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Máxima

Atual

Histórias de Amor Moderno: “Quis dizer-lhe que sim, que me beijasse, me possuísse, que me desse cabo da vida.”

“Os meus olhos pararam nele, fazendo com que a sua saída da água se processasse em câmara lenta na minha cabeça.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

Um Ano Especial (2006)
Um Ano Especial (2006) Foto: IMDB
11 de julho de 2026 às 10:00 Maria Olívia Sebastião Adicione como fonte preferencial no Google

No momento em que ele saiu da piscina, eu estremeci. Não era um Adónis, não tinha um six-pack esculpido por Miguel Ângelo, não ergueu das águas um torso reminiscente do Ronaldo. Era só um homem-homem, com um corpo bonito e imperfeito, a resvalar para o dad-bod, mas com a elegância firme de uma masculinidade madura e segura, trabalhada pelo tempo e pelo esforço, talvez de uma modalidade desportiva, sem dúvida, mas não de uma obsessão pelo fitness e pelo ginásio. Os meus olhos pararam nele, fazendo com que a sua saída da água se processasse em câmara lenta na minha cabeça. 

Ao meu lado, o Gustavo, estendido na espreguiçadeira, continuava no tablet, com a caipirinha ao lado. Andava à procura de quintas vínicas que pudéssemos visitar durante a nossa estadia no Douro. Notei que baixou um pouco o dispositivo e olhou ligeiramente de lado para mim. Eu achara que estava a ser discreta, mas então percebi que tinha parado de respirar - acontece-me, às vezes, quando dou muita atenção a alguma coisa, e acontece-me ainda mais quando o objeto da minha atenção é um homem mesmo homenzaço. Voltei ao meu livro, o Gustavo demorou-se um bcoadinho mais a olhar para mim e depois, sem dizer nada, voltou a recostar-se. Falou por fim, “podíamos ir a Pinhão”, ao que respondi “sim, sim, parece-me bem”. 

Pelo canto do olho, fui acompanhando o homem que saiu da piscina. Dirigiu-se a uma espreguiçadeira na outra ponta do recinto, junto à entrada onde está o garçon a distribuir toalhas e a tirar os pedidos caprichosos dos clientes endinheirados - “uma água, mas bem fria, a 12 graus”, “quero uma mimosa, mas só com 20% de champanhe”, “uma água com gás em copo gelado, esfregado com uma pedra de gelo, mas sem o gelo, só com uma rodela de limão, das fininhas”, raramente pediam por favor. Na espreguiçadeira ao lado, uma rapariga mais jovem do que ele, mas não imensamente jovem, muito bonita e elegante. O peito talvez fosse falso, mas nesse caso a qualidade dos implantes era visível, mesmo à distância. Beijaram-se. 

Puxei o meu livro à altura dos olhos e tentei retomar a leitura, o que não consegui. A visão daquele homem inquietou-me. Não é que eu nunca tivesse sentido desejo por outros homens, claro que sim. Estar com o Gustavo não me impedia de contemplar a desfrutar da vista de outros homens. Contudo, isso normalmente acontecia quando havia uma espécie de pausa recíproca, uma demonstração de interesse mútua, um olhar que se cruza e se demora um bocadinho mais. Noutras situações, já dera por mim a apreciar o jogo de sedução, um flirt, uma troca de galhardetes, claro que sim. Mas nunca antes sentira aquela vertigem isolada e unilateral de cobiçar um homem que não era meu. 

Eu e o Gustavo conhecemo-nos há não muito tempo. Não era propriamente o meu sonho de homem, não vou negar. É mais velho do que eu, não é particularmente bonito, não é atlético. Tem o seu charme, sim, e é muito educado, é uma pessoa bem formada, culta, que sabe estar. Vem de boas famílias, ao contrário de mim, que tenho origens humildes. Tem um bom cargo, é um profissional de carreira, estudou muito, tornou-se arquiteto. Eu, uma freelancer, assistente de moda em produções baratas, que arranjou emprego de maneira acidental, nunca tive grandes aspirações e muito menos ambições profissionais. Encontrar o Gustavo e apaixonar-me por ele permitiu-me ter segurança, ter estabilidade, ter acesso a certas regalias da vida que, de outro modo, não teria. Passar férias neste hotel, por exemplo, nem me passava pela cabeça. 

