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"A coisa mais interessante a acontecer a pessoas negras não são pessoas brancas"

Duas irmãs gémeas negras no Sul dos Estados Unidos que escolhem vidas radicalmente diferentes. É o ponto de partida do segundo romance da norte-americana Brit Bennett, que explora temas como identidade, racismo e colorismo. A Máxima falou com a autora.

Foto: D.R.
22 de julho de 2021 | Joana Moreira

Aquando da publicação de The Mothers, o seu primeiro livro [não editado em Portugal], foi comparada a nomes como Toni Morrison e James Baldwin. Como é ver-se ao lado desses escritores? A sua escrita nasce desse legado?

Esses são todos escritores que adoro e admiro por isso é uma honra incrível ser mencionada sequer como parte dessa linhagem. São escritores que adorei ler quando crescia e que ainda adoro, são escritores que contam histórias cativantes, mas também com frases bonitas e é isso que espero fazer no meu próprio trabalho. Por isso é uma grande honra ser mencionada. É uma honra ser considerada parte da sua linhagem literária.

Na literatura há temas que historicamente não foram tão explorados, nomeadamente a experiência negra. Este novo livro explora não só dois lados da experiência negra, mas fala também sobre a questão do colorismo e do que significa fazer "passar-se por branca". Teve isso em mente quando começou a escrever?

Não creio. Todos os escritores que acabou de mencionar foram os escritores que eu cresci a ler. Eu não senti que essas experiências faltassem porque no meu mundo eu estava a ler muitos escritores negros que exploravam esses temas. Por isso não senti que estava a escrever para preencher nenhuma lacuna, de certa forma. Mas eu sabia que queria pegar em alguns destes temas da minha perspetiva, enquanto mulher de trinta e poucos anos no século XXI. Para mim isso é que era realmente diferente. Queria fazer um update deste tipo de narrativas sobre a formação da raça, mas da minha perspetiva, enquanto escritora contemporânea e pessoa que cresceu numa altura muito diferente destes escritores que têm escrito sobre estes assuntos há décadas.

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A literatura está a passar por um momento particular de ascensão de novas vozes. Mais do que trazer diversidade, esta também pode ser visto como uma mudança política e social. Acha que as pessoas estão a aprender com estes novos livros sobre o que é a experiência negra no mundo?

Não sei e não sinto qualquer responsabilidade de ensinar. Acho que estamos num período entusiasmante para a literatura, posso falar com confiança particularmente na literatura americana, pensando em todas as escritoras negras agora, muitas delas [mulheres] a quem tenho a sorte de chamar amigas, ou só pessoas que admiro. Há tantos livros incríveis que estão a sair. Sinto-me muito sortuda por estar a escrever neste momento, mas não estou interessada em ensinar a alguém nada, só quero contar uma história cativante de uma forma bonita. É isso que os escritores que eu admiro fazem. E é o que eu espero continuar a fazer no meu trabalho.

'A Outra Metade', livro de Brit Bennett
'A Outra Metade', livro de Brit Bennett Foto: D.R.

O que espera que as pessoas retirem da leitura d’A Outra Metade?

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Espero, primeiro que tudo, de que gostem. Não tomo por garantido o facto de alguém ler o meu livro porque há tantas outras coisas que as pessoas podiam estar a fazer e que precisam de fazer. Tirar tempo para se sentar e ler um romance por uns dias não é algo que tomo por garantido. Por isso, primeiro que tudo, espero que tirem prazer disso. Acho que é isso procuro nos livros, uma boa experiência de leitura antes de tudo. Depois disso, aquilo que retiro da experiência de escrever este livro é que a identidade é algo muito complexo, muitas vezes mais complexo do que a linguagem. E eu não dou respostas, não me proponho a dar respostas a ninguém ou a resolver nenhum destes problemas. O que significa quando a identidade é tão mais complexa do que a linguagem que nós temos para falar sobre identidade? E como é que falamos de identidade sabendo isso?

Numa entrevista há uns meses disse que havia uma tendência para as pessoas pensarem que as histórias mais interessantes são as do conflito entre pessoas brancas e negras, mas que para si a coisa mais interessante a acontecer a pessoas negras não são as pessoas brancas. Acha que há algum tipo de resistência em tentar manter a experiência branca nas histórias e experiências de pessoas negras?

Às vezes. Acho que encontramos isso em qualquer tipo de grupo marginalizado. É o mesmo quando se está a falar do trabalho de escritores LGBTQ, em que tem de haver uma pessoa heterossexual ou uma visão heterocêntrica no livro, ou uma perspetiva branca, ou masculina, o que seja. Acontece em muitas tradições. Isso é comercial, para tentar fazer chegar o livro a determinadas audiências ou insistir que se precisa dessas pessoas dominantes no centro do livro, mesmo se isso significar que elas são o conflito, isso continua a coloca-las no centro de alguma forma. Portanto acho que pode haver uma tendência para isso, mas eu também acho isso simplesmente aborrecido. É o que eu disse: a coisa mais interessante a acontecer a pessoas negras não são pessoas brancas e a ideia de que é assim que as nossas vidas são estruturadas é por um lado absurdo, mas também completamente falso (risos). Para mim parece ficção cientifica ter a vida orientada em torno da branquitude. Não estou interessada em escrever sobre isso. Estou interessada em escrever sobre a vida de pessoas negras e as suas relações umas com as outras. Para mim é sobre isso que é este livro. É sobre uma família negra, uma comunidade negra. Depois há outras personagens, mas o centro deste livro é esta família negra que depois se divide em diferentes direções.

Falando de Stella, a irmã gémea que tenta 'passar-se' por pessoa branca. Li que não queria que ela fosse julgada pela sua escolha. Mas, ao mesmo tempo, as escolhas que ela fez levaram-na à infelicidade. Como encontrou esse equilíbrio ao escrever a história?

Não acho necessariamente que a infelicidade seja um castigo ou a felicidade uma recompensa. Acho que esses são só resultados da nossa vida. Eu não queria que a narrativa fizesse aquilo que as histórias normalmente fazem que é a Stella ser empurrada de uma janela no fim do livro. Não queria que o livro instituísse algum tipo de castigo à personagem. Mas sabia que queria que ela tivesse uma relação complicada com a sua nova vida, e ter estes momentos de alegria, mas também estes momentos de tristeza profunda e alienação, mas para mim isto não é um castigo. Até porque não diria que a Desiree tem a vida mais feliz também (risos). Acho que ambas acabam por ter esta mistura de experiências, o que para mim é a vida, fazemos as nossas escolhas e às vezes estamos felizes e outras vezes não. Mas são as escolhas que tomamos. Para mim o mais importante foi ter a Stella e vê-la a tomar consciência da sua decisão e perceber que, quer a tenha feito feliz ou não, foi o que ela escolheu para ela própria. Isso para mim era o mais importante. Vê-la escolher em vez de ser o livro a escolher por ela.

A Outra Metade, de Brit Bennett, Editora Alfaguara.

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