Histórias de Amor Moderno: “Nunca antes eu traíra o meu marido. A atração que senti pelo Luís Afonso foi muito mais forte do que eu”

“Repetia para mim mesma que era tudo inocente, que nada tinha de acontecer. Mas, no meu íntimo, sabia o que desejava - e sabia-me desejada. E gostei da sensação.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

The worst person in the world (2021) Foto: IMDB
06 de junho de 2026 às 10:00 Maria Olívia Sebastião

Não vejo o meu filho há mais de seis meses. Deixei-o com o pai, quando nos separámos. A bem da sanidade de todas as partes envolvidas, abdiquei de ficar com ele. Não me julguem, eu sou o meu mais austero e exigente juiz. Dispenso a vossa condescendência e repudio o cinismo da vossa avaliação. A vida é como é, e cada um está no seu lugar. Ninguém calça os meus sapatos.

A minha história é longa e torta. Tentarei ser tão breve e organizada quanto possível. Mas não faço promessas. Já fiz demasiadas. Resta-me uma última: recuperar o meu filho, trazê-lo para junto de mim e do homem por quem me apaixonei, por quem mudei tudo na vida, o homem por quem deliberadamente falhei - por amor e por paixão.

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Tudo começou no Sul de França, entre Bordéus e Toulouse. Na época, eu vivia em Toulouse com o Bérnard, pai do meu filho, com quem estava casada. Dividia-me entre a nossa cidade e Bordéus, onde geria um negócio relacionado com vinhos. E foi por causa dos vinhos que conheci o Luís Afonso, o homem por quem me apaixonei de uma maneira que nunca julguei possível.

Foi num encontro vínico, em que o Luís Afonso representava um produtor português, como enólogo supervisor, que começámos a conversar. Eu apresentei a nossa distribuidora, falei-lhe do nosso modelo, de não nos identificarmos com a forma massificada como habitualmente se negoceiam os vinhos. Disse-lhe que procurávamos abordagens feitas por medida e um contacto pessoal, humano, direto, honesto. Ele sorriu e disse “parece-me que você é a pessoa que eu há tanto tempo procuro”. E eu sei que essa frase simples me desfez qualquer possibilidade de defesa.

Estendeu-me a mão, apresentou-se, perguntou-me o nome. “Leila”, respondi. “Que nome original”, disse ele. Expliquei-lhe que era muito comum no Norte de África, que era de onde eu vinha. “Norte de África?”, estranhou. Disse-me que reconhecia os meus traços “de certo modo exóticos”, mas que não me associou imediatamente a esses territórios. Não entrei em detalhes. Contei-lhe apenas que o meu pai, angolano, e a minha mãe, francesa, se haviam conhecido acidentalmente na Tunísia e que aí tinham vivido. E que, por isso, eu nascera na Tunísia.

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Perguntei-lhe pelo seu percurso, pela sua origem. Percebia que era português, mas pedi-lhe que me falasse um pouco mais de si. Contou-me que, embora residisse em Lisboa, se dividia pelo Sul do país, especialmente entre a propriedade no Alentejo desse produtor e a vida na capital.

Envolvemo-nos no dia em que nos conhecemos. Nunca antes eu traíra o meu marido. Aliás, nunca antes eu traíra qualquer companheiro que tivesse tido na vida - embora eu não tenha tido muitos antes de me casar com o Bérnard. A atração aque senti pelo Luís Afonso foi muito mais forte do que eu. Desde o momento em que nos apresentámos que não mais nos separámos. Durante o jantar de grupo, fizemos questão de nos sentarmos lado a lado.

Nessa noite, era suposto eu regressar a Toulouse de comboio, como fazia todas as semanas. Os participantes que vinham de longe ficariam alojados num hotel no centro de Bordéus. O Luis Afonso perguntou-me se eu não queria ficar também - tinha pela frente uma viagem chata e longa de regresso a Toulouse, chegaria muito tarde. “E onde é que eu durmo?”, perguntei-lhe. “Posso oferecer os meus aposentos. Tenho um sofá no quarto. Eu durmo no sofá, podes ficar com a cama.” Ri-me. Aceitei. Liguei para casa, “Bérnard, as coisas aqui no evento estão muito mais demoradas do que eu esperava, vou ter de ficar em Bordéus esta noite”. Quando desliguei, estava perfeitamente consciente do que iria acontecer. Repetia para mim mesma que era tudo inocente, que nada tinha de acontecer. Mas, no meu íntimo, sabia o que desejava - e sabia-me desejada. E gostei da sensação.

A separação

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Nunca na vida pensei ter um affair, ter um amante, ser uma traidora. E quando percebi que me tinha tornado nisso mesmo, não gostei de me sentir nessa posição. Mas estava muito apaixonada pelo Luís Afonso e não queria, não podia perdê-lo. Só que a situação não podia arrastar-se. Teria de encontrar uma solução. Conversei com o Luís, disse-lhe que não conseguia continuar assim. Expliquei-lhe que tínhamos duas opções: ou ficávamos juntos, ou acabávamos tudo. Ele concordou. “Então, ficamos juntos. Vem ter comigo a Lisboa.”

Só que dizê-lo, numa conversa fervorosa, deitada na cama do hotel, durante mais uma escapadinha ilegítima e às escondidas para Bordéus, é uma coisa; pôr em prática a ideia, concretizá-la, é outra, completamente diferente. A começar pela conversa a ter com Bérnard. Era preciso falar com ele, dizer-lhe que me queria separar, que tinha conhecido outra pessoa. Não sabia como ele iria reagir, mas obviamente não seria uma conversa fácil - nem para mim, nem para ele. Depois, havia que explicar ao Henri, o nosso filho, o que se passava. Na altura, ele tinha apenas 11 anos. Não seria fácil dizer-lhe “já não gosto do pai, vamos para Portugal viver com o novo namorado da mãe”.

