Caso Epstein. Como o poder protegeu um predador em detrimento das mulheres
Um resumo aprofundado sobre um dos casos mais notórios do momento.
A divulgação dos chamados Epstein Files voltou a expor um dos casos mais perturbadores da história recente. Não apenas pela natureza dos crimes cometidos por Jeffrey Epstein, mas pelo retrato mais amplo que emerge: um sistema social e institucional que, durante décadas, permitiu que um predador condenado continuasse a circular livremente entre as elites globais.
Os ficheiros agora conhecidos fornecem uma visão extensa, mas profundamente fragmentada, da vida, dos contactos e das estratégias de Epstein. Não trazem uma revelação única e definitiva. Trazem, sim, algo talvez ainda mais incómodo: um conjunto de indícios que, juntos, mostram como o poder, o dinheiro e o prestígio criam zonas de silêncio onde a responsabilidade se dissolve.
O que são, afinal, os Epstein Files
Os Epstein Files correspondem a milhões de páginas de documentos recolhidos ao longo de vários anos por autoridades judiciais e policiais dos Estados Unidos. Incluem e-mails, memorandos internos, agendas, registos financeiros, listas de contactos, depoimentos, fotografias e vídeos associados a investigações criminais e processos civis ligados a Epstein e ao seu círculo.
Grande parte deste material esteve sob segredo de justiça durante anos. A divulgação foi gradual, forçada por decisões judiciais, pressão de jornalistas, organizações de defesa das vítimas e, em alguns casos, por legislação específica. Importa sublinhar: a divulgação não é total. Muitos documentos permanecem selados por conterem material sensível, nomeadamente abuso sexual explícito, dados pessoais das vítimas ou informação protegida por acordos legais.
O que chegou ao espaço público é, portanto, um arquivo incompleto.
Um volume gigantesco, mas de valor desigual
A dimensão do arquivo impressiona, mas quantidade não é sinónimo de clareza. Muitos documentos são administrativos, redundantes ou meramente contextuais. Outros incluem denúncias anónimas, rumores ou alegações não verificadas, recolhidas por investigadores como pistas, não como conclusões.
Este ponto é absolutamente central: a simples menção de um nome nos ficheiros não constitui prova de envolvimento em crimes. Documentos de investigação contêm frequentemente material que é analisado e descartado. Transformar qualquer referência numa acusação é um erro grave - jurídico e ético. Ainda assim, a repetição de certos nomes e padrões levanta questões legítimas. Não sobre culpa automática, mas sobre proximidade, normalização e tolerância social.
A estratégia de Epstein: acesso, prestígio e normalização
Os ficheiros confirmam algo que já era intuído: Epstein construiu, de forma deliberada, uma vasta rede de contactos de alto nível. Esta estratégia manteve-se mesmo depois da sua condenação em 2008 por crimes sexuais envolvendo menores - um facto que, por si só, revela falhas profundas no sistema judicial e social.
A condenação de 2008 não surgiu de um episódio isolado. Resultou de uma investigação conduzida pela polícia de Palm Beach, na Florida, após múltiplas denúncias de raparigas menores de idade, cujos relatos apontavam para um padrão consistente de abuso sexual. Apesar de a investigação inicial reunir elementos que poderiam ter sustentado acusações federais graves, o caso acabou por ser resolvido através de um acordo judicial altamente controverso, que evitou um julgamento público e reduziu drasticamente as consequências penais para Epstein.
Epstein declarou-se culpado, mas beneficiou de um acordo extremamente favorável: foi condenado a 18 meses, dos quais cumpriu cerca de 13, não numa prisão convencional, mas num regime de “work release”. Isto significava que passava até 12 horas por dia fora da cadeia, seis dias por semana, alegadamente para trabalhar. Na prática, deslocava-se ao seu escritório privado, recebia visitas, mantinha negócios e continuava a gerir a sua vida social quase sem restrições.
Este detalhe é absolutamente central para compreender o resto da história. Epstein não foi afastado da sociedade, não perdeu o estatuto nem foi verdadeiramente isolado. Pelo contrário: saiu desse período com a mensagem implícita de que era intocável. A condenação, em vez de o marginalizar, acabou por funcionar quase como um “incidente ultrapassado”, algo que muitos no seu círculo aceitaram ou escolheram ignorar.