Tive sorte, conheci um homem de boa condição que, por acaso, gostou de mim e que me dá uma vida muito acima de digna. Sou um cliché. Uma mulher mais nova e gira, sem condição social, que conhece o amor na figura de um homem que é também um patrono. Este não é só um facto simples, é mesmo um aspeto importante. Sempre que existiu em mim um impulso para transgredir, esse impulso foi imediatamente refreado. O meu problema não é apenas moral, nem é só uma consequência do amor. Eu tenho mesmo demasiado a perder na vida. Foi por isso que me assustou tanto a vertigem do desejo que senti por aquele homem que saiu da piscina. Porque me senti incapaz de me segurar, de conter o impulso. 

Os pais do Gustavo moram num grande casarão junto à costa, perto de Espinho. A casa tem um uma placa de mármore afixada com o nome "Vivenda Fiel”. Ele contou-me que o nome foi dado pelo avô paterno dele, um homem muito sério e honrado “para quem a fidelidade era um valor inegociável”. Inegociável. A fidelidade não é somente saudável ou meramente necessária: é imperativa e sem hipótese de ter justificação, muito menos desculpa. Aceitar o Gustavo com a sua condição moral foi acatar uma condenação à monogamia. 

Só que nem sempre as coisas são como parecem. No dia seguinte à minha visão na piscina, fomos dar um passeio de carro junto ao Douro. A ideia era visitarmos duas ou três quintas e produtores de vinho na região. Logo na primeira onde parámos, quando entrámos na loja, quem é que encontrámos? Exatamente o homem da piscina e a sua belíssima companheira. Estavam de mãos dadas e iam comentando os vinhos que viam nas prateleiras. Não sabiam muito sobre vinho. 

Percebemos que eram brasileiros e o Gustavo meteu conversa com eles - uma conversa cordial, mas mesmo assim intrusiva, uma vez que pretendeu explicar qualquer coisa relacionada com os processos vinícolas sem que ninguém lhe tivesse perguntado o que quer que fosse. O homem, surpreendido com a intervenção daquele estranho, reage sem perder a compostura, mostra um sorriso simples e grato, aceita a boa-vontade das explicações e tenta esconder uma certa atrapalhação. A mulher, por seu lado, mostra-se sorridente, bem-disposta, embora uma pouco desconfortável, sem dúvida. 

O Gustavo percebe que a fez sorrir e é então que dá a sua pirueta de palhaço pobre e tenta ser engraçado. Que figura triste. Intervenho, tento salvá-lo de si mesmo. 

Apresento-me, estendo a mão, “prazer”, respodem educadamente, “penso que estamos hospedados no mesmo hotel”, digo, tentando desviar a conversa de tudo o que o Gustavo dissera anteriormente. “Ah sim?”, responde o homem, mas a pergunta não parece sincera. Acredito que me tenha visto na tarde anterior, na piscina. Mas pode ser apenas wishful thinking meu. 

No carro, de regresso ao hotel, o Gustavo diz-me que achou aquele casal muito simpático. Franzo os lábios, “não os achei especialmente simpáticos, pareceram-me apenas normais, pessoas educadas”. Faz-me um “hum” inexpressivo, indecifrável. Provoco-o: “A mulher é muito bonita, não achaste?” Faz-se desentendido, lança-me um novo “hum”, mas agora interrogativo, como quem diz “quê, estava lá uma mulher?”, e eu insisto, “Gustavo, honestamente, a mulher é giríssima, até eu era capaz de suspirar por ela”. Faz uma pausa dramática, torce os cantos da boca, franze levemente o nariz, “pois, nem reparei”. E depois limpa a garganta, como se quisesse limpar a mentira. 

Durante o resto do caminho, vamos aprofundando a conversa até um ponto em que se tornou desagradável e acabámos por aceitar espontaneamente uma trégua: eu não puxei mais por ele, ele não me respondeu mais. Ficámos assim. Mas eu fiz questão de o fazer perceber que eu percebi que ele se derretera pela brasileirinha cheia de curvas. 

