Histórias de Amor Moderno: "O meu marido teve um AVC. Morreu diante de mim, numa esplanada virada para o mar"

“Inventei a minha história. Concebi para o meu marido uma doença horrenda, imaginária, cujas descrições tornei tão grotescas quanto possível.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

Casal sénior lê no conforto de casa, num ambiente acolhedor Foto: IMDB
21 de fevereiro de 2026 às 09:00 Maria Olívia Sebastião

Tudo começou com um email. Eu nem tinha email, nem sabia ao certo como se usava, embora percebesse para que servia: um correio eletrónico. Pois claro, faz sentido. Num mundo tão evoluído em que tudo muda e quase tudo melhora e avança, faz todo o sentido que não estejamos dependentes em exclusivo do correio físico, da carta entregue pelo carteiro, pela conta que chega num envelope. Aceito. Posso ser velha, mas tal não significa que eu conviva mal com o progresso, com as mudanças. Acho-lhes graça, até. Coisas que dantes demoravam horas, ou dias, ou semanas, agora podem ser resolvidas em minutos ou até segundos, no conforto do lar, usando um computador ou outro dispositivo que levamos no bolso e que vai connosco para onde nos apetecer.

Quem me criou a conta de email foi o meu falecido marido. Perdi-o há poucos meses. Foi a morte que nos separou, e eu acredito que essa fosse realmente a única forma de alguém nos separar. Não gosto de me gabar e não pretendo esfregar na cara dos outros a felicidade que vivi no meu amor, mas a verdade é que fui imensamente feliz, sim, e vivi plenamente a minha paixão, do primeiro ao último dia, e sabe Deus como o último dia foi difícil. Mas eu não trocava nem um minuto desses mais difíceis por qualquer outra maneira de ter vivido a minha vida com o Anselmo.

Como eu dizia, foi o Anselmo quem me criou a tal conta de email. Percebo agora que a minha dificuldade a lidar com os resultados da nossa gloriosa modernidade derivava muito mais da minha tacanhez, do meu preconceito, do que da dificuldade efetiva em fazer o que quer que seja estando ligada a uma rede digital. Os emails funcionam de um modo relativamente simples, como a maioria das pessoas decerto saberá. Eu não sabia e isso assustava-me, mas sei hoje que não havia razões para receios. Ou, melhor e reformulando: haver, havia. Mas não eram do tipo que eu esperava que fossem. O risco de, clicando no sítio errado, arruinar qualquer coisa, cometer uma ilegalidade ou perder tudo o que tinha, não existia, de facto. O que existia era o perigo de estar exposta a abordagens. Por exemplo, emails dando conta de que alguém pretendia doar-me uma enorme quantidade de dinheiro - assim, do nada.

Esse tal email que eu recebi deixou-me intrigada. Como é que alguém se dava ao trabalho de enviar uma mensagem daquelas, uma coisa muito forçada, muito mal argumentada, sem pés nem cabeça, a dizer que tinha dez milhões de dólares para me transferir, porque era uma doente em estado terminal e queria realizar uma última boa ação? O meu primeiro instinto e a minha mais primária vontade ordenaram-me que respondesse. Na verdade, fiquei cheia de curiosidade, queria saber até onde aquela história idiota poderia ir. Só que o Anselmo, que sempre foi uma pessoa pragmática e detestava perder tempo com assuntos sem solução, disse-me, quase como se ordenasse, “coisas destas só têm um destino possível: ignora, apaga e bloqueia”. E eu, bem-mandada, assim fiz: ignorei. Só que não concretizei as outras duas instruções. Não apaguei, muito menos bloqueei. Aquilo ficou ali.

PUB



O meu marido teve um AVC. O acidente vascular não está, de forma alguma, relacionado com emails nem nada do género. Foi só uma coisa que aconteceu nas nossas vidas. Melhor dizendo, na minha vida - na dele, não foi “só mais uma coisa que aconteceu”. Foi a última de todas. O Anselmo morreu diante de mim, numa esplanada virada para o mar. Serve-me de consolo, mas pouco. O meu marido adorava aquele sítio, a falésia, o fim de tarde de frente para um Atlântico quase sempre bravo e de meter respeito.

