Joias, vestidos, prazeres escondidos. A outra face de Amália

Amália viveu 44 anos no número 193 da Rua de São Bento. O interior das suas paredes continua a guardar os seus mais belos objetos pessoais - como as joias, os sapatos e os vestidos - e as histórias que estes narram.

23 de julho de 2020 | Rita Silva Avelar

Uma casa portuguesa, com certeza                                                                               

Está um dia de sol e a rua de São Bento parece infinita, de tão longa e estreita que se nos assemelha. Quem se demore a contemplar a fachada do número 193 desta rua, do lado oposto da estrada, não imagina, se nunca entrou por aquelas portas, a magnificência do seu interior. Era a morada de Amália até à data da sua morte. Além de o poder secreto em provocar ligeiros arrepios a quem saiba a que soava a voz desta fadista, todos os recantos desta casa lisboeta têm uma história, a começar pela fachada, que era cor de rosa, como quase todas as casas desta emblemática rua da capital. "Muita gente pensava que parte da rua lhe pertencia. Então Amália, para desmistificar isso, pintou a parte dela de amarelo" explica Mariana Gonçalves, investigadora da Casa Museu Amália, evocando o episódio como uma das narrativas mais curiosas acerca desta morada. A fadista, que antes vivia na rua de São Bernardo, adquiriu-a em 1954, e instalou-se em 1955, depois de fazer obras. Aqui viveu 44 anos, subindo a escadaria que dá para o primeiro andar até ao fim dos seus dias. Hoje, a casa, que é Casa Museu, tal como o espólio, pertencem à Fundação Amália Rodrigues. E é lá que estão as relíquias que mostravam o seu lado mais glamoroso e um sentido de estilo apurado.

Vestidos, perfumes e poesia: uma atmosfera de glamour

Não sendo uma mulher extremamente vaidosa, Amália tinha as suas vaidades e um gosto muito particular na moda e na beleza. Tinha um perfume preferido, o Joy, de Jean Patou, e era esse que usava até à exaustão. Era uma mulher elegante, de gostos requintados, dotada de uma silhueta atraente, e embora não fosse muito alta, sabia tirar partido dela. Alguns dos seus vestidos de palco eram, na verdade combinações, assinadas por maisons francesas como a Yves Saint Laurent. "Muitas pessoas têm a ideia de que a Amália era alta, mas isso era graças aos sapatos com plataforma que os vestidos compridos tapavam. Tinha 1,58, mas tinha estes truques. Mandava fazer os vestidos com a cintura descaída, para alongar a silhueta" explica Mariana, que conhece bem a relação de Amália com a moda.

A maior parte dos vestidos de Amália eram feitos pela Ilda Aleixo, sua costureira de eleição. "Ela fazia os vestidos consoante o que a Amália queria. Era a Amália que visionava aquilo de que gostava. A maior parte dos vestidos de palco são da Ilda." Hoje com 99 anos, a senhora Ilda, como é carinhosamente tratada na Residência Sénior de Sant’Ana, em Oliveira do Hospital, recorda com graça o momento em que conheceu Amália, e lembra-a como uma mulher inteligente e encantadora. "Trabalhava num atelier… até que um dia a Amália foi lá fazer um vestido. A Amália era um ano mais velha do que eu, mas naquela data estávamos as duas com a mesma idade. Foi aí que nos conhecemos." Os moldes, que vinham quase todos de Paris, eram a base dos vestidos, mas o modelo era eleito pela Amália. "Era uma coisa complicada, porque a Amália era mais baixa do que eu, portanto os sapatos tinham que ser altos. Era preciso haver a consciência de que se ela usava aqueles sapatos, tinha uma saia muito grande, e o corpo muito pequeno, ficava desequilibrado. Fiz-lhe um molde só para ela, para que lhe ficasse perfeito" recorda, com saudade e orgulho evidentes no olhar. 

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Ilda Aleixo

Além dos vestidos de palco e de festa, os vestidos preferidos de Amália para o dia a dia eram os famosos balandraus, que eram cerca de 20. Vestidos largos, ao estilo de túnica, coloridos, leves e compridos. Na comemoração dos seus 50 anos de carreira, Amália usou três vestidos, um deles era totalmente negro, uma das suas imagens de marca. "A Amália trouxe o negro para o fado. Antes de Amália usava-se uma camisa colorida com um xaile. Fora de Portugal usava muitos vestidos coloridos" explica a investigadora da Casa Museu. Para esta ocasião, a fadista mandou fazer o vestido negro, um vestido em forma de combinação com saia vermelha, e um vestido cor de rosa vivo.

