altura, o Michio Kushi – discípulo do George Ohsawa, que trouxe a macrobiótica para o ocidente – veio a Lisboa dar uma conferência a que o meu pai assistiu, e ficou fascinado. E foi assim que, aos 17 anos, decidiu ir para Boston estudar com ele. Aos 19 anos voltou e começou a dar consultas no Yin Yang, um restaurante macrobiótico. Depois trabalhou no Instituto Kushi, que viria a tornar-se o Instituto Macrobiótico de Portugal. Foi nessa altura que conheceu a minha mãe, que estava a ter aulas de culinária. Depois, nasci eu.
E já nasceu completamente imbuída da filosofia macrobiótica. De que forma é que, como referiu, ela pode ser considerada um estilo de vida?
O livro junta receitas que são verdadeiros clássicos da macrobiótica com receitas originais. "É um apanhado do que tenho feito nos meus cursos. Por isso, é ideal para quem não sabe nada. É um bom livro de iniciação." Além das receitas (e da parte inicial, mais teórica), também as fotografias são da autoria de Marta Varatojo. "A parte estética sempre foi pouco explorada na macrobiótica. É importante não esquecer aquela ideia de que ‘os olhos também comem', por isso quis dedicar-me também a isso. Durante dois meses dediquei-me a este projeto: à noite cozinhava cerca de dez receitas, de manhã acordava e fotografava. Foi muito intenso, mas estou muito feliz com o resultado."
A macrobótica trabalha muito com a teoria de Yin e Yang que são os dois polos opostos e complementares, com impacto sobre todos os fenómenos da natureza. Yin é uma energia mais dispersa, mais aberta, mais criativa, mais espiritual, mais flexivel. Yang é uma energia de condensação, de fogo, de matéria, é mais organizada. Ao interagirem em todos os fenómenos, podemos tirar partido deles, por exemplo, através da alimentação. Por exemplo, se a pessoa ficar demasiado Yang tende a ficar um pouco agressiva e até inflexível. O que é que podemos fazer? Procurar um equilíbrio dinâmico através de alimentos mais Yin, que promovem a calma e o relaxamento.
Essas qualidades dos alimentos estão categorizadas?
Claro. O sal, por exemplo, é muito Yang, porque nos ajuda a focar. Já o açúcar, é Yin, é um elemento de expansão. Na pirâmide alimentar da macrobiótica, em que a base é ocupada pelos cereais integrais, não existem alimentos proibidos, mas sim alimentos que devem ser reservados para os chamados dias de festa. É uma questão de equilíbrio. Aquela ideia de que existem alimentos que não podemos consumir, limita-nos e frustra-nos. O importante é ganhar consciência do impacto que os alimentos têm em nós. Eles transformam-se no sangue que vai banhar todas as células do corpo, os órgãos e inclusive o sistema nervoso, que determina a forma como interagimos com o mundo à nossa volta. A partir do momento em que ganhamos consciência disso, conseguimos fazer escolhas mais acertadas. Para nós e para o ambiente.
E isso não retira espontaneidade ao ato de comer?
Não, nada. O ideal, para mim, seria que este tipo de informação se transformasse em senso comum e, a partir daí, todos pudéssemos comer naturalmente, sem nos estarmos a limitar. Há uma ideia-base: comer produtos locais, sazonais e que não sejam processados. A partir daí, fica mais fácil escolher com consciência. E, claro, sem fundamentalismos.
E o fator tempo é importante na macrobiótica?
É, mas é preciso ter prioridades. Eu e os meus irmãos, por fazermos esta dieta desde que nascemos, conseguimos adaptar-nos muito bem às condições que temos à volta. Mas se, por exemplo, estiver num local onde não é possível comer pão biológico, como um pão normal com manteiga. Sem problema. É preciso sabermos ajustar-nos. Se formos lanchar a casa da avó de uma amiga e ela tiver feito um bolinho caseiro, não há problema nenhum em prová-lo. Pelo contrário. Claro que se houver uma situação de saúde vulnerável, a situação é um pouco diferente...
Há muitas pessoas a procurar o Instituto Macrobiótico por esses motivos?
Sim. Aliás, no início, eram sobretudo pessoas que sofriam de doenças graves que recorriam à macrobiótica, até porque já tinham experimentado de tudo sem resultados. Há muita gente a conseguir superar doenças graves. Nos últimos anos, chegaram mais pessoas, fruto da maior consciência em relação à alimentação. Nas consultas, é estabelecida uma dieta macrobiótica, que tem como base os cereais integrais, mas também é feito um diagnóstico, que tem como base os princípios da medicina oriental. Através dos meridianos e do rosto, é possível avaliar várias partes do corpo. Consoante a condição de saúde, são identificados os alimentos que a pessoa deve consumir e os que deve cortar para conseguir resultados. É desafiante, sobretudo para quem não tem bases, mas os cursos também ajudam.
É difícil ser macrobiótico?
A alimentação macrobiótica hoje é muito aberta. Eu, tendo sido criada dentro deste estilo de vida, sou reflexo disso mesmo. E faço os meus desvios à dieta. Mas posso dizer que nunca fui ao médico e só tomei antibiótico uma vez, porque estava fora do país, fiquei com uma gripe forte e não tinha os meus remédios caseiros. Levo sempre o miso, que é muito rico em enzimas e ajuda a desintoxicar o organismo, a ameixa umeboshi, que é um pickle que funciona como antibiótico, e o kuzu, que tem imensas propriedades medicinais consoante a forma como é preparado dá para imensos casos. Mas a verdade é que, até agora, não tive mais do que constipações e gripes... mas claro que não estou isenta. O facto de seguir esta alimentação faz com que o meu organismo seja muito sensível: sempre que faço asneiras, o organismo elimina imediatamente, ou seja, não acumula.
Como é que se aprende a ouvir o corpo e a reconhecer os sinais que ele nos envia?
Acho que passa muito por simplificar. Pontualmente, gosto de fazer uma dieta de dez dias a arroz integral: é a dieta número sete, desenvolvida por George Osawa. Este é o período em que o plasma sanguíneo demora a renovar-se e o arroz integral é um alimento bastante Yang – tem características de condensação, de foco e de enraizamento, portanto a ideia é purificar o sangue. É duro mas é uma experiência interessante. O truque, respondendo à pergunta, é começar aos poucos e ir introduzindo os alimentos certos.
Mas é preciso saber e gostar de cozinhar?
Inspirei-me numa frase do Mia Couto para escolher o título do livro: "Cozinhar é um modo de amar os outros." Eu acho que é mesmo assim. Quando cozinhamos depositamos ali a nossa energia. O estado de espírito faz toda a diferença. Claro que nem toda a gente tem de gostar de ir para a cozinha... Em Lisboa, hoje já é mais fácil encontrar alimentos preparados. Mas aprender esta culinária é um desafio engraçado. Passamos a encarar o alimento como energia e a perceber o impacto que ele pode ter na nossa vida. Mas, uma vez mais, sem fundamentalismos. Viver a culpa por termos consumido determinado alimento pode fazer pior do que os seus malefícios propriamente ditos.
Isso ensina-se nas aulas de macrobiótica?
Eu gosto de passar esta mensagem. Acima de tudo, somos um reflexo do que pensamos. A minha alimentação é uma ferramenta para potenciar um determinado estilo de vida, mas é na cabeça que temos de fazer o exercício de sermos positivos. Tatuei a palavra simplicidade no braço. Costumo dizer que é para ver se ela entra na corrente sanguínea e se materializa cá dentro.