Na manhã seguinte, saímos para um passeio de iate organizado pelo hotel. Sem surpresa, lá estava o casal brasileiro, também a bordo. O barco era grande o suficiente para ficarmos distantes deles. Quando embarcámos, eles já lá estavam, junto à poupa, pelo que me dirigi à proa e por ali fiquei. Eu e o Gustavo mal falámos antes de entrar no barco. Uma vez a bordo, continuámos sem comunicar, até que ele me disse, pouco depois de zarparmos, “vou buscar champanhe, também queres?” Respondi que não com a cabeça. Não me apetecia abrir a boca. 

Enquanto ele se ausentou, aproveitei para apreciar aquele casal, duas pessoas tão bonitas. E dei por mim a suspirar - nem sei bem se pelo homem ou pela relação dos dois, que parecia imaculada, viva, amorosa, dedicada. 

A ausência do Gustavo começava a parecer-me prolongada quando dei conta de que o homem brasileiro se tinha afastado da companheira. E foi então que vi o Gustavo aproximar-se dela e estender-lhe uma flute de champanhe, fazendo em seguida um pequeno brinde, daqueles falsamente inocentes. Ele era todo sorrisos. A pobre rapariga sorria de volta, mas claramente constrangida. O Gustavo, porém, não conseguiu ler o momento nem a postura incomodada da mulher. Não suportei continuar a ver, mas desta vez não fui salvá-lo do embaraço. Problema dele. Queria ser um velho babão, então que fosse. Virei-me para o rio, decidi contemplar a magnífica paisagem para evitar ficar deprimida. 

Não sei como acabou o momento de flirt não correspondido entre o Gustavo e a brasileirinha. Sei que ele só chegou ao pé de mim muito tempo depois. E sei que olhei para trás, para o sítio onde eles estavam, e o homem parecia estar a fazer perguntas à mulher e esta, um tanto nervosa, tentava dar explicações, apontando vagamente na nossa direção. O Gustavo quis dar-me o braço. Esquivei-me. Fui buscar champanhe. O primeiro copo, bebi de um trago, para matar os nervos. O segundo saboreei, mas só brevemente. Pedi um terceiro ao garçon, que abriu os olhos e sorriu forçadamente, como quem diz “tenha calma, senhora, vá devagar”, mas não disse nada - disse-lhe eu, “não se preocupe, eu aguento bem e não costumo enjoar”. 

Regressámos ao hotel em silêncio. Tentei, sem muito sucesso, desacertar o passo do do Gustavo para que não caminhássemos juntos, para que não estivéssemos em sintonia. Ele não abriu a boca, simplesmente tentava sintonizar-se comigo. Ao chegar à porta do quarto, quebrei o silêncio apenas para declarar que não pretendia jantar com ele, “dispenso a tua companhia”. “Como assim?”, respondeu-me, com um sorriso desajeitado. “Ó querido, poupa-me.” Foi tudo o que lhe disse. Entrei, arranjei-me e saí sem lhe dizer palavra. Tinha um ar espantado no rosto quando bati com a porta. 

Quando cheguei ao restaurante do hotel, lá estava o homem brasileiro, mas sozinho. Aproximei-me e perguntei “importa-se que me sente?” “Ó, com certeza”, e puxou a cadeira com gentileza. “Faço questão”, acrescentou, explicando que precisava de falar comigo. “Tenho uma pergunta para lhe fazer”, disse ele. Decerto, iria falar-me do episódio no barco durante o passeio pelo rio. “Você gostaria de ir comigo até à vila, conhecer um wine bar que existe lá? Percebi que você entende de vinho.” Fiquei perplexa e sem saber o que responder. “Só você e eu, mais ninguém.” 

O meu coração acelerou, e podia jurar que suei das têmporas. Senti-me febril, desorientada. Quis dizer-lhe que sim, que me levasse. Que me embebedasse, que me beijasse, me possuísse, que fizesse de mim o que quisesse. Que me salvasse, que me desse cabo da vida. Mordi o lábio, sorri, pousei a minha mão sobre a dele. “O plano é bom, mas não é boa ideia.”

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