Ficaram alguns vestidos inacabados, outros, Amália mandava fazer e não chegava a usar. É o caso de um vestido branco com rendas, que nunca chegou a usar em palco, porque assim que o vestiu achou que parecia uma noiva. Há fotografias suas com o vestido, em casa.

Uma das peças preferidas da fadista era o vestido "dos malmequeres, tem muitas cores" explica Mariana, apontando as referências religiosas no quarto de Amália, que é um dos pontos visuais mais surpreendentes desta divisão e que impõe até um certo respeito. Além de um pequeno altar, há quadros, santos e cruzes em quase todos os recantos, pendurados na parede ou junto de molduras. "Era muito religiosa. Muito devota de Nossa Senhora do Carmo. Há um oratório no quarto, e um toucador onde se maquilhava, e onde estão os seus cremes e os seus perfumes de eleição. "Amália não ia à missa, porque despertava a atenção de toda a gente, ia deixar flores quando não estava ninguém, e rezava muito em casa. Para Amália, tudo era vontade de Deus."

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Aida Maria

Joias valiosas, perdidas e "bugigangas"

As joias assumiram um papel preponderante na vida de Amália: adorava-as, quer fossem bugigangas ou verdadeiras. Tinha gavetas e gavetas cheias de pulseiras, brincos, alfinetes de dama, colares compridos. As joias mais valiosas, essas, estão no banco. "As joias [de Amália] são todas muito brilhantes, e dão sempre muito bem com os vestidos. No dia a dia, Amália usava joias "aciganadas" como ela gostava de lhes chamar. A cor e os brilhos eram indispensáveis. E também adorava a cultura espanhola, inspirava-se muito nela para os seus vestidos."

As mais memoráveis foram recriadas pela ourivesaria Ouronor, da Póvoa de Lanhoso, com um desafio que começou em 2008 e se tornou uma paixão em 2010, nas palavras de Aida Maria, responsável da marca. Entre as mais icónicas estão os chamados brincos da deusa, oferecidos pelo marido César Seabra, antes de se casarem, no hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro ou o alfinete de estrela, que perdeu em Paris, e só descansou quando a equipa o encontrou. Há muitas histórias ligadas às joias de Amália, e Aida vai mais longe, dizendo que foi Amália que mudou a forma como as mulheres, na época, usavam as joias. "Ela usava as joias de uma maneira que, até àquele momento, não era comum (…) para além disso, naquela altura, as joias estavam muito confinadas ao tradicional português, e ela – à medida que o seu gosto se foi aperfeiçoando – foi adquirindo joias quer no mercado nacional quer no internacional" revela."Até ali, as pessoas usavam joias para dizer que tinham poder, mas não se preocupavam muito com a beleza. Amália veio alterar esse conceito. A joia passou a ser um complemento muito grande da personalidade da mulher. Através das suas joias, Amália transmitia a mulher contemporânea que era, e que era uma mulher do mundo."

Sapatos e maquilhagem. Os preferidos

Amália tinha um sentido de moda muito apurado, a maioria das suas peças eram feitas à mão ou compradas a seu pedido. "A Amália não gostava de entrar nas lojas. Possivelmente via na montra, gostava, e pedia para alguém ir comprar. Sentia-se desconfortável ao entrar em lojas grandes como a Prada." Há camisas com padrões exuberantes, coloridos e floridos. "Havia muita gente que achava que Amália era tristonha, mas ela também tinha um lado muito divertido e passava-o para a roupa", como explica Mariana. A roupa exposta é uma amostra, tal como a maquilhagem, as carteiras e outros acessórios. Entre as preferidas, na maquilhagem, estavam marcas como a Christian Dior ou a Yves Saint Laurent. Entre os acessórios preferidos, estavam os leques, os lenços, as écharpes, e também os óculos de sol escuros. "Usava-os sempre grandes, para não a reconhecerem."

O closet da fadista estende-se por um corredor que atravessa uma boa parte do primeiro piso da casa, como se fosse um compartimento secreto. Há cerca de 219 pares de sapatos, a partir de uma certa época. "Há Prada, Charles Jourdan, Baldinini, Di Sandro, Bruno Magli… muitas marcas italianas mas também portuguesas, como a Mabelle ou a Mariazinha" adianta esta investigadora. Amália usava plataformas com quinze centímetros para ficar mais alta, mas também adorava socas de cunha, para usar no dia a dia.

