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Ciclo de concertos “A Boca do Lobo” traz música clássica para a pista do Lux

Um ponto de encontro de culto na capital lisboeta, o Lux Frágil recebe o ciclo de concertos A Boca Do Lobo, onde a música clássica se instala, cruzando obras e artistas, acima de tudo, num constante desafio à partilha e criatividade.

14 de janeiro de 2020 | Rita Silva Avelar

Cruzar influências musicais, estilos sonoros, artistas distintos, experiências disruptivas, ideias criativas, e oferecer essa riqueza cultural a uma pista de dança que bem conhecemos. De forma sonora. Essa premissa está contida na intenção que Martim Sousa Tavares, maestro e fundador da Orquestra sem Fronteiras, quis integrar no projeto A Boca do Lobo, que na verdade é uma temporada de seis concertos inéditos prestes a acontecer no Lux Frágil, em parceria com a Absolut, entre janeiro e junho de 2020, na terceira quinta-feira de cada mês.

"A Boca do Lobo é uma iniciativa que vem juntar duas visões diferentes que se complementam: de um lado estou eu, um jovem de 28 anos que está frustrado com a falta de rejuvenescimento etário e intelectual desta forma de arte, assim como certos tipos de formalismo e rigidez que, por vezes, tornam a música clássica numa experiência pouco apelativa" explica Martim Sousa Tavares. E acrescenta: "Já o Lux Frágil nasce como um espaço de liberdade e libertação, e é o local ideal para assumir um risco destes, em que tudo está aparentemente ao contrário. A música clássica tem lugar no Lux Frágil? É por isso mesmo que se chama A Boca do Lobo, porque há esse risco inerente de estarmos onde não devíamos estar" revela.

O primeiro concerto, A Viagem de Inverno, acontece a 16 de janeiro pelas 22h, e junta a pianista Mrika Sefa, que nasceu no Kosovo e depois rumou à Suiça, Martin Mkhize, que deixou a África do Sul para procurar a sua voz na Holanda, e o artista cabo-verdiano Fidel Évora, que ilustrará, ao vivo, juntando a sua arte à de Mrika e Martin. Este trio dará voz à viagem de inverno de Franz Schubert. "O primeiro concerto aborda o tema das migrações a partir de uma obra, Viagem de Inverno, de Schubert, que parte de um poema sobre a errância. Quisemos convidar artistas que conhecem a migração na primeira pessoa, com uma pianista kosovar, um cantor da África do Sul e o Fidel Évora, artista cabo-verdiano, que vai criar, ao vivo, uma tela por cada um dos 24 andamentos da Viagem de Inverno de Schubert."

No fim, as obras resultantes do live painting revertem a favor do Projecto LAR, uma organização não-governamental que trabalha com o acolhimento de refugiados em Portugal.

Seguem-se mais cinco concertos, a 20 de fevereiro, 19 de março, 16 de abril e 21 de maio. Destacamos, também, o concerto de março Escapesoundscape, um momento imersivo dedicado à ecologia sonora, que alia música e meditação. "Neste concerto, a partir de uma obra de longa duração de John Luther Adams, reconhecido compositor e ativista norte-americano, será possível a imersão num ecossistema de sons que se desenvolvem no tempo e no espaço de forma lenta, contaminando-se e evoluindo tal como um organismo sonoro" explica à Máxima este maestro. "A experiência, que convida à meditação, poderá ser uma importante metáfora da música enquanto retrato do ecossistema que habitamos, a sua fragilidade e beleza, assim como a transitoriedade temporal de tudo quanto acontece."

Sobre se a música clássica, em Portugal, continua a ser considerada "erudita" e se "levá-la" ao Lux Frágil já era uma ambição e uma urgência, Martim Sousa Tavares explica que "em Portugal e noutros países, a música clássica continua a ser vista como um produto pensado e consumido apenas por um grupo social e económico restrito, o que é uma pena. A verdade é que com o abandono do ensino humanístico em sentido lato, hoje em dia temos menos ferramentas para abordar esta forma de arte e entendê-la." E conclui: "Nesse sentido, levá-la ao Lux Frágil, de forma um pouco inovadora, poder ser a porta de entrada para muita gente conhecer e abraçar este género musical. Ao mesmo tempo, para quem já gosta, pode ser uma nova forma de estar, fruto do tipo de experiência que será possível no Lux Frágil e que não é possível em qualquer auditório convencional."

Para cada sessão deste ciclo, a entrada tem um custo de €12 por pessoa. A ilustração do cartaz do primeiro concerto ficou a cargo de André Carrilho.

Foto: André Carrilho
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