Todos morremos com segredos. Estou apenas a supor. Imagino que ninguém parta deste mundo completamente confessado, aliviado do fardo do que só cada um sabe e mais ninguém pode saber. Esta é uma ideia ambivalente, que me inquieta, mas que também me descansa. Sabe Deus que nunca na vida quereria que mais alguém soubesse de coisas que só eu sei. A parte em que me inquieta é aquela em que vou concentrar-me. Porque abre a possibilidade de as outras pessoas me deixarem sozinha na vida sem me terem revelado tudo. Pior: de morrerem levando consigo informação tão importante que pode alterar por completo toda a minha vida.
O Lucas ficou doente há quatro anos. Talvez já estivesse doente antes disso, mas foi só há quatro anos que detetámos a doença. Essa deteção consistiu num calvário que me recuso a descrever com detalhe, mas que, para que possamos conceber largamente o que ele passou - o que nós passámos -, obrigou a diversas biópsias, TACs, ecografias (para cima de duas dezenas), todo o tipo de exames que envolvam máquinas, elétrodos, extração de secreções e de sangue. Uma infinidade de testes que fizeram do Lucas um ratinho de laboratório, cobaia, animal de ensaios. Vê-lo ser transformado nisso e a encarar a situação com a expressão resignada de quem, em desespero, está disposto a tudo, ainda hoje me revolve as entranhas. Levaram-lhe o sangue, a medula e a dignidade.
O Lucas morreu novo. Não era um jovem. Diz-se que “morreu novo” de alguém que morre antes de ser descaradamente velho. O Lucas não era velho, tinha 52 anos quando a doença levou a melhor sobre ele. Maldita. Eu sou 14 anos mais nova do que o Lucas, estávamos juntos há mais de uma década. Nunca tivemos filhos, mas construímos uma vida, quase de raiz, depois de quebrarmos com laços e amarras que nos prendiam às respectivas vidas anteriores. Não foi fácil, não foi pacífico. Mas acreditávamos ambos no que sentíamos e no que queríamos. Não me arrependo nem por um segundo de tudo o que fizemos. E muito menos me arrependo de ter feito de um homem 14 anos mais velho do que eu o amor da minha vida.
Não é uma ideia que assome à cabeça amiúde, mas pontualmente, quando me punha a pensar na vida, no futuro, no que seria de nós na velhice, imaginava que, pela lógica da vida, pela ordem natural das coisas, o Lucas partisse mais cedo do que eu. Seria o normal, o natural. Não iríamos, certamente, como nas histórias mais idílicas e fabulosas, ficar velhinhos em conjunto e ao mesmo tempo. Sabíamos perfeitamente que não seria assim. Tínhamos noção de que ele se tornaria velho mais cedo do que eu ficaria “declaradamente velha”. (O Lucas apreciava muito a expressão “declaradamente velho”, pois, segundo defendia, a velhice era uma declaração pública, ou seja, uma espécie de aclamação: quando aos olhos dos outros - de todos os outros - somos velhos, então somos de facto velhos; ao contrário do que se pensa, na perspetiva do Lucas, a velhice não vinha com a idade, mas antes resultava de uma expressão comum exterior a nós mesmos, resultando daí a magnífica expressão “declaradamente velho”).
Não obstante essa consciência de que chegaríamos à velhice com alturas diferentes, e ainda a de que, muito provavelmente, chegaria o momento em que eu ficava sozinha no mundo enquanto o Lucas descansaria em paz, nada nos preparou para este final anunciado e tão abrupto. Aos 52 anos, com a vontade e o gozo de viver e a energia que o Lucas tinha, posso dizer sem hesitações que deixou a vida a meio. Ou menos do que isso. Com aquela sua garra e a sua imensa capacidade para se reinventar, para acrescentar dimensões ao mundo - ao seu e ao dos outros -, para criar, seriam precisos mais de 100 anos de vida para cumprir tudo aquilo que desejava e que imaginava. Uma vida se calhar não era suficiente para ele, quanto mais meia.
Recebida a sentença médica - “aproveite bem o tempo; procurem passar tempo juntos; viajem, desfrutem; temo que não lhe reste mais do que alguns meses de vida” -, aconteceram muitas coisas ao mesmo tempo. O choque, o desespero, a confusão, o caos, o turbilhão de emoções e decisões, a sensação de nos faltar o tempo, de querer correr para fazer tudo e não saber por onde começar, a necessidade urgente de o abraçar a cada segundo, porque podia ser o último que passávamos juntos.
O pior da morte anunciada é que ela é feita de muitas mortes, desde a antecipação até ao luto, percorrendo um caminho que inexoravelmente nos leva até à perda definitiva. Mas é um caminho que deve ser feito com o delicado equilíbrio de quem sabe sofrer, porque a outra pessoa, que também sofre para dentro, tem de parecer viva e imortal, porque de outra maneira estaremos a enterrá-la já, e enterrá-la já é ainda mais precoce do que a morte anunciada, que é prematura, e é injusta, e é inaceitável. Então, passamos a viver como ursos equilibristas, sobre uma bola de raiva e angústia, de rancor de fúria calada, com lágrimas nos olhos e um sorriso triste nos lábios que constantemente pronunciam “amo-te amo-te amo-te”, como se fosse preciso dizê-lo milhões de vezes para ficar claro e nunca deixar dúvidas e ser a última memória daquele moribundo.
