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Como falar às crianças sobre o coronavírus sem gerar pânico

A Máxima perguntou a uma psicoterapeuta como explicar aos mais novos a atual pandemia.

Foto: Marco Bertorello/AFP via Getty Images
19 de março de 2020 | Aline Fernandez

O filme A Vida é Bela (1997), do realizador, argumentista e ator Roberto Benigni, é uma verdadeira fábula sobre o amor e a sobrevivência. A obra vencedora do Óscar de Melhor Ator, Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Banda Sonora mostra-nos como um pai, num campo de concentração nazi durante a Segunda Guerra Mundial, consegue fazer o filho acreditar que tudo não se trata de uma brincadeira, para que este não enfrente a realidade tão cruel.

Embora as notícias e imagens que chegam de todo o mundo no deixem com a sensação de estarmos a viver um filme apocalíptico, a pandemia do novo coronavírus é um facto e a gravidade do Covid-19 é real e ironicamente palpável. Com o encerramento das escolas e atividades extracurriculares e com as mães e os pais a trabalhar de casa (ou a não trabalhar), as crianças provavelmente têm dúvidas sobre o que está realmente a acontecer. Não há aulas, nem desportos ou atividades extracurriculares, os mais novos não podem ir aos parque públicos brincar nem estar com os amigos, já para não falar nas festas de aniversários canceladas... O que é que se passa? Se muitos dos adultos não sabem a resposta – já que se trata de um novo vírus e já que estamos a viver situações completamente novas – menos ainda os mais pequenos.

As crianças precisam de se sentir seguras e não devem desenvolver ansiedade ou preocupações desnecessárias. Fazer com que se sintam encorajadas é o papel dos adultos. Afinal, é nos adultos que os mais pequenos confiam para ajudá-los em todos os momentos – a pandemia do coronavírus é apenas mais um.

O vírus Covid-19 é novo, por isso a informação pode continuar a mudar conforme avançam as pesquisas. "Não temos visto casos graves em crianças", afirmou ao The New York Times o médico Peter J. Hotez. Por causa disso, "não estamos a testar muitas crianças, por isso nem sabemos o papel delas na transmissão da doença." Ao mesmo diário o médico Sean O'Leary, membro executivo do Comité de Doenças Infeciosas da Academia Americana de Pediatria, reforçou que ainda é preciso cuidado: "Estamos no meio de algo pelo qual ninguém realmente passou antes", relembrou.

Vale a pena ressalvar que se seu filho tiver sintomas leves de constipação ou gripe o ideal é ligar ao pediatra e não levá-lo ao hospital. Os sintomas do novo coronavírus podem incluir febre, tosse seca ou falta de ar, e se a criança apresentar outros sintomas, como febre leve, corrimento nasal ou dor de garganta, pode tratar-se de outro problema e é fortemente recomendado a todos ficarem longe dos hospitais. Não apenas por estarem sobrecarregados, como também por serem um ambiente propício à infeção.

A Máxima falou com a psicoterapeuta Margarida Nobre para tirar dúvidas nesta fase atípica e tentar facilitar a vida aos pais.

Qual a melhor forma de falar com as crianças sobre o novo coronavírus?

A melhor forma será sempre dizer a "verdade". Entenda-se "verdade" ajustada à idade da criança, usando, para tal, uma linguagem que seja percetível e adequada ao seu entendimento e maturidade. Recomendo que falem com naturalidade, explicando a situação sem alarmismos mas não escondendo o que se está a passar, pois as crianças sentem a preocupação e agitação dos pais, logo não vale a pena dizer que "está tudo bem". É explicar o porquê de estarem agora em casa e os cuidados de higiene que devem ter e que esta situação irá passar – é uma fase; que estão agora todos em casa para se protegerem e deixarmos os médicos e enfermeiros a cuidarem de todos. Outra coisa que refiro aos pais é para não deixarem de responder a qualquer pergunta que os filhos possam fazer; mesmo não havendo uma resposta (as crianças são exímias em colocar este tipo de questões – não é para se surpreender!), o adulto pode tranquilizá-la ao estar a ouvi-la, a respeitar o seu pedido e o seu sentir. Tentar dar uma resposta que perceba que deixou a criança mais tranquila, mesmo sendo: "Filho, essa é uma boa pergunta, nunca tinha pensado nisso; vou refletir e vamos chegar todos a uma boa resposta". Ou, em alternativa, procurarem juntos a resposta na Internet (filtrando, SEMPRE, a mensagem – não ler diretamente, pois as mensagens são escritas para adultos – o pai/mãe devem recorrer à sua linguagem própria para explicar), em livros ou revistas ou até mesmo em enciclopédias que possam ter em casa.

