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Agosto do nosso (des)contentamento

“No verão é que percebemos quem são os nossos amigos.”

Foto: Fotografia de Rui Aguiar. Realização de Maria A. Ruiva. Edição 370 da Máxima [julho de 2019].
20 de agosto de 2020 | Patrícia Barnabé

Nunca percebi a obsessão por agosto. É o mês mais instável do verão, em termos de temperaturas e ventos inesperados – a parte da chuva tropical é o melhor, faz-nos sentir vivos e sexy – mas é o que TODA a gente escolhe para tirar férias. Uns porque têm de fazê-lo, a empresa fecha, a escola fecha, o interregno judicial e dos trabalhos institucionais. Ainda mais durante a pandemia, continua a ser um mistério a escolha do mês de sempre para tirar férias quando nunca tivemos menos vontade de andar em rebanho. Temos um país vazio para desfrutar em qualquer altura, o turismo internacional circula pouco, e nem os emigrantes ou as festas da aldeia nos alegraram este ano.

(Soube há dias pela televisão que desde o início da época balnear já passaram pelas praias portuguesas mais de 12 milhões de pessoas e o alerta vermelho de praia cheia já disparou 2500 vezes).

Mas a questão do querido mês de agosto não se fica pela popularidade e comunhão, consideradas e até recomendáveis, mas pelo seu aparente contrário: o abandono dos que ficam. Sempre ouvimos que o Natal e a Passagem de Ano são as alturas mais solitárias do ano - é mentira, e não é preciso explicar muito porquê. São sociáveis, até cansativas, uma azáfama. Não faltam convívios em dezembro, familiares, profissionais, velhos amigos, amigos novos – queremos marcar a importância daquelas pessoas na nossa vida antes que o ano acabe e sabe-se lá porquê só o fazemos no fim, E há toda a magia idealista e a onda de solidariedade da época que visita os hospitais, os lares, os orfanatos e os sem abrigo. É o mês para usar na lapela do bom comportamento, a ficha para os perdoados darem mais uma volta solar.

No verão é o abandono total e absoluto do outro. Do cachorro que cresceu entretanto, dá trabalho e é largado numa beira de estrada, ao familiar mais velho que diz não gostar de praia para não pesar na logística, ao amigo que não tem par, nem para onde ir de férias, mas ninguém repara. Nem vale a pena referir, sendo fundamental referir, os que são sós e doentes e passam dificuldades diversas, os esquecidos do costume. Agosto é, na verdade, o mês menos solidário e querido de todo o ano. E não venham atirar pedras a janeiro, o único problema de janeiro é termos rebentado as poupanças em dezembro e estarmos todos de ressaca.

Em agosto ninguém responde a e-mails, os serviços estão fechados e sais para ir às compras no teu bairro e a padaria só abre a dia 18, a peixaria só em setembro, faltam produtos no supermercado e alguns dos tascos de eleição, esquece, o staff vai em debandada para os extremos do país ver a família. Os amigos estão todos ausentes nas casas da aldeia – só assumimos que somos da aldeia nesta altura do ano - ou nas herdades ainda não herdadas, mas que rendem grandes descansos ou, para a maioria, nos aparthotéis algures e que servem muito bem. Agora até começámos a descobrir o país interior e as praias fluviais, o que é, como diria um amigo meu pontapeando a gramática, muito óptimo.

No verão é quando a solidão dá nas vistas, mas também quando são mais gritantes as diferenças sociais, entre todas as outras que a pandemia já demonstrou. Por isso, ninguém merece o verão que tem. Normalmente, herda-se um verão ou o verão da família de alguém. E agora com os aeroportos a meio gás, nós confinados à nossa singular existência, uns sem trabalho, outros sem finanças, todos à espera do futuro, este é o verão do nosso descontentamento e da nossa evidência. É no verão que percebemos quem são os nossos amigos.

Mais agora com as redes sociais, as diferenças são vividas em direto. Assistimos à felicidade dos outros em barcos e sob quedas de água, com panorâmicas de escarpas e praias de sonho em fundo, passeios no verde e comezainas tardias. As redes sociais só promovem uns, sem nenhuma lógica ou critério a não ser cair em graça. Mas existem todos os outros (e muitos que se importam) e os psiquiatras começam a falar nisso, dos tantos, principalmente os mais novos, que não se sentem pertencer, socialmente irrelevantes. Salvemo-nos da pertinência medir-se em posts do Instagram, a moderna revista de social, mas aqui o casting é decidido pelo umbigo dos próprios, e tudo é pensado para parecer lindo e abundante e feliz. Conhecemos os caras-metade, os pais, e principalmente os filhos, muitos filhos, até os animais domésticos, vistos de todos os ângulos, à falta de outros temas. Agosto tem poucos temas, por isso o presépio é admirado como se fosse Natal.  E é enternecedor, digo-o sem qualquer ironia, porque nem notamos como nos repetimos quando estamos, ou queremos parecer, felizes.

Adoramos pessoas felizes, mas não adoramos a evidência de mundo que o mês de agosto nos devolve todos os anos. O agosto é como se fosse o domingo do ano, ninguém espera que compareças. Chamam-lhe a silly season, mas ninguém sabe ao certo por que foram todos de férias. Ninguém combina coisas em agosto, ou desmarcam-se em cima da hora, pela mesma razão insondável que ninguém combina serões à segunda feira.

Nem é para ser do contra, mas nunca gostei de férias em agosto. Talvez em criança porque parecíamos mais nas brincadeiras. A principal razão é porque adoro o silêncio da minha Lisboa em agosto, e depois dos meses de pandemia, é um espreguiçar de dias, agora com um pouco menos medo. É o mês em que namoro descaradamente com a cidade onde nasci, e à vontadinha, na aragem das sombras dos seus jardins vazios, em caminhadas desanuviadas junto ao rio, recostada em serões de cinema ao ar livre, e em jantares dos poucos que sobram, as noites prolongam-se sem tempo. Até se admiram melhor as copas das árvores e os topos dos edifícios, não há disputas parvas no trânsito, porque ninguém está com pressa, e não há filas para coisíssima nenhuma. Um descanso. Ouves os pássaros ao fim da tarde e os teus passos na calçada. Por isso, acabas por ter dois meses de férias todos os anos – os dias que tiras e o mês de agosto. É mágica a melancolia de agosto na cidade quando se contenta; se não chamamos-lhe solidão. Agosto reconecta-te com o teu lugar, o teu bairro, os teus verdadeiros – mais uma vez: sabes quem são os teus amigos nos dias do lazer. Adoro a lanzeira citadina de agosto, sem estar rodeada em permanência e sempre com coisas para fazer. No pasa nada. Depois em setembro, e a rentrée que espere, tens o campo e as praias só para ti.

Saiba mais Lisboa, Agosto, Crónica Saltos na Calçada
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