Quando ele torceu o rosto, numa expressão quase cómica, eu não percebi de imediato do que se tratava. Estaria a fazer uma careta? A tentar fazer-me rir? Estaria a mostrar desagrado com alguma coisa? Olhei para trás de mim, por cima do ombro, a tentar descortinar o que o desagradava. Quando me voltei de novo para a frente, os olhos dele estavam estranhíssimos, como se flutuassem num fundo cinzento-avermelhado. Não tinham expressão nem atenção. E ele mal respirava. Depois tombou, a cabeça bateu na mesa. Acabou por rebolar para o chão antes que eu o conseguisse agarrar. Meu querido, não te amparei na tua última hora.

Passaram-se semanas desde que perdera o Anselmo - e essas semanas depois transformaram-se em meses - quando um dia eu estava de volta ao computador. Não uso redes sociais, nem percebo ao certo para que servem, mas gosto muito de ler as notícias online. Acredito que poder saltar de site em site permite que tenhamos uma maior variedade de abordagens e perceções do que acontece no mundo que nos rodeia.

Como costumo fazer, abri o meu email para saber se tinha novidades, se alguém me contactara. Não havia nada, o que até é bom sinal porque, por norma, só me contactam para tentar vender-me coisas ou para me apresentarem uma conta para pagar. E foi então que aquela curiosidade voltou a assaltar-me. O que aconteceria se eu respondesse afirmativamente à mensagem, fingindo interesse na generosa oferta? O que sucederia, até onde estariam dispostos a ir, como é que fariam para continuar a construir o enredo, mentira sobre mentira?



Decidi criar a minha própria personagem e responder ao primeiro email, que me chegara de alguém que assinava “Sra. Bila Verónica Pio” e que contava que tinha perdido recentemente o seu marido em circunstâncias trágicas. Eu, que perdera de verdade o meu, senti-me ofendida. “Gostaria de lhe enviar um forte abraço de amizade e dizer que lamento muito a sua perda. É muito triste a morte de um parceiro de toda a vida. Eu sei bem o que me custou quando perdi o meu marido.” Comecei assim a mensagem, entregando-me de certa forma ao desabafo franco. Porém, a meio da mensagem decidi que não daria àquela pessoa o prazer de partilhar com ela a minha dor verdadeira.

Inventei a minha história. Concebi para o meu marido uma doença horrenda, imaginária, cujas descrições tornei tão grotescas quanto possível. Do outro lado, a senhora Bila respondia-me que lamentava muitíssimo, e insistia para que eu lhe enviasse os dados da minha conta bancária.

Por uns tempos, fui ignorando essas instruções. Criei um nome completo que não corresponde ao meu, forneci-lhe um endereço, como se fosse o meu, e que a senhora Bila talvez não saiba, mas é o da Polícia Judiciária e fiquei-me por aí. No resto das mensagens, acrescentava histórias mirabolantes sobre mim e o meu marido, as viagens que fizemos, alguns bons momentos que vivemos, aquilo que sentíamos um pelo outro e que se cristaliza em centenas de pequenas coisas, toques, proximidades, palavras carinhosas, olhares demorados.

Houve um momento em que tive a minha epifania, depois da enésima insistência da senhora Bila para que lhe enviasse os detalhes da minha conta: aquela experiência, que começara por ser uma brincadeira atrevida - e quiçá perigosa -, tinha-se transformado inesperadamente numa terapia que eu fizera a mim mesma. Graças àquela correspondência improvável, eu revivera muitas das minhas melhores memórias, ao mesmo tempo que, sem me dar conta, fui desabafando os meus receios e tristezas, camuflando-os no meio das histórias loucas que inventava e acrescentando detalhes e contornos cuja sordidez não chegava para mitigar a melancolia.

Decidi não continuar com a correspondência após o envio daquele email. Seria o último. Daí em diante seria demasiado consciente, logo a terapia perderia o efeito. Curiosamente, a senhora Bila também não me respondeu mais depois dessa minha mensagem. Talvez tenha percebido do que se tratava. Ou então sentiu compaixão por esta velhota meio louca e meio perdida. Seja qual for o caso, estou-lhe grata. Apesar das suas más intenções, ajudou-me - sem querer, sem saber - a compreender e aceitar a minha nova realidade, feita de solidão e marcada pela perda. É triste, sem dúvida, mas enquanto a minha memória conseguir reavivar aquilo que fui sentindo ao longo de todos estes anos, o Anselmo parecer-me-á vivo. E eu sentir-me-ei viva. Obrigada, senhora Bila.

leia também
PUB
PUB