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Doce, histórias da girls band que pôs Portugal a cantar

Quando no início de 1980 as ouvimos, pela primeira vez, a televisão era a preto e branco, o Conselho da Revolução fazia as vezes do Tribunal Constitucional e Eusébio dizia adeus aos relvados. Quando as Doce terminaram, seis anos mais tarde, as noites iam dar ao Bairro Alto e organizavam-se excursões para fazer compras no Centro Comercial das Amoreiras. Eram os fabulosos anos 80. As Doce foram parte dessa mudança. Há 40 anos.

26 de novembro de 2019 | Helena Matos

"Doce?" Não é seguro que Fátima Padinha, Laura Diogo, Lena Coelho, Teresa Miguel e Tozé Brito tenham escolhido uma sobremesa, mas é mais ou menos certo que no final do almoço, ao ouvirem aquela pergunta do empregado de mesa, perceberam que tinham encontrado a resposta para a questão que repetiam há algum tempo: que nome dar à banda que as quatro iriam formar? Sim, seria Doce. Na verdade, para milhões de portugueses elas vão ser "as Doce", mas isso nem elas nem ninguém conseguiriam antecipar naquele outono de 1979. Muito menos imaginariam que, dentro de décadas, quando se fizer o levantamento sobre os acontecimentos relevantes de 1979, em Portugal, a criação das Doce aparecerá numa lista de que fazem parte factos tão diversos quanto a grave crise económica que obrigara o país a pedir ajuda ao FMI, o anúncio da retirada de Eusébio, a participação nos Jogos Sem Fronteiras ou a vitória da Aliança Democrática, a coligação liderada por Sá Carneiro nas eleições legislativas.

Por agora, nessa tarde quase invernosa de 1979, elas são apenas quatro raparigas que Tozé Brito conseguira convencer a formarem uma banda. Do que elas não estavam necessariamente convencidas é de estar a tomar uma boa opção. Fátima Padinha e Teresa Miguel têm fortes motivos para estar irritadas com o homem forte da Polygram. Afinal, fora por culpa de Tozé Brito que elas tinham visto acabar a sua banda anterior, os Gemini.

Durante três anos, os Gemini, que é o mesmo que dizer Fátima Padinha, Teresa Miguel, Tozé Brito e Mike Sergeant, acumularam popularidade e ganharam o primeiro Disco de Ouro entregue em Portugal e o Festival da Canção. Mesmo admitindo que nessa época a vida das bandas era muito efémera, os Gemini tinham todas as razões para continuar por mais algum tempo, não se tivesse dado o caso de Tozé Brito, que sempre preferira compor canções a interpretá-las, ter nesse mesmo ano de 79 aceitado o convite da Polygram para ser seu responsável em Portugal.

Lena Coelho, apesar dos seus 16 anos, sabia como era complicada a vida numa girls band: fizera parte das Cocktail, a primeira banda pop portuguesa só com mulheres. Quanto a Laura Diogo, as razões para ter dúvidas seriam ainda maiores: o que fazia ela, que fora a Miss Fotogenia e dama de honor no concurso Miss Portugal, numa banda pop?

"Amanhã de Manhã"

O ano de 1980 começa. E começa muito mal. Nos Açores a terra tremeu, os mortos contam-se às dezenas. A inflação ronda os 16,6 por cento. Mas sob o manto das más notícias, a sociedade mexe-se embora, ao certo, não se perceba ainda como as novidades anunciadas – videoconferência, disco compacto, walkman... – poderão vir a condicionar o futuro. Em Portugal, onde essas novidades parecem ainda mais longínquas, uma espécie de estribilho atravessa classes e geografias. Não sai da cabeça.

Vamos acordar e ficar a ouvir/ A rádio no ar, a chuva a cair/ Eu vou-te abraçar e prender-te então/ No corpo que é teu na cama no chão/ Os nossos lençóis, a colcha de lã/ Eu vou-te abraçar amanhã de manhã.

