Festa do Cinema Italiano propõe uma reflexão sobre o papel do corpo feminino
Nesta 19.ª edição, que começa hoje, o protagonismo é feminino, mas está longe dos clichés. Há tensão, há escolha e há histórias que deixam marca.
A Carolina tem um irmão mais velho. Vou deixar esta informação aqui, de maneira simples, porque há frases que, deixadas assim, em suspenso, parece que contam uma história inteira. Podia ser esse o caso, não fosse o destino, a minha vida e os meus desejos complicarem sofisticadamente todas as hitórias em que eu participe.
Quando, depois de terminar o curso, eu voltei para a minha pequena cidade, o Rafael, irmão mais velho da Carolina, tinha partido. Segundo a irmã, tinha conhecido uma rapariga que trabalhava como manequim e que era estrangeira. O Rafael, que sempre adorara fotografia, tornara-se fotógrafo profissional. Trabalhava para revistas e marcas de roupa, fazia editoriais. Então a tal manequim convencera-o a mudarem-se para Milão, para ficarem mais perto do sítio onde as coisas da moda acontecem na Europa. Depois, contou-me ainda a Carolina, a carreira dela mudou de rumo e decidiu sediar-se em Londres. E ele, o Rafael, lá foi com ela. Moravam, nessa época, num T1 minúsculo em Shoreditch, porque, mais uma vez, dizia ela que era ali que tudo acontecia, porque as pessoas em Shoreditch viviam numa espécie de sonho hipster e tinham estilo até quando acordavam de manhã, de cabelos desgrenhados e pinturas esborratadas, misturadas com olheiras fundas e roupas de aspeto usado. Mas isso era, segundo a manequim e confiando no relato da Carolina, o epítiome do estilo.
Não me importava nada que o Rafael tivesse ido para fora. Tal como não me incomodava, nem um bocadinho, que namorasse uma modelo internacional e se deixasse encantar pelos caprichos blasé dessa criatura esguia e sem mamas. Eu só tinha sentimentos sérios pela Carolina (eu avisei que a minha vida era complicada). Então, o Rafael estar ou não estar era praticamente insignificante. Eu e a Carolina éramos amigas desde 5.º ano. Ficámos na mesma turma e demo-nos bem muito rápida e naturalmente. Ela, meio Maria-rapaz, sempre de fato de treino e pronta para uma boa refrega, quer o adversário fosse rapaz ou rapariga. Nesse aspeto, não discriminava. Eu era mais menina, sem dúvida, mas havia qualquer coisa nela que me fascinava. Gostei genuinamente da Carolina desde a primeira vez que a vi. Tudo nela tinha personalidade, os gestos, as palavras, a voz rouca de menina reguila. E era bonita. Mesmo de fato de treino todo sujo e esfarrapado, com os dedos sujos de terra e, quantas vezes, de joelhos esfolados.
Demorámos algum tempo a perceber o que fazer com aquilo que sentíamos uma pela outra. Obviamente, éramos amigas. E queríamos estar sempre juntas. E amor era uma