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Casos de exploração sexual já são relatados em Moçambique em pleno desastre do ciclone Idai

A passagem do ciclone tropical, no último dia 14 de março, trouxe mais desastres que o natural. A Associação de Mulheres das províncias de Sofala e Manica já estão a receber vítimas de abuso sexual.

Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP/Getty Images
29 de março de 2019 | Aline Fernandez

"O momento de pânico e choque passou em parte, porque agora estamos em tempo de reconstrução. Agora que as águas baixaram. Mas continuamos no terreno vendo situação de desespero e de muito sofrimento, porque as pessoas estão com fome, não têm alimentos e não sabem se vão conseguir sobreviver", conta-nos por telefone a ativista dos direitos das mulheres Nzira Razão de Deus, diretora-executiva da organização não-governamental Fórum Mulher, em Maputo, capital de Moçambique.

"Muitas famílias perderam as suas casas e as suas machambas [terreno utilizado para produção agrícola]. Nós sabemos que aqui em África, em Moçambique, a agricultura familiar é praticada maioritariamente pelas mulheres e elas dependem do que sai da terra para a sua alimentação. Perdeu-se o que comer e a ajuda que está a ser canalizada não é suficiente para cobrir o número de pessoas afetadas. Esta situação no momento está a criar muito desespero e muita violência, principalmente assédio e exploração sexual. Já começamos a ouvir relatos de raparigas e mulheres que estão a trocar sexo por comida", alerta Nzira. A Associação de Mulheres das províncias de Sofala e Manica, em Moçambique, já está a receber vítimas desse cenário, que estão a receber apoio psicológico, segundo acrescentou a diretora-executiva da ONG.

"Nos acampamentos e centros de acomodação, quando chega comida, muitas vezes por falta de um processo de organização muito bem estruturado [para a sua distribuição] às vezes funciona a lei do mais forte. Então quem tem maiores condições de se aproximar e lutar para ter alimento é que consegue chegar, e nós sabemos que, em termos de estrutura física, os homens são os que mais conseguem aproximar-se. E não são só as mulheres [as prejudicadas], porque também há crianças pequenas. O [pela facto das mulheres] estarem muitas vezes a cuidar de doentes, de quem precisa de mais ajuda, faz com que tenham poucas possibilidades de aceder aos alimentos que chegam", reforça Nzira, que defende que as respostas humanitárias atendam às questões de género. "Quem está no controlo, até mesmo do processo de descarregamento dos produtos que chegam, é um homem. Eles ficam no controlo da ajuda que chega e uns acabam usando a oportunidade para, num cenário de oportunismo, confiscar e depois fazer chantagem. Existe essa troca de comida por sexo, há um sistema de desvio de produtos que vão parar a outras pessoas que não têm nada a ver com o acampamento. Não chega diretamente às pessoas mais vulneráveis, que são as mulheres, as crianças e os idosos, pessoas que tenham mais necessidade e carência. Esta já é uma situação que já nos preocupa bastante e já fizemos o alerta ao Instituto Nacional de Gestão de Calamidades [de Moçambique], ainda não muito formal, mas chamando a atenção que é preciso tomarem em consideração como isto está estruturado nos centros de acomodação. Levem em consideração a criação de espaços seguros, que as mulheres e raparigas possam interagir sem necessariamente conflituar com os homens por causa dos oportunistas".

Nzira atenta também que a situação poderia ser solucionada, apesar de muito "complicada", com a atenção devida e o treinamento por parte de quem provém a assistência. "Era importante que o nosso Instituto de Calamidades faça sessões de treinamento, de chamada de atenção para evitarem cenários como este de violência sexual, cenário de exploração e de proliferação do vírus HIV também, por exemplo, o abuso de crianças e menores… e isso já está a acontecer."

A diretora-executiva da Fórum Mulher informou à Máxima que vai começar a capacitar, nos centros de acomodação, as mulheres para que elas comecem a tomar atenção e a denunciar situações de abuso e exploração sexual quando acontecerem. "Queremos criar os cantos de acolhimento ou ‘cantinhos seguros’ para mulheres e raparigas, de modo que possam registar as situações e também alertar e fazer campanha de sensibilização para as situações que forem acontecer", adianta-nos Nzira de Deus.

O ciclone tropical Idai em Moçambique, no Zimbabwe e no Malawi fez pelo menos 786 mortos. Moçambique foi o país mais afetado, com 468 mortos e 1.522 feridos, além dos 839.748 mil pessoas afetadas no centro do país, segundo informações do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades de Moçambique. Também foram confirmados cinco mortos de cólera no centro de saúde do Bairro da Munhava, na cidade da Beira, e já se somam 139 casos confirmados. Os números podem não ter uma relação direta com as condições sanitárias agravadas pela destruição provocada pelo ciclone, contudo conter a proliferação da infeção que causa diarreia aguda é uma das prioridades das autoridades. O número de pessoas salvas soma 135.827, divididas entre 161 centros de acolhimento, além dos 8.201 utentes. Os dados são referentes a esta sexta-feira, dia 29 de março.

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