Se os mais pequenos não fizerem perguntas, devemos abordar o assunto na mesma?

Sim. Na minha prática é isso que sugiro aos pais. As crianças percebem que não sendo fim de semana, nem férias, é algo "estranho" estarem todos em casa e ainda por cima terem os pais (ambos, ou o pai ou a mãe) a trabalhar a partir de casa. Portanto, quer queiramos ou não a dinâmica familiar fica diferente. E, por outro lado, há sempre uma conversa ou palavra que escutam, ou imagem/notícia na televisão… Não tenhamos dúvidas que as crianças de hoje têm acesso a muitas coisas e curiosas como são estão sempre atentas e a absorver o que se passa em seu redor. É, inclusive, característico do seu próprio desenvolvimento. Há formas simples de chegar às crianças, usem a sua imaginação e criatividade – estou certa que todos temos esta capacidade – e enquanto a história se desenrola vão percebendo qual a necessidade da criança em relação ao assunto e vão explicando, seja introduzindo mais personagens ou avançando na história. Outra recomendação, sobretudo para as crianças mais pequenas, é que não precisam de contar tudo de uma vez – não se esqueçam que as crianças não têm as mesmas necessidades dos adultos – mas não deixem de estar atentos e ir respondendo ou falando sobre o assunto sempre que virem que as crianças estão a demonstrar alguma agitação ou prostração ou outro comportamento que não seja habitual. Não se esqueçam que as crianças são muito observadoras…e vão estar muito atentas e sensíveis aos pais.

Devemos envolver as crianças nas tarefas de casa?

Sim, por favor. Uma vez mais, dependendo da idade da criança, podem atribuir-se tarefas domésticas, nem que seja, simplesmente, arrumar os brinquedos do seu quarto ou colocar os guardanapos na mesa do almoço e jantar. É importante explicar e envolver a criança para que sinta que faz parte da comunidade, que colabora e, simultaneamente, vai desenvolvendo as suas habilidades sociais, de cooperação e familiares.

Uma nota para os pais: ao realizarem as suas tarefas não as façam, quando possível, com "esforço", mas sim com um sorriso, pois as crianças aprendem observando e como tal, se vêm e percecionam esse "esforço" vão assumi-las como não sendo algo de bom e, por conseguinte, também não irão querer envolver-se a realizá-las. Colocaria, ainda, aqui outro tipo de atividades/tarefas que possam desafiar os filhos. A componente lúdica é muito importante, pois não só permite que a criança desenvolva as suas habilidades e capacidades, como lhe permite o contacto emocional e descarga de alguma tensão física e emocional que sintam. Introduza algumas atividades físicas, como por exemplo, uma "guerra de almofadas" (com regras…!), rebolem no chão, façam uma "luta" (com regras…!), cócegas,….etc…e riam MUITO).

É importante manter a rotina o mais próxima possível da normalidade?

Sim, embora a "normalidade" tenha assumido outros contornos. Diria antes manter a rotina dentro desta nova realidade. É fundamental que a criança mantenha os mesmos rituais de higiene e alimentação, sempre. Manter, igualmente, os horários de deitar e acordar que são extremamente importantes para o bom funcionamento do seu ritmo biológico. Respeitar o horário do sono é saúde para o corpo (e cérebro, não esquecer!).

Os pais podem, em conjunto, com as crianças em idade escolar, elaborar um calendário para as atividades escolares para que mantenham a estrutura. Outras atividades podem ser incluídas, mas atenção, não colocar demasiadas, não devemos esquecer que as crianças precisam de brincar e de pausa, sem ter o tempo todo ocupado. E TV e telemóvel sem exageros – aqui talvez um pouco de maior contenção, pois a tentação será muita.