Demorei alguns dias até ganhar forças para me sentar com o Bérnard e conversar com ele, contar-lhe tudo. E todos os dias ensaiava um bocadinho. Nestas situações, convém que saibamos perfeitamente o que queremos dizer. Não pode haver espaço para o improviso, muito menos para o erro ou para a hesitação. Até que chegou a hora.

“Bérnard, precisamos de conversar.” Disse-lhe assim que entrou em casa. Eu estava sentada no sofá da sala. Tinha aberto uma garrafa de um ótimo Merlot. Servi-lhe um copo. Brindei com ele, “à vida que temos tido e a tudo o que me proporcionaste”. A expressão dele era de grande apreensão. A minha pulsação estava no limite. Senti que precisava de começar a falar antes que desfalecesse. “Bérnard, acho que temos de ficar por aqui. Vamos seguir caminhos separados.

Ele ouviu tudo até ao fim. Muito sério, mas muito sereno. Disse-me que já tinha percebido que havia mais alguém, desde o primeiro momento - soube isolar e assinalar o dia do evento que me fez ficar em Bordéus com o Luís Afonso. “Também cometi os meus erros”, revelou, “conheço bem os expedientes, sei quando as desculpas são demasiado esfarrapadas”. Acrescentou que não imaginava que fosse algo tão sério, ao ponto de pretender separar-me. Perguntou-me se eu tinha a certeza do que queria fazer. Respondi-lhe que sim. Estávamos os dois em lágrimas.

Nessa noite eu ia dormir no quarto de visitas para ficar sozinha. Depois de me deitar, ele entrou no quarto, deitou-se a meu lado. Senti uma vontade súbita de fazer amor com ele. E ele comigo. Tivemos uma das noites mais quentes e sensuais dos últimos cinco anos que passámos juntos, se calhar. Talvez mais. Por momentos, recuperámos o fogo que nos consumiu no início da nossa relação. Acabámos por dormir abraçados.

Não falámos sobre Henri. A manhã seguinte foi estranha. Já não estávamos juntos, mas as endorfinas não deixavam esconder o prazer nos nossos rostos. Abraçou-me por trás quando eu tirava café. E doeu-me o coração ter de lhe dizer “Bérnard, tudo acabou…” E então ele perguntou-me pelo Henri. Disse-lhe que pretendia levá-lo comigo. “Levá-lo para onde?” Lisboa, respondi. E foi então que ele perdeu a calma. Não queria acreditar. Gritou, ficou completamente desorientado, de cabeça perdida. Disse-me que achava que eu fosse para Bordéus, qualquer coisa do género. Não que fosse viver para outro país, na ponta da Ibéria.

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Não falei, limitei-me a ouvir. Deixei-o desabafar. Esperei que se acalmasse, que caísse em si, que acabasse por aceitar. Depois do caos, fez-se silêncio. Eu estava estarrecida. Só queria que aquele momento terminasse, que o tempo passasse. Mantive-me escondida na minha cabeça, no meu silêncio, à espera que a poeira assentasse. Ele sentou-se diante de mim. Limpou a garganta e disse, numa voz trémula, mas com palavras firmes: “Nunca na vida vais afastar o Henri de mim. Se queres ir-te embora, vai. Mas o miúdo fica.” Vestiu o casaco e saiu.

Eu sabia que ficar ali seria recuar. Seria rebaixar-me, aceitar uma derrota que não existia, seria desistir. E também sabia que forçar a vinda do Henri comigo seria infrutífero, até perigoso. A melhor solução seria, sem dúvida, afastar-me um pouco, deixar o meu filho, sair de casa, acertar as coisas com o Luís Afonso em Lisboa e, depois, então sim, trazer o Henri comigo, resolvendo tudo com serenidade e respeitando os trâmites.

Aterrei em Lisboa dois dias depois deste episódio. Nunca me custou tanto uma viagem de avião. Só pensava no filho que deixava para trás. E, com essa ideia pesada e dolorosa em mente, pensava também na vida que acabava de revogar. Deitava fora 14 anos da minha vida - uma vida de conforto e de conquistas, uma vida que me permitiu superar uma infância difícil numa cidadezinha costeira chamada Bizerta, onde o maior sucesso a que podia aspirar era ter o meu próprio café para atender turistas.

O Luís Afonso reconfortou-me. Disse-me que tudo se iria resolver, que ele próprio trataria de meter advogados a trabalhar no assunto, que tinha conhecimentos e dinheiro suficiente para o fazer. Passadas duas semanas, voltei a Toulouse para ver o Henri e para tentar demover o Bérnard, falar com ele, estabelecer uma linha no horizonte para, a médio prazo, trazer o meu filho para perto de mim.

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Só que nada correu como eu previa. O Henri estava magoado comigo. “Deixaste-me, não quero mais que sejas a minha mãe. Morreste para mim.” É muito violento ouvir semelhantes palavras saídas da boca de um filho que tanto amamos. Fiquei desfeita. “Como vês, não sou eu que o proíbo - é ele que não quer estar contigo. E é comigo que deve ficar.”

Passaram quatro anos. Tenho visto o meu filho, claro, mas com intervalos muito longos entre visitas - a última foi já há meio ano. E ele nunca veio ver-me a Lisboa. Nunca quis. Até há pouco tempo. Há duas semanas, mandou-me mensagem. “Mamã” - e ele não me chamava “mamã” desde que me separei - “quero ir ter contigo”. Fiquei muito feliz. E tenho a sensação de que ele finalmente aceita a ideia de vir viver comigo para Portugal. O pai, claro, mandou-me logo mensagem a dizer “nem penses que mo vais tirar”. Veremos.

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