É precisamente depois de 2008 que os ficheiros mostram algo perturbador: Epstein intensifica os esforços para se rodear de figuras de topo. Continua a enviar e-mails, a marcar jantares, a financiar projetos científicos, a frequentar eventos exclusivos. A estratégia é clara: quanto mais alto o nível dos contactos, menor a probabilidade de escrutínio sério. O prestígio alheio funcionava como um escudo.
Quando, anos mais tarde, Epstein volta a ser detido, já em 2019, dessa vez em Nova Iorque, não teve qualquer regime especial. Ficou preso numa prisão federal e aguardou julgamento por tráfico sexual de menores - processo que nunca chegou a acontecer devido à sua morte. Mas o essencial estava feito: durante mais de uma década após a condenação de 2008, o sistema permitiu-lhe continuar a operar em plena luz do dia.
Os nomes que surgem
No final de 2025 e início de 2026, o governo dos Estados Unidos conclui a divulgação de um vasto conjunto de registos ao abrigo da Lei de Transparência dos Arquivos Epstein, aprovada pelo Congresso e promulgada pelo Presidente. A 30 de janeiro de 2026, o Departamento de Justiça tornou públicos cerca de 3,5 milhões de páginas de documentos, 180 mil imagens e aproximadamente 2000 vídeos, correspondendo, segundo as autoridades, ao material relevante ainda por divulgar.
A abertura destes ficheiros não mobilizou apenas jornalistas, advogados ou responsáveis políticos. Uma parte significativa do arquivo ficou acessível e o público em geral teve acesso, levando investigadores independentes, académicos e cidadãos comuns a analisarem diretamente os documentos. Este escrutínio alargado revelou uma quantidade considerável de informação sobre a rede social e institucional de Epstein, incluindo contactos com figuras públicas e membros das elites política, económica, científica e cultural.
No caso de Bill Gates, os ficheiros revelam contactos e encontros enquadrados por projetos filantrópicos e iniciativas de financiamento. Epstein apresentava-se como facilitador de grandes doações e de acesso a redes financeiras — um papel que lhe conferia legitimidade social e lhe abria portas junto de figuras com enorme influência. Com o tempo, esta relação revelou-se uma falha reputacional profunda, algo que o próprio Gates reconheceu publicamente, afirmando que foi um erro ter mantido qualquer proximidade com Epstein após a sua condenação.
A mais recente divulgação de documentos reacendeu polémicas específicas, nomeadamente a circulação de alegações segundo as quais Gates teria escondido uma doença sexualmente transmissível da sua então esposa após alegados contactos com mulheres descritas em e-mails de Epstein como “russas”. Estas alegações surgem associadas a um e-mail de 2013 atribuído a Epstein, no qual o próprio insinuaria comportamentos comprometedores e sugeriria uma tentativa de administrar antibióticos de forma encoberta.
O gabinete de Gates reagiu de imediato, classificando essas afirmações como “absolutamente absurdas e completamente falsas”. Posteriormente, o próprio Gates quebrou o silêncio numa entrevista televisiva, negando categoricamente a veracidade das alegações e sugerindo que o e-mail em causa poderia enquadrar-se numa tentativa de difamação ou extorsão por parte de Epstein. Importa sublinhar que estas acusações não foram corroboradas por qualquer prova independente e não deram origem a processos judiciais.
O nome de Stephen Hawking aparece nos documentos divulgados como parte de um processo civil antigo entre Virginia Giuffre e Ghislaine Maxwell, mas de uma forma que é importante interpretar com cuidado. Os ficheiros incluem um e-mail de 2015 enviado por Epstein a Maxwell no qual Epstein sugeria oferecer uma recompensa a quem pudesse ajudar a refutar alegações segundo as quais Hawking teria participado numa “orgia com menores de idade” nas Ilhas Virgens. Essa referência surge num contexto de tentativa de Epstein e Maxwell de desacreditar Giuffre e enfraquecer as acusações feitas contra eles - não como uma acusação formal nem como uma afirmação suportada por provas nos próprios documentos.