As tertúlias, a poesia, as flores e os retratos

Uma das raras vezes em que Amália realmente pousou para um retrato a óleo sobre tela, foi para o artista Eduardo Malta, aos 29 anos. Esse retrato repousa ao centro do mítico salão onde se reuniam poetas, músicos, compositores e pintores - e a sociedade artística da época no geral – durante as longas tertúlias que se estendiam noite adentro. É o espaço retratado no musical de La Féria, Uma Noite em Casa de Amália. Uma das grandes paixões da fadista eram as flores: tinha sempre belos exemplares frescos num canto deste salão, no lado oposto ao piano de sala, agora silencioso. Foi neste espaço que gravou o disco Amalia/Vinicius, com Vinicius de Moraes, em 1968.

Amália amava a poesia: em sua casa há livros de poesia dos poetas que cantava, como Camões, Ary Dos Santos ou David Mourão Ferreira. Deu a conhecer muita desta obra às pessoas, e escrevia a sua própria poesia.

Além do quadro de Eduardo Malta, Amália adorava os quadros de Maluda, uma grande amiga sua, e tinha um retrato seu assinado por Luís Pinto Coelho, feito a partir de uma fotografia, no hall de entrada. Na sala de jantar, há cerejas pintadas em torno das paredes, símbolo do tempo das cerejas, tempo em que Amália nasceu. "Não se sabe muito bem quando é que Amália nasceu, foi algures no tempo das cerejas, como dizia a sua avó, e o que ficou registado foi 23 de julho de 1920, mas a Amália celebrava no primeiro dia desse mês" explica Mariana. A cozinha e a copa, típicas dos anos cinquenta, não têm um mistério tão grande como as outras divisões, mas há um armário em especial que revela um pouco dos gostos secretos de Amália. "A Amália era apaixonada por chás, era a bebida preferida dela, e estes são todos importados de Inglaterra. Era algo que estava sempre no camarim. O preferido era o Earl Grey."

O jardim, onde as sombras das árvores criam formas encantadoras, é uma das relíquias desta casa. Não só é onde está o papagaio Chico, o último que Amália teve e que ainda repete na perfeição o seu nome, como é onde a fadista regava e mantinha as suas estimadas flores. "Quando a Amália cá vivia, quase não se conseguia andar porque eram só flores. É um jardim muito secreto em Lisboa, ninguém imagina."

Retratos de família da fadista

A vida privada e os mistérios deixados

Criada pelos avós maternos no seio de uma família pobre, Amália "foi bordadeira, engomadeira e trabalhou numa fábrica" antes de se tornar fadista. Casou em 1961 com o engenheiro César Seabra, um homem reservado, um casamento que dura até à data da morte deste. "Muita gente não faz ideia de quem era o César. Era um homem discreto, sempre quis ficar à retaguarda. Nunca quis ser o marido da Amália Rodrigues. Conheceram-se no Brasil." Quanto ao facto de nunca ter tido filhos, Amália nunca deu uma resposta conclusiva. "Ela nunca dava uma resposta certa, nunca se abriu muito sobre esse assunto. E quando ela não queria muito falar sobre um assunto, não falava e ninguém sabia. Quando ela gostava muito de uma pessoa fazia o mesmo, guardava-a só para ela. Por isso é que quase nunca falava do César ou do avô."

Os seus quatro sobrinhos ficaram com os direitos de autor e royalties. Quando parava, depois de meses e meses em digressão, Amália refugiava-se na sua casa de férias em Brejão construída nos anos sessenta e pertencente ao concelho de Odemira, que hoje é um alojamento local gerido pela Fundação. Ainda que na casa estejam expostos os seus inúmeros prémios e troféus, em vida Amália não ligava a esses objetos. "Ela teria isto guardado. A Amália interessava-se era pela cerimónia, pelos aplausos e pelo público. Era isso que adorava."

Amália morreu em casa, aos 79 anos, a 6 de outubro de 1999, tornando-se na primeira mulher a estar no Panteão Nacional. Celebra-se, a 23 de julho, o centenário do seu nascimento.

Entrevistas | Secundino Cunha e Rita Silva Avelar
Fotografia | Catarina Cruz, Lourenço Ramos, Mariana Margarido e Getty Images
Vídeo | Nuno Fernandes Veiga
Edição Vídeo | Lourenço Ramos e Mariana Margarido
Agradecimentos | Equipa de Sant'Ana - Residência Sénior, Oliveira do Hospital

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