Eu vejo as notícias, leio o que vão escrevendo sobre a Victoria Beckham e sinto que nem tudo está a ser dito. As pessoas tomam partido sobre assuntos que claramente não dominam. E as sogras são sempre as más da fita. Pois eu, sogra de duas, não posso ficar calada, sinto-me na obrigação de contar a minha história e pôr-me do lado da Victoria, uma figura feminina que, aliás, muito admiro já desde os tempos das saudosas Spice Girls, quando ainda era a Posh Spice, ainda antes de ter sido reduzida ao apelido do marido.
Antes de continuar, gostava de deixar claro que sei muito bem que as noras não são todas iguais. Tenho duas e sei bem que pessoas em circunstâncias semelhantes podem apresentar perfis e comportamentos completamente distintos. A Graça, esposa do meu Júlio, é uma boa moça. É uma joia, a minha Gracinha, e trato-a praticamente como se fosse filha. Sabe estar, é educada, é respeitadora. Sabe o seu lugar. E principalmente sabe cuidar do marido, que é meu filho, e quem meu filho beija, minha boca adoça, como diz o povo. Mostra-se carinhosa e atenciosa. Só lhe falta dar-me um neto.
Já a outra é um verdadeiro pesadelo. Entrou pela vida da minha família como uma tempestade tropical - e até o nome podia ser desses que agora dão ao mau tempo de cada vez que chove muito e levanta vento: Rute. É um nome que detesto desde os meus tempos de liceu, Rute, que era uma colega minha muito deslavada, muito sem jeito, que andava sempre sozinha e que, dizem, fazia rituais satânicos em casa. Tinha uma família disfuncional, parece. Não sei como é que me fui lembrar disto agora, mas pronto, fica explicada a minha aversão ao nome Rute.
A Rute é mais velha que o meu filho João uns bons seis anos. Ou seja, e traduzindo, quando se conheceram já ela tinha muita experiência de vida. Muito mais do que ele, certamente, uma vez que o João é um menino pacato, sempre foi, sossegado, nunca deu problemas nem nunca foi de saídas e maluqueiras de juventude. Só depois de conhecer a Rute é que mudou e não foi para melhor.
Ele tinha acabado de sair da faculdade quando começaram a namorar. Um dia, apareceu-nos em casa com aquela mulher de cabelos encaracolados e compridos, mais parecia uma leoa com a sua juba selvagem. Ela de calças e blusão de ganga e um top bastante decotado, vários brincos em cada orelha, uma tatuagem em cada pulso e mais outra no polegar direito. Sinais de que aí vinham sarilhos não faltavam. Estendi-lhe a mão para a cumprimentar e ela, sem maneiras, disse logo “um passou bem?” e riu-se, abraçou-me e deu-me dois beijos, um em cada face, como se nos conhecêssemos há muito. “Agora, vamos ser família”, disse-me, toda sorridente - e, tenho de admitir, mostrou um sorriso branco e dentes direitinhos como eu raramente vi. Lá bonita, ela é, isso não há como negar. Mas é uma selvagem! E eu disse-lhe “pois, menina, mas nesta família não damos dois beijinhos”. Se quer fazer parte, era bom que se fosse habituando. Porém, nunca se habituou. Ainda hoje me dá dois beijos, mesmo contra a minha vontade.
Isto foi só o começo, e eu até comentei com o meu marido, “esta rapariga parece meio amalucada, vai trazer-nos problemas”, só que o Jacinto desvaloriza sempre estas coisas, parece que não entende os sinais, por mais evidentes que eles sejam. Perguntei-lhe se não tinha reparado, pelo menos, no decote exagerado. Encolheu os ombros, “o que é que isso tem?”, e continuou a ver televisão.
Não consigo indicar uma ação, um gesto, uma situação concreta em que eu diga assim “ela fez mal por isto e por aquilo”, mas há coisas que uma mãe sente. E eu, desde o primeiro momento, senti que ela não era boa para o meu filho. Não era e, sete anos depois, continuo a acreditar que ainda não é. Nem vai ser. Eu não sou particularmente conservadora, mas também não aprecio muitas das modernices que hoje em dia estão na moda. No caso da Rute, andava sempre com aquela postura altiva, dizia e diz que é emancipada, que não precisa que tomem conta dela. Até podia pensá-lo, mas era mesmo preciso dizê-lo?