É crucial sublinhar que Hawking nunca foi acusado oficialmente de qualquer crime sexual relacionado com Epstein, e os documentos públicos não apresentam qualquer evidência de participação dele em atividades ilegais. A menção do seu nome neste contexto aparece apenas como parte de uma narrativa interna de Epstein, que tentava estrategicamente desviar a atenção e usar nomes de elevada reputação para tentar enfraquecer a credibilidade de Giuffre. Hawking, que morreu em 2018, visitou a ilha privada de Epstein em 2006, mas essa visita ocorreu no contexto de uma conferência científica financiada por Epstein, e não há indicação nos ficheiros de que tenha havido ali qualquer comportamento criminoso por parte do físico.
No caso de Elon Musk, os Epstein Files revelam uma ligação mais concreta do que simples rumores, mas que continua a situar-se no plano do contacto social documentado, não do envolvimento criminal. Os documentos tornados públicos incluem trocas de e-mails entre Musk e Jeffrey Epstein, sobretudo entre 2012 e 2013, nas quais são discutidas de forma relativamente informal possíveis visitas à ilha privada de Epstein, logística de deslocações e encontros sociais, incluindo referências a datas, festas e até à utilização de helicópteros. Estes e-mails mostram que Epstein tinha acesso direto a Musk e que tentou, de forma persistente, transformar esse contacto em encontros presenciais. No entanto, os próprios documentos não confirmam que essas visitas tenham efetivamente ocorrido. Musk afirmou publicamente que recusou convites e negou qualquer envolvimento em atividades ilegais, descrevendo Epstein de forma negativa após a sua exposição pública. Assim, o que os ficheiros acrescentam é sobretudo a evidência de uma tentativa de aproximação insistente e de uma comunicação direta, reveladora do alcance social de Epstein, mas não constituem prova de participação de Musk nos crimes cometidos, nem surgem associados a acusações judiciais ou testemunhos de vítimas.
Ghislaine Maxwell e a alegada ligação a Israel
Ghislaine Maxwell foi a colaboradora mais próxima e duradoura de Jeffrey Epstein, desempenhando um papel central no funcionamento quotidiano da sua rede. Socialite britânica radicada nos Estados Unidos, Maxwell atuava como intermediária, gestora social e figura de confiança, sendo responsável, como ficou provado em tribunal, pelo recrutamento e pela normalização do abuso de raparigas menores de idade. Ao contrário de Epstein, que operava muitas vezes à distância, Maxwell era presença constante nas residências, viagens e encontros, funcionando como a ponte entre o predador e o mundo exterior respeitável. Em 2021, foi condenada por tráfico sexual de menores e conspiração, tornando-se a única pessoa do círculo de Epstein a ser responsabilizada criminalmente.
A sua biografia está profundamente ligada à do pai, Robert Maxwell, um poderoso e controverso magnata dos media britânico que morreu em 1991 em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas. Robert Maxwell foi, ao longo da vida, associado por diversos jornalistas e biógrafos a alegadas ligações aos serviços secretos israelitas, nomeadamente ao Mossad - alegações que surgem reiteradamente em investigações históricas, mas que nunca foram formalmente confirmadas em tribunal. Esta herança pesa sobre a leitura contemporânea do caso Epstein. E.mails revelados nos Epstein Files mostram Epstein a referir-se ao passado da família Maxwell e à sua capacidade de operar em zonas cinzentas de poder, alimentandas teorias segundo as quais Ghislaine teria crescido num ambiente no qual a influência, informação sensível e relações com serviços de inteligência eram normalizadas. Importa, contudo, ser rigoroso: não existe prova documental conclusiva de que Ghislaine Maxwell ou Epstein tenham agido como agentes do Mossad.
Esta hipótese não surge do nada, nem apenas de especulação recente: ela constrói-se ao longo de anos a partir de uma combinação de relações pessoais, padrões de comportamento invulgares e referências indirectas que ganharam novo fôlego com a divulgação dos Epstein Files.