Em relação às crianças mais pequenas não haverá necessidade de nenhum calendário específico. Permitir que tenham as rotinas essenciais e promovam as atividades lúdicas, sejam sozinhas ou em família. Deixe que as crianças desarrumem o quarto (depois arrumam, com orientação até estar apreendido como se deve fazer); às vezes deixar esticar a hora de deitar pode ser importante para que comecem a ter perceção dos limites do corpo (não é para ficarem a dormir de manhã na cama…); Promovam momentos de sossego e tranquilidade.

Os pais devem aproveitar este momento para também brincarem mais com os filhos. Irem buscar aqueles jogos de tabuleiro (ou outros) que estão guardados (que receberam nos Natais anteriores e jogaram apenas uma ou outra vez, porque não havia tempo…); Cantarem, karaoke; jogar à bola; fazer jogos de cartas; desenhar e pintar; escrever uma peça de teatro; ensinar a fazer trabalhos manuais…. Uma infindável panóplia de recursos que, mesmo não sabendo fazer, se podem encontrar formas na Internet.

E, importante, fiquem tranquilos, não há necessidade de andar sempre atrás deles. Aprender a autorregular o tempo e o espaço será uma tarefa de todos. Estamos todos a aprender…com consciência, esta circunstância não é, de facto, normal! Tentemos ser o mais "normais" que conseguirmos! E vai correr bem!

Aos pais que estão a trabalhar de casa, como manter o ritmo sem que o filho se sintam isolados?

Uma vez mais, tudo passa pela comunicação. Não haja dúvidas de que precisamos de ser claros e explicar às crianças que nesta nova realidade os pais vão estar a trabalhar a partir de casa; que no horário X e Y estarão mais dedicados às exigências profissionais, e que nesse período eles também terão as suas atividades. Os pais podem ajudar e decidirem, em conjunto, o que fazer nesse período – seja estudo ou brincadeiras. Se forem muito pequeninos, o pai e a mãe deverão articular-se, alternando os períodos em que possam estar a brincar com a criança, com o menor impacto para os seus outros compromissos.

Estou segura de que os pais conseguem dar espaço e ajustar os seus tempos horários para que tudo aconteça, sem que a criança se sinta, como diz, isolada. Chamo, no entanto, a atenção para o facto de que estar "só" não significa abandono, isto é, a criança (tal como o adulto) também precisa de momentos de estar consigo própria, a brincar sozinha, com os seus diálogos, ou a ler ou a pintar/desenhar… ou até a estar, simplesmente. Que este comportamento não se confunda com "mau isolamento", nem faça parte da "ansiedade" do adulto.

Fala-se muito do vírus ter vindo da China. Como podemos abordar esse assunto e reforçar que nunca devemos ter preconceitos?

Esta questão é muito séria. E caberá aos pais, sempre que necessário, explicar que o vírus surgiu na China (tanto quanto se sabe, sim), mas que tanto a população, como as crianças chinesas foram, igualmente, infetadas por este mesmo vírus, tal como está a acontecer noutros países. E só isto, não devendo, portanto ser alvo de qualquer tipo de "culpabilidade" ou "preconceito". Não se deverá enfatizar nessa prerrogativa; somos todos seres humanos e a lidar com esta calamidade. Sem dramatismos e com responsabilidade e seriedade.

Atenção que o preconceito é um conceito e como conceito que é, vem da cabeça do adulto e não da criança. Os conceitos são apreendidos pela criança, através das atitudes dos adultos, pelo que será o adulto a não dever atuar nesse preconceito. Deverá, portanto, estar atento ao que fala e ao que faz de forma a ser coerente, ou não, com o preconceito.

Pais que são separados devem tomar procedimentos especiais na troca das semanas ou dias?

Tal com já falamos, as rotinas devem, sempre que possível, ser mantidas para o bom equilíbrio da criança. Contudo, estamos a atravessar uma situação nova, pelo que aqui os pais devem conversar entre si e perceber qual a melhor forma de proceder para a salvaguarda da criança.

Deve-se, também, perguntar e ouvir, sempre, o que a criança deseja. Cada caso é um caso e deverá ser abordado individualmente. Peço apenas aos pais que o façam num bom diálogo e com responsabilidade. Estamos a falar de segurança e saúde!

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