Eu e o Lucas nunca casámos. Como também não tivemos filhos, o nosso vínculo, aos olhos do mundo burocrático e oficial, era meramente circunstancial: vivíamos em união de facto, partilhávamos teto e mesa e cama, e assim éramos descritos, não necessariamente enquanto casal, mas como colegas de casa que partilham contas. Da mesma forma que ninguém quer saber de sentimentos na declaração de IRS, também ninguém pergunta se se amavam quando chega a hora de tratar das heranças. Como o Lucas tem sobrinhos, para salvaguardar o meu lugar de herdeira quando chegasse a hora mais triste, ele decidiu fazer um testamento. Perguntou-me se eu queria casar, assinávamos a comunhão de bens, “sei lá, o que for preciso”, disse ele. Recusei.
Teria dito que sim em qualquer outra circunstância, teria aceitado sem pestanejar caso ele me tivesse pedido em casamento em qualquer outro momento. Mas naquele, naquela situação, não podia fazê-lo. “Sabes que te amo muito, meu amor, mas não quero casar contigo por uma questão material.” Disse-me que, então, usaria o instrumento legal para garantir a minha herança. Faria um testamento. Nunca li o testamento do Lucas, e também não lhe fiz perguntas sobre o documento. Disse-me apenas que, quando ele morresse, eu só teria de ir à terceira gaveta da secretária dele. Aí encontraria as instruções para aceder ao testamento. Não tinha de me preocupar com mais nada.
O Lucas não era rico quando o conheci, tal como eu não o era, e da mesma maneira que nunca fomos ao longo da vida que construímos juntos. No entanto, tinha alguns bens herdados, propriedades de algum valor, como vim a descobrir com o tempo, além de dois apartamentos em Lisboa que comprara em boas oportunidades de negócio, com o dinheiro que foi ganhando com os seus trabalhos. Foi, sem grande método nem rotina, rentabilizando algumas dessas propriedades, da maneira mais simples: arrendava-as. O rendimento que daí resultava nunca entrou nas suas contas - ia diretamente para uma poupança dele, que era, na sua ideia, “para quando um dia fizesse falta”, ou para quando tivéssemos um plano claro do que fazer com ele.
Nunca soube o valor total acumulado, mas sempre tive impressão de se tratar de uma belíssima maquia, tal como nunca conheci as propriedades herdadas. Sabia que existiam, e isso era mais do que suficiente, claro. Tudo junto, esses seriam os bens que, em princípio, constariam do testamento.
Os últimos dois meses de vida do Lucas foram especialmente difíceis. Não apenas pela dimensão trágica de uma vida cujo tempo se esgota a uma velocidade tão vertiginosa que nunca sabemos se haverá amanhã, mas também pela carga de dor que esses últimos tempos comportaram. Dor física, dor psicológica, dor mental, dor existencial, dor de ser, dor de estar prestes a deixar de ser. O Lucas foi ficando cada vez mais irascível, cada dia mais impaciente, quase como se desejasse que tudo isto acabasse de uma vez por todas, em vez de se arrastar num impasse indeciso e desumano.
Essa impaciência demonstrava-se muitas vezes sob a forma de ira, sendo que é muito difícil a um homem profundamente debilitado manifestar plenamente a sua ira de uma forma física. Qualquer esforço lhe provocava dificuldades respiratórias, quebras musculares, às vezes náuseas e vómitos. No limite, colapsava em desmaios que o derrubavam, deitando-o ao chão, inanimado. Essa incapacidade de se expressar de uma forma física tornou-o ainda mais amargo do que ficara quando tomou consciência de que a doença o levaria deste mundo muito em breve.
Num dos episódios mais violentos e intensos desses últimos dias, o Lucas, que tinha muita dificuldade em mastigar e deglutir, sentia-se de tal forma frustrado que começou a descarregar em mim. Insultou-me, insinuou coisas terríveis, acusou-me de nunca ter sido apaixonada por ele, de se ter aproveitado da posição social dele para fazer novos conhecimentos, até de estar à espera que ele morresse para ficar com tudo o que possuía. Cada palavra me doía mais do que a anterior, mas relevei. Sabia perfeitamente que não era o verdadeiro Lucas a falar. “Deito fogo a tudo. A tudo! Entendes? Se for preciso, pego fogo até a mim.” Foi assim que terminou a conversa, porque não aguentei mais e me desfiz num pranto. Senti-me miserável, sozinha e frágil.
Quando o Lucas morreu, e seguindo as indicações do próprio, fui à terceira gaveta da secretária. Lá estava um envelope contendo as instruções para aceder ao testamento. Devia dirigir-me à agência bancária xis, requisitar a chave de acesso ao cofre y, apresentar a minha certidão de óbito e uma declaração que se encontrava anexada à carta com as instruções - devidamente autenticada, a declaração dirigia-se especificamente ao gerente do balcão do banco, tratando-o de forma cordial, mas familiar, “Caro fulano, honrando a nossa amizade, peço-te um último desejo”, por aí fora.
Fulano de tal foi, ele próprio, comigo até à sala dos cofres, retirou da estante aquele que eu requisitara. Abriu-o diante de mim e afastou-se. “É tudo para si”, disse. Lá dentro, uma caixa - uma caixa de sapatos, mas de tamanho pequeno, talvez de criança. Peguei na caixa e levei-a comigo. Tive receio de a abrir ali. Contava encontrar um envelope selado, não uma caixa. Despedi-me do gestor do balcão com um cumprimento gentil, mas frio.
Chegada a casa, pousei tudo e instalei-me confortavelmente antes de abrir a caixa, que estava atada com um laço, como se fosse um presente. Por qualquer razão, sentia que algo não estava bem. Inspirei e abri a caixa. Lá dentro, apenas cinzas e restos de papéis queimados. Possivelmente, o testamento do Lucas. Foi nesse momento que fiquei a saber que ele não me deixara nada. Que queimara tudo. Senti uma imensa tristeza. O seu impulso amargo transformou-se num gesto irreversível. Tive pena dele.