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A vida no pior campo de refugiados da Europa

Dulce Machado, professora do ensino básico, apresenta Vidas Esquecidas, uma exposição de fotografia que retrata a sua experiência em Lesbos.

05 de dezembro de 2019 | Rita Lúcio Martins

Há um antes e um depois na vida de Dulce Machado. A linha traça-se no momento da decisão de fazer voluntariado num campo de refugiados. Primeiro em Elefsina, na Grécia, e depois em Moria, Lesbos, a professora do ensino básico colocou o seu tempo ao serviço dos outros, fazendo do carinho a sua marca distintiva. No regresso sentiu necessidade de dar corpo a tantas memórias e emoções. Assim nasceu Vidas Esquecidas, uma exposição de fotografia patente no Espaço Bento Martins, em Carnide, Lisboa, até 10 de dezembro.

O que a levou a querer fazer voluntariado?

Desde cedo, que sou uma pessoa muito ligada aos direitos humanos e às causas sociais. O ajudar os outros, o lutar pela justiça e pela igualdade sempre fez parte de mim. Daí o gosto imenso em fazer voluntariado.

Porquê o voluntariado com refugiados, especificamente?

Sempre tive um carinho especial por este tema, por todas estas pessoas que são forçadas a deixar as suas vidas para trás e a caminhar num futuro incerto. Sempre quis ajudar, trabalhar com refugiados.

Depois de uma experiência em Elefsina partiu para Lesbos. Porquê este destino?

Após a minha primeira experiência, o ano passado, num campo de refugiados prometi que iria voltar. Moria, em Lesbos, é o pior campo de refugiados da Europa e um dos piores do mundo. Quis mesmo ir para poder ver a situação pessoalmente e ajudar em tudo. Para levar o meu sorriso, o meu abraço.

Ainda se recorda das suas primeiras impressões do campo?

Claro! Nunca vou esquecer. Moria é o inferno na Terra. Um campo com capacidade para 3 mil pessoas e estão lá à volta de 13 mil. Consegue imaginar? É um cenário de guerra, de sofrimento, de dor. As tendas, os contentores, as casas de banho que são partilhadas por homens, mulheres, crianças e em condições inimagináveis. A falta de higiene, de cuidados sanitários. A fome, as doenças, as violações fazem parte do quotidiano. Há muitas mulheres que dormem com fraldas para não terem que ir à casa de banho durante a noite, têm medo. As crianças que nos pedem colo, muitas delas sem pais, sem ninguém.

Durante quanto tempo ficou? Consegue descrever-nos as suas rotinas, o seu dia a dia?

Fiquei durante um mês, que me pareceu quase um ano. O meu trabalho consistia em dar apoio às mulheres e às crianças, embora também tenha trabalhado com homens. Fazia de tudo, dava aulas de inglês, de teatro, dança, artes plásticas. Também dava aconselhamento às mulheres, ajudava-as nas suas necessidades mais básicas. Participava na distribuição da comida, da roupa, de produtos de higiene. Fazia jogos e concursos com as crianças também. Começava o meu dia por volta das 9 horas e, às vezes, só terminava às 23 horas, ou até mais tarde. O dia era passado, essencialmente no centro da Team Humanity. E, espalhava muitos beijinhos, abraços e sorrisos. Todos me chamavam"Dulcinha do sorriso grande"!

E em termos emocionais… sentiu logo o impacto que a experiência teria em si ou essa mudança só se deu no regresso?

Eu sou uma mulher muito emotiva, muito sensível, sempre fui. Mas, sem dúvida, que após uma experiência destas não voltamos a mesma pessoa. Impossível voltar a mesma!!! O impacto é demasiado grande. Não vemos as coisas com os mesmos olhos.

Há algum momento particularmente marcante que possa partilhar connosco?

Ui!!! Tantos! Tantos! Há tantas histórias, tantas vidas em mim. Passei momentos indescritíveis, inesquecíveis. Ri muito, chorei muito, mas vivi cada momento com intensidade, alegria e amor. Sinto que cresci com cada segundo que ali vivi.

Foi precisamente no regresso que decidiu mudar de vida, abandonando uma longa carreira de professora. Porquê?

Eu não abandonei a minha carreira como professora. Simplesmente, quero ser professora num contexto mais humanitário, quero poder dar aulas em campos de refugiados, a refugiados, em cenários de guerra, de pobreza. É isso mesmo que eu quero. Eu sinto que o meu caminho é por aí.

Quais são os próximos passos?

Os próximos passos são terminar a minha pós graduação em Ação Humanitária, que estou a adorar, e começar a dar passos maiores no contexto humanitário. Tenho muitos projetos e sonhos para realizar.

No próximo ano, pretende candidatar-se às Nações Unidas. Pode concretizar esta intenção e o seu objectivo?

O grande objetivo é, sem dúvida, poder estar no terreno, onde sou precisa. Quero poder dedicar-me de corpo e alma, quero poder ver pessoalmente os maiores campos de refugiados de todo o mundo, quero poder estar num cenário de guerra. Quero trabalhar e ajudar todas estas pessoas. Quero trabalhar com variadas ONG'S. E, um dia, poder ter a minha própria ONG. Há tanta coisa para ser feita!

Por fim, esta exposição, Vidas Esquecidas, que marca o início de uma nova fase da sua vida. Como é que ela foi ganhando forma?

Uma das minhas grandes paixões é a fotografia. Sempre foi. E, quando saí da Grécia senti que a minha missão não tinha terminado ali. Que mesmo longe, posso continuar a lutar por todos eles. Esta exposição é muito importante e especial para mim. É uma nova fase da minha vida e é um grito de ajuda, um grito de alerta. Cada fotografia tem uma história, tem vidas, tem emoções.

Todos nós temos, de forma mais ou menos clara e detalhada, noção do drama que assolou a vida destas pessoas. De que forma podemos nós, cidadãos anónimos, fazer a diferença?

Podemos, sempre, fazer a diferença. Com um sorriso, com um abraço, com uma palavra já estamos a ajudar alguém, já podemos estar a transformar uma vida. É tão fácil. Basta sermos mais generosos, mais solidários, mais compreensivos. Pararmos de olhar só para o nosso umbigo. Deixar de vivermos numa sociedade menos competitiva, menos ambiciosa, menos cruel. É preciso deixar de olhar para um refugiado como um terrorista ou alguém que nos tira o trabalho. Há que olhar para um refugiado como ser humano que ele é. Há que ter políticas mais inclusivas, mais humanas. Há que haver integração, menos burocracia. Há que deixar de ter e de haver preconceitos. São pessoas como nós, como eu. Pessoas com coração, com alma. Nunca esquecer que qualquer um de nós não está livre de, um dia, poder ser um refugiado.

Vidas Esquecidas, uma exposição de fotografia que retrata a experiência de Dulce Machado Moria em Lesbos.
Foto: Dulce Machado
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