No início da relação com o João, pedi ao meu filho Júlio que falasse com o irmão. Para lhe dizer que escolhesse melhor, que tivesse tino e atenção, que procurasse alguém, sei lá, alguém mais discreto. Uma mulher que dá muito nas vistas normalmente também dá problemas. Até pode ser muito bonita, sim senhor, concedo que seja, mas é preciso andar sempre com aquelas roupas reveladoras, por exemplo? Ou cheia de pulseiras? Parece que gosta de ostentar sinais que indiquem a toda a gente que está ali. Faz questão de ser vista. Não estou a pedir nenhuma freira, mas podia ser mais modesta, enquanto mulher.
O meu filho Júlio disse que não se ia meter e que o irmão é que sabia da vida dele. A minha vida é isto, lidar com uma família com quem não posso contar. Fui eu mesma falar com o João. Disse-lhe, muito calmamente e sem querer melindrar, que achava que ele devia escolher melhor, que há mulheres no mundo que são mais adequadas e outras que são menos. Disse-lhe que a dele era menos, que somos uma família de respeito. A resposta dele foi “desculpe, mãe, mas agora não dá, estou com pressa, vou ter com a Rute”. A Rute, sem surpresa, vivia em Odivelas, na altura.
Não tinham passado seis meses de começarem “a andar”, como eles diziam, a Rute engravidou. Não eram casados, nada. Fui falar com ela, perguntei-lhe se tinha feito de propósito. Tenho a certeza de que fez. Eu conheço bem a pinta desta gente e a maneira como pensam e funcionam. Apanhou um rapazinho de boas famílias, com um apelido antigo e bonito, e quis fazer dele o seu bilhete para fora de uma vida no subúrbio. Não era a primeira nem será a última. Não ficou sequer ofendida. Pelo contrário, riu-se na minha cara e disse “Natália, tenha calma consigo, relaxe”. E depois ainda acrescentou, “parabéns! Vai ser avó. Já viu, não é maravilhoso?” Aquela mulher parece que passa a vida a gozar comigo.
Nessa altura, fiquei num dilema. Por um lado, seria inadmissível que a criança nascesse fora do casamento. Não queria ser avó de um bastardito. Mas, por outro, não me agradava ter o meu filho casado com uma suburbana de classe baixa, à procura de dar o golpe do baú. Perguntei ao João se queria mesmo ser pai, se tinha a certeza de que queria avançar com aquilo. “Aquilo.” Hoje não me orgulho de ter posto assim as coisas, e até me arrependo. Logo eu, que sou pró-vida e contra o aborto. Mas, na altura, uma pessoa em desespero é capaz de pensar nessas coisas. É capaz de tudo. Eu andava muito desgostosa.
Claro: a Rute, como boa nora malvada que se preze, fez tudo o que foi possível para me contrariar. Primeiro, não queria casar. O bebé nasceu, o meu Diogo - um bebé lindo, apesar de tudo -, ainda eles não tinham casa. Veio ela viver para a nossa moradia, como é evidente, e fui obrigada a conviver com ela durante meses que mais me pareceram séculos. Eventualmente, lá arranjaram um apartamento, mas fora da cidade, na Margem Sul, no Seixal ou lá o que é aquilo.
Quando o Dioguinho já tinha três anos, o que é que ela decidiu? Casar. De repente, deu-lhe a pressa de casar. Agora, quando já a criança era crescida. “Até tinha graça ser o menino a levar as alianças”, sugeriu, com desplante e rindo-se. Perguntei-lhe por que me afrontava daquela maneira; respondeu-me que só levava a vida como gostava, que não andava aqui para afrontar quem quer que fosse. “Além disso, nunca se sabe se não queremos ter mais um filhote, Natália.” Fiquei apavorada. Afinal, já estava grávida de novo, agora da Carolina. Só que eu não sabia.
O casamento foi pavoroso. Ela, vestida de azul marinho, sem véu nem cauda. Ele de camisa, mas sem laço nem gravata. Casamento estritamente civil, claro, porque a menina não é religiosa. Diz que foi batizada na Igreja Católica, mas que era demasiado pequena para se lembrar e que, como não teve voto na matéria, isso não contava para nada. A minha vida é desgosto atrás de desgosto. E foi mesmo o Dioguinho quem levou as alianças.
À hora da boda, fui-me embora. Não conseguia ficar e fazer parte daquele circo, compactuar com tanta coisa errada. Eu sou uma mulher de respeito. Prezo muito as tradições e os preceitos. O meu marido foi deixar-me a casa e a seguir voltou para a festa. Aparentemente, todos à minha volta convivem bem com esta maneira de estar exagerada e sem regras. Pois eu não. Gosto muito que a vida siga o seu curso adequado. Não aprecio exageros nem descontrolos. Muito menos os de uma nora sem maneiras. A vida de uma sogra não é fácil, e muitas vezes não nos dão o devido valor.