O ponto de partida mais frequentemente citado é a proximidade de Jeffrey Epstein a figuras políticas israelitas de topo, em particular Ehud Barak, ex-primeiro-ministro e ex-ministro da Defesa de Israel, que manteve contactos regulares com Epstein durante vários anos, incluindo visitas a propriedades suas após a primeira condenação de 2008. Embora Barak tenha negado qualquer envolvimento em atividades ilegais e afirmado que a relação era estritamente profissional ou social, a frequência e a continuidade desses contactos alimentaram suspeitas sobre a natureza real dessas relações.
Os Epstein Files não apresentam provas diretas de que Epstein tenha atuado como agente do Mossad ou de qualquer outro serviço de inteligência. No entanto, alguns e-mails e referências revelam uma constante evocação dessa aura de poder invisível - seja através de alusões ao passado da família Maxwell, seja através da forma como Epstein parecia confortável em sugerir que possuía informação comprometedora sobre figuras influentes. É precisamente aqui que surge a hipótese do uso sistemático de chantagem: a ideia de que Epstein poderia recolher material sensível para fins de controlo, influência ou proteção pessoal, uma prática historicamente associada, em diferentes contextos e países, a operações de inteligência.
Importa, contudo, ser rigorosa: não existe, até à data, qualquer prova documental pública que confirme que Epstein trabalhou para o Mossad, foi recrutado por serviços israelitas ou atuou sob ordens de um Estado estrangeiro. As autoridades israelitas negaram categoricamente essa ligação, e nenhum tribunal, investigação oficial ou documento governamental divulgado sustenta essa conclusão. O que existe é um conjunto de indícios circunstanciais, padrões anómalos e relações politicamente sensíveis que, somados, criam um campo fértil para especulação, mas não uma conclusão jurídica.
Menções a Portugal nos documento
Os Epstein Files incluem algumas referências a Portugal, mas de forma limitada e indireta, sem qualquer prova de envolvimento criminal no país. Os documentos divulgados mencionam sobretudo escalas do avião privado de Jeffrey Epstein nos Açores, no início dos anos 2000, registadas em manifestos de voo usados em viagens transatlânticas. Estas paragens, por si só, não indicam atividade ilegal em território português.
Surgem também nomes portugueses em listas de contactos e propostas de encontros, referências que os próprios visados negaram e que não são acompanhadas por provas de reuniões, colaboração ou participação em crimes. Estas menções refletem sobretudo a dimensão da rede social de Epstein, não a concretização dessas relações.
Por fim, os ficheiros incluem uma denúncia não verificada que menciona Portugal no contexto do caso Casa Pia. Trata-se de um e-mail arquivado pelas autoridades norte-americanas, sem confirmação por investigações judiciais e sem qualquer ligação factual comprovada entre Epstein e esse processo.
E as vítimas?
Num momento em que os ficheiros voltam a alimentar a curiosidade pública, importa sublinhar que o verdadeiro centro desta história nunca foram os títulos, mas sim as mulheres cujas vozes ficaram suspensas no tempo. Como refletiu ainda em novembro para a Elle britânica, Emily Maitlis - a jornalista responsável pela grande entrevista ao príncipe Andrew - o debate continua muitas vezes preso às figuras poderosas, quando, na verdade, o mais importante é aquilo que nunca chegou a ter um desfecho real para as vítimas. "O que está a acontecer agora é maior do que um homem, é maior do que uma vítima", frisou. "As vozes das sobreviventes estão a mudar o mundo neste momento."
A ausência de justiça plena - e de um verdadeiro momento de responsabilização - deixa uma sensação persistente de vazio. Um vazio que não é exclusivo deste caso. É um sentimento partilhado por muitas vítimas de abuso que assistem ao tempo passar, aos processos a arrastarem-se e à atenção pública a dissipar-se antes de qualquer verdadeira punição. Em contextos marcados por poder, influência e reputação, a justiça torna-se muitas vezes parcial, tardia ou inacessível.
E mais do que um escândalo isolado, estes momentos expõem um padrão. Citando Maitlis, "os acontecimentos que estamos a ver desenrolar-se agora nos Estados Unidos são um microcosmo de tudo o que ainda está errado no que diz respeito aos direitos das mulheres”.
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