Sim, é certo que no Tejo um cargueiro chocou com o porta-contentores inglês Tollan que se virou e ali vai ficar, coberto de gaivotas, numa espécie de símbolo da nossa incapacidade para resolver a tempo todo e um qualquer problema. A televisão era a preto e branco e estava limitada a dois canais estatais. E também sabemos que a pílula estava disponível, mas que em Portugal se praticavam milhares de abortos por ano. Mas tanto atraso parecia ficar esquecido quando da rádio saía a alegria daqueles versos: Fecha os olhos, esquece o tempo/ Nesta noite sem fim/ Abre os braços, acende um beijo/ Fica dentro de mim/ Vem amor a noite é uma criança/ E depois quem ama por gosto não cansa/ Amanhã de manhã. Tinha saído o primeiro single das Doce. Em poucas semanas vai ser disco de Prata e de Ouro. Como era de esperar, Tozé Brito e Mike Sergeant trataram das canções, mas há uma novidade e um outro nome a ter em conta: na capa do disco, Fátima Padinha, Laura Diogo, Lena Coelho e Teresa Miguel usam aqueles que vão ficar conhecidos como "fatos de tigre". Os cabelos, a maquilhagem e o guarda-roupa pouco têm a ver com o ar ora de "fatinho para casamento moderno", ora de imitação em discreto dos Abba que caracterizava boa parte do guarda-roupa das bandas portuguesas. É aqui, na criação da imagem das Doce, que entra o outro nome: José Carlos. Costureiro, maquilhador e cabeleireiro, José Carlos chegou às Doce por causa de Laura Diogo. Talvez nenhum deles, nem sequer o próprio José Carlos e Carlos Condé, o outro homem forte da Polygram, em Portugal, que custeia esta operação, tenham consciência que José Carlos não vai apenas criar uma imagem para as Doce. Ele vai fazer algo de muito mais difícil: ele vai individualizar cada uma delas. Ao contrário do que acontecia nas outras bandas, em que mal se conheciam os nomes dos seus elementos, sobretudo dos femininos que eram substituídos sem que se desse por isso, as Doce são a Fá, a Laura Diogo, a Lena Coelho e a Teresa. Essa vai ser a sua força e também a sua fragilidade. Mas, por agora, falemos apenas da sua força.

"Café com Sal"

7 de março de 1980. Teatro de São Luiz. As Doce ficam em segundo lugar no Festival da Canção. Há quem diga que mereciam ganhar. Mas algo mudara nessa noite e não foi apenas o facto de a RTP ter passado a emitir a cores: as Doce, interpretando [a canção] Doce com as suas capas e penteados a remeter para o mundo disco (a Guerra das Estrelas é outra comparação possível), tinham tornado ainda mais evidente o ar antigo do mundo da canção em Portugal. Quando pouco depois sai o álbum Ok, Ko – "Ok, querido/ dizes que me amas/ então prova-me/ ok, querido/ dizes que me abanas/ então mexe-te, mexe-me/ põe-me ko" – e as quatro posam num ringue de boxe, cresce o imaginário sexual em torno das Doce. Nesse país que se vestia de fato de treino ao fim de semana e em que o topless se tornava sinónimo de liberdade, descobre-se o prazer de dançar ao som de Rock Me no Divã. É o ar do tempo que atravessa este álbum Ok, Ko, das Doce. Talvez por isso não seja pura coincidência que sejam os versos de Café com Sal – "Quando vou ouvir a rádio/ mudas sempre de estação/ se eu quiser ir de comboio/ tu só andas de avião/ Qualquer dia, amor/ vais mudar de cor/ vou servir-te o teu café com sal/ embrulhar o pão no teu jornal – a canção que melhor simboliza as contradições desse ano em que, num instante, se passa do riso às lágrimas, do progresso à barbárie, da festa ao luto.

Este é o ano em que o país celebra novas eleições e assiste ao regresso da violência em nome da política. Em abril de 1980, as FP-25 anunciam-se através de um manifesto e, em maio, fazem o primeiro atentado mortal. É também o ano em que pela primeira vez em Portugal tem lugar um concerto num estádio de futebol: foram os Police e o estádio – lotadíssimo – foi o do Restelo. Mas antes que em Lisboa, na Rua da Beneficência, no que fora o antigo Cinema Universal, Rui Veloso tocasse naquele que foi o primeiro dia de existência do Rock Rendez-Vous, o país recebe uma notícia que o surpreende pela sua brutalidade: o primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, e a sua mulher, Snu Abecassis, morreram na queda de um avião, em Camarate. Com eles perderam a vida Adelino Amaro da Costa e a sua mulher, Maria Manuela Simões Vaz Pires, e toda a tripulação. O ano acabava com um sabor a café com sal.

