As mulheres que estão a fazer história nos Jogos Olímpicos de Inverno
Entre gelo, neve e pressão máxima, são elas que estão a definir estes Jogos com momentos que já pertencem ao legado olímpico.
A mensagem começou a circular como um alarme. “Já viste que a Britney foi presa?” Não, não tinha visto. Mas bastou escrever o nome de Britney Spears no Google para perceber o que tinha acontecido: detida na Califórnia por conduzir sob o efeito de álcool.
Em segundos, ativou-se um reflexo quase automático. Primeiro a surpresa. Depois a preocupação. E, inevitavelmente, a curiosidade. A mesma curiosidade coletiva que transforma qualquer deslize de uma celebridade num espetáculo público. Ao mesmo tempo que torcemos por ela - por tudo o que representa - existe também um impulso estranho quase mórbido de assistir à queda de um ícone. Talvez porque, quando alguém aparentemente perfeito falha, isso devolve-nos algo reconfortante: a ideia de que todos somos humanos.
Não me interpretem mal. Se tiver de fazer uma lista de divas da pop (e eu a-do-ro pop), Britney Spears ocupará algum dos três primeiros lugares. Como qualquer menina que cresceu nos anos 90 e 2000, dancei todas as suas músicas em frente ao espelho (e, vá, pode ainda acontecer). Enrolava a t-shirt para fingir um crop top - sim, Gen Z, não havia Bershka -, copiava coreografias e via os videoclipes como se fossem eventos culturais. Hoje, Toxic é presença inevitável em qualquer festa queer. Em qualquer festa. Está bem, também em muitas viagens casa-trabalho. Britney é celebrada, citada, remixada, eternizada - uma referência que atravessa gerações. Talvez por isso seja sempre tão estranho assistir a cada nova notícia sobre ela.
A história, em muitos aspetos, já a sabemos de cor. Em 2008, depois de uma série de episódios caóticos amplificados pelos tabloides, foi internada numa instituição psiquiátrica. O pai conseguiu então uma "conservatorship", um mecanismo legal que a declarava incapaz de tomar decisões pessoais e financeiras. Durante anos, perdeu o controlo sobre a própria vida, mas talvez o mais perturbador é que Britney nunca desapareceu da esfera pública. Continuou a lançar álbuns, a aparecer na televisão, a fazer capas de revista e a subir ao palco, incluindo uma residência de quatro anos em Las Vegas. Trabalhava sem parar - mas sem autonomia.
Enquanto isso, os fãs começaram a suspeitar que algo estava profundamente errado. Nasceu um movimento: Free Britney. Durante anos, pessoas analisaram vídeos de dança no Instagram e legendas cheias de emojis como se fossem mensagens codificadas. No seu livro de memórias, The Woman in Me, Spears escreve: "A minha voz estava em todo o lado - na rádio, na televisão, na internet - mas tantas partes de mim foram silenciadas".
Quando o primeiro single, …Baby One More Time, saiu em 1998, o crítico cultural Wesley Morris descreveu o seu fascínio de forma simples: o que parecia “cool” em Britney era o controlo que demonstrava sobre si própria e sobre o espaço à sua volta. Acho que é precisamente isso que torna a sua história tão reveladora. Quando uma mulher parece ter poder, isso ainda é visto como algo raro. Quase excepcional. E quando esse poder vacila, a reação social é muitas vezes brutal.
A Britney confiante que vimos no início da carreira rapidamente foi substituída por outra narrativa: a da mulher “louca”. A partir desse momento, a sua credibilidade desapareceu. A sociedade, a família e até o sistema judicial sentiram-se autorizados a retirar-lhe autonomia. Como acontece tantas vezes com mulheres que desafiam expectativas públicas (e homens poderosos), a complexidade humana desaparece. Ficamos apenas com categorias simples: estável ou instável, adorável ou problemática, no controlo ou completamente fora dele. Mas ninguém vive assim. Ninguém cabe nesses extremos. Ainda assim, de tanto os ouvirmos, passamos grande parte da vida a tentar corresponder-lhes.
Talvez seja isso que me perturba tanto sempre que surge mais uma notícia sobre Britney. Crescemos com a fantasia de que ela tinha tudo: beleza, sucesso, dinheiro, liberdade. She's so lucky, she's a star. Se alguém assim pode perder o controlo da própria narrativa - ou tê-la retirada - então talvez ninguém esteja verdadeiramente protegido. E talvez seja por isso que reagimos sempre da mesma forma. Primeiro torcemos por ela. Depois observamos à distância. E só muito mais tarde nos perguntamos qual foi, afinal, o nosso papel nessa história.