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Crónica Isabel Stilwell. Risquei janeiro da minha agenda!

Quem raio se lembrou de dizer que janeiro era o mês dos recomeços, dos novos planos, das doze passas, cada uma com um desejo mais impossível do que o outro?

Isabel Stilwell critica janeiro, enquanto descansa num sofá.
Isabel Stilwell critica janeiro, enquanto descansa num sofá. Foto: Getty Images
20 de janeiro de 2026 às 12:00 Isabel Stilwell Adicione como fonte preferencial no Google

Só pode ter sido alguém que morava no hemisfério sul, alguém tão convincente que nos fez cair na esparrela. Porque deste lado do mundo — deste lado do mundo, dizia eu — basta olhar pela janela para perceber que a natureza nos grita aos ouvidos: “Fiquem no sofá, hibernem; não se enervem se os vossos ramos não estiverem cheios de folhas, nem despontarem botões de flores, porque é mesmo assim. Este é o tempo de poupar energia, de deixar as raízes repousar, aceitando a melancolia e a solidão, mas sem assomos de desespero, porque a ressurreição da Primavera está garantida. Os dias mais compridos e de luz voltam em breve, mas esperem sossegados.” 

Mas fazemos ouvidos moucos ao que nos diz e desatamos a fazer todo o contrário: inscrevemo-nos em ginásios a que depois não vamos, somando culpa ao dinheiro gasto; corremos para os saldos como se, a metade do preço, fosse possível reencenar as festas que já passaram; sentamo-nos abatidos à secretária perante uma agenda estupidamente sobrelotada; frustramo-nos perante a folha de Excel em branco, porque os números e as palavras não aparecem escritas. E, sim, claro, procuramos resistir à barra de chocolate com laranja que nos ofereceram no Natal, porque jurámos que íamos perder peso. 

Janeiro não é para nada disto! A sério. Janeiro é para agulhas de tricot e bons livros; é para, quanto muito, arrumar gavetas e deitar fora o que está a mais; é para fazer croquetes no forno ou fazer ceias de queijo com tostas frente a uma série na televisão. Janeiro é para pôr de lado o telefone, para não alimentar a inveja daqueles que nos mentem com quantas câmaras de iPhones têm, fingindo-se exuberantes e incansáveis. E é decididamente um mês em que não devemos olhar para as montras, que funcionam em modo de constante jet-lag, impingindo gorros e luvas ainda o sol de agosto nos queima a pele, e fatos de banho em pleno inverno. 

E não podemos cair nestas esparrelas, porque o preço a pagar é demasiado alto: desconecta-nos do nosso ritmo biológico, do ritmo das estações do ano, da ligação com a natureza. Temos de tomar consciência de que, em termos da história da nossa espécie, celebrar o novo ano em janeiro é uma modernice sem sentido. Os antigos romanos deitavam foguetes no equinócio da primavera — como, aliás, continua a acontecer em países como o Irão (e se precisam de uma primavera que os livre do regime contra o qual lutam com tanta coragem) e muitos outros. Os 61 dias de escuridão, de Inverno, eram o tempo dos mortos, em que se faziam sacrifícios para evitar ser assombrado por antepassados maldispostos; era, basicamente, para fechar os olhos e rezar que passasse depressa. 

Depois veio o rei dos romanos Numa Pompílio, aparentemente um otimista inveterado, que lá pelos 700 anos antes de Cristo acrescentou janeiro e fevereiro ao ano, num calendário de doze meses ao qual, ao que consta, ninguém prestou a menor atenção, mantendo as festas para o tempo em que os campos se enchem de flores. A seguir foi a vez de Júlio César se interessar por corrigir o calendário lunar do seu antepassado, mandando chamar a Roma um astrónomo grego chamado Sossígenes, que, como acontece sempre, criticou tudo o que estava já feito e propôs uma reforma. Fazia mais sentido guiarmo-nos antes pelo sol, afirmou com aquele gosto imemorial (e que dizemos tão português) de voltar à estaca zero sempre que se chega ao poder. E foi assim que, em 45 antes de Cristo — ou da nossa era, como agora é politicamente correto dizer-se —, o ano passou a começar no dia 1 de janeiro. Mais uma vez, a grande maioria das pessoas não ligou nenhuma à data. 

Mas, afinal, Sossígenes, embora tivesse tido o cuidado de introduzir um dia extra a cada quatro anos para acertar as contas, não teve bem consciência de que o ciclo solar é de 365 dias e seis horas, calculando-o antes em 365 dias, 5 horas e 49 minutos. Se o leitor tiver a minha falta de talento para a matemática, deita as mãos à cabeça por se andarem a ralar com uns minutos a mais ou a menos; mas a verdade é que, quando se começou a somar um dia a cada 128 anos, ao fim de uma mão-cheia de séculos o erro já ia em dez dias, e os agricultores iam por um lado e os funcionários públicos por outro, gerando-se uma grande confusão. Foi então em 1582 — reinava há um ano em Portugal, D. Filipe I (II de Espanha) —, que o papa Gregório XIII decidiu convocar novos especialistas e fecharam o calendário que temos hoje. Portugal, Espanha, Itália e a Polónia, gente muito católica, adotaram-no mal a bula foi emitida, mas os protestantes e os ortodoxos resistiram; e os ingleses e os norte-americanos continuaram até 1752 a celebrar o novo ano só a 25 de março. 

Cá para mim, é tempo de chamar um novo astrónomo, mas, enquanto espero, já risquei janeiro da minha agenda, e fevereiro vai pelo mesmo caminho — sinta-se livre de fazer o mesmo. 

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