"Desatino"

"Estou abismada com a pornografia das Doce, abaixo das mulheres do Cais do Sodré", declara Maria Teresa Horta à revista Nova Gente quando lhe pedem a opinião sobre a participação das Doce no Festival da Canção de 1981. As palavras da escritora e feminista não destoam das reações então expressas nos jornais e revistas: as Doce chegaram favoritas a este festival com Ali Babá, mas saíram de lá em quarto lugar. A culpa caiu na roupa ou, mais propriamente, na falta dela – os fatos de odalisca resumiam-se a uns corpetes e umas franjas que, anos depois, fariam sucesso em girls bands estrangeiras – mas nunca em Ali Babá, tida como uma das melhores canções, não só do repertório das Doce, mas do próprio festival. Com o tempo multiplicaram-se as histórias em torno desta ida das Doce ao Festival de 1981, uma delas diz que os fatos de José Carlos não estavam completos e que, por isso, cantaram com franjas em vez de calças. Seja como for, o povo, esse, gostou: o disco que as Doce fazem sair a seguir ao festival foi dos mais vendidos nesse ano e veem crescer as solicitações para animarem festas e arraiais pelo país. É um ritual que se vai repetir nos verões seguintes: de julho a setembro, as Doce fazem espetáculos todos os dias nos sítios mais remotos de Portugal, em palcos tantas vezes improvisados, perante um público onde os homens não escondem (nem calam!) que mais que ouvir as Doce as querem ver e, às vezes, tocar. À falta de sítio mais seguro, mudam de roupa nas casas paroquiais, pois fosse onde fosse e para quem fosse, as Doce vestem-se, penteiam-se e maquilham-se como se fossem cantar na mais importante das salas.

O sucesso vai em crescendo: têm convites para digressões no estrangeiro. E é precisamente quando estão no Canadá, em novembro de 1981, que em Lisboa corre a uma velocidade relâmpago aquele que vai ficar na memória como o "boato das Doce", "o caso da loura das Doce com aquele preto do Benfica", "o escândalo da Laura Diogo com o Reinaldo"… Não passa um dia sem que se acrescentem detalhes novos ao caso: toda a gente conhecia alguém que sabia, que tinha visto, a quem tinham contado… Que Laura Diogo tinha dado entrada no Hospital de Santa Maria, após uma sessão de sexo anal com Reinaldo, um jogador guineense do Benfica.

"É Demais!"

Laura Diogo era a mais vistosa das muito vistosas Doce. Dizia-se que não cantava, ou que cantava pouco, mas Laura não tinha sido Miss Fotogenia por acaso: as câmaras e os olhares prendiam-se na sua cabeleira loura e na ingenuidade daquele sorriso que lembrava a menina que estudara entre freiras. O boato corre o país, entra nas casas dos ricos e dos pobres, dos cultos e dos analfabetos. Acrescentam-se detalhes sobre a natureza dos ferimentos e o número de pontos… Não há ninguém que não o tenha ouvido. Lá longe, no Canadá, Fátima, Teresa, Lena e obviamente também Laura acabam a ser informadas sobre o que está a acontecer em Portugal. A incompreensão é enorme. Não adianta explicar que é mentira e que Laura Diogo e Reinaldo nem sequer se conhecem porque, ao contrário do que agora acontece com as fake news, não havia como desmentir um boato. Poucos momentos terá havido na vida das Doce tão marcantes como aquele em que desembarcaram no Aeroporto da Portela, após o regresso dessa digressão pelo Canadá. Vêm envoltas em casacos de peles de raposas do Ártico, certamente mais a pensar em resguardar-se dos olhares de quem ali estava do que do frio de Lisboa. À sua espera têm alguns jornalistas, familiares e namorados. Laura sai do aeroporto ao lado de Jorge, o seu namorado, um estudante de Medicina, mulato. Segundo escrevem os jornalistas do Tal & Qual, ao vê-los passar, há quem pergunte: "É a loira? Olha, aquele que está com ela não é o mesmo, o tal?" Na tentativa de desmentirem o boato, Fátima, Teresa, Lena e Laura chegam a querer submeter-se a uma junta médica que prove que não sofreram qualquer tipo de suturas. Reúnem com advogados. Aos seus esforços juntam-se os do Benfica que vê um dos seus jogadores submetido a uma pressão imensa, tanto mais que se às vezes no "diz-que-disse" ainda se admite que a jovem loura que deu entrada no Hospital de Santa Maria "em estado lastimável e sem conseguir sentar-se" podia não ser Laura Diogo, ninguém se preocupa em repor a verdade em torno de Reinaldo que não só é casado como é pai. Foi o tempo e não as investigações a destruir o "boato das Doce": tudo terá começado a partir das palavras de um médico do Hospital de Santa Maria. Admite-se que, de facto, ali tenha entrado alguém – talvez um travesti que emulasse Laura Diogo – nas circunstâncias que o boato vai amplificar. Reinaldo e Laura continuaram sem se conhecer: ele viu a sua carreira ser afetada – passou do Benfica para ao Boavista –, Laura e as outras Doce continuaram a somar sucessos discográficos, mas não raras vezes, quando entravam no palco, ouviam alguém gritar entre o público: "Reinaldo!" Mais uma vez, uma das suas canções resume esses dias: É Demais! E foi.

"Bem Bom"

Terá sido por acaso que no Festival da Canção de 1982, José Carlos optou por trajes de mosqueteiros para apresentar as Doce? Coincidência ou não, depois daquele terrível final de 1981, elas enfrentaram o público com o espírito de "uma por todas e todas por uma". Ao contrário do que acontecera no festival de 1981, agora não havia um centímetro do corpo que não estivesse tapado (aquelas botas fabulosas fizeram sonhar milhares de mulheres!). Mal elas começaram a cantar "Uma da manhã, ei, bem bom/ Duas da manhã, ei, bem bom/ Já três da manhã, ei, bem bom/ Quatro da manhã, ei, bem bom..." tornava-se evidente que as Doce tinham um novo sucesso. O júri confirmou esta perceção: com Bem Bom as Doce ganhavam finalmente o Festival da Canção, em 1982, o que lhes dá o palco internacional do Festival da Eurovisão. Obtêm aí uma classificação modesta – o 13.º lugar –, mas conseguem vários contratos internacionais. A internacionalização começa a tornar-se um sonho possível: gravam For the Love of Conchita e Starlight. Cantam em Portugal e cada vez mais fora dele. Em 1984, as Doce voltam ao Festival da Canção. Cantam O Barquinho da Esperança. O resultado foi mau, mas os dois nomes que assinavam a canção – Pedro Ayres de Magalhães e Miguel Esteves Cardoso – revelam que o país da cultura começava a olhar para elas com outros olhos. Mas à medida que o sucesso cresce, aumentam também os custos que cada uma delas paga para manter a banda: "A tensão é imensa num grupo que passa junto semanas sem ninguém poder ir a casa. Não se parava. Era brutal. Era normal que elas andassem cansadíssimas, stressadas", explica Tozé Brito nas suas memórias desses anos. Mas há ainda outra peça a causar maior atrito na engrenagem própria de uma banda de mulheres muito jovens: a gravidez. Lena Coelho e Teresa Miguel engravidam e abortam: "Eu não fiz um, mas três abortos por causa das Doce", vai revelar Lena Coelho, anos mais tarde. E vai ser uma gravidez de Lena Coelho, essa não interrompida, o primeiro teste à sobrevivência das Doce sem todas as Doce: Lena Coelho é substituída por Fernanda de Sousa que mais tarde se tornará conhecida como Ágata. Lena Coelho volta, mas pouco depois sai Fátima Padinha. Estava-se em 1986. Ainda se tenta mais uma substituição. Ou passarem a trio. Mas não resultou. As Doce eram elas: a Fá, a Laura, a Lena e a Teresa. Aquelas raparigas que até hoje puseram o país a cantar: Vamos acordar e ficar a ouvir/ A rádio no ar a chuva a cair.

 

As Doce vencem o Festival da Canção 1982, com a canção "Bem Bom"
Foto: Cofina Media
1 de 4 As Doce vencem o Festival da Canção 1982, com a canção "Bem Bom"
Foto: Cofina Media
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As Doce durante a gravação da segunda eliminatória do "Festival TV da Canção" 1980, no Teatro Villaret
Foto: Cofina Media
3 de 4 As Doce durante a gravação da segunda eliminatória do "Festival TV da Canção" 1980, no Teatro Villaret
Em1980, no Teatro Villaret
Foto: Cofina Media
4 de 4 Em1980, no Teatro Villaret
Saiba mais Doce, conjunto, Fátima Padinha, Laura Diogo, Teresa Mihuel, Lena Coelho, música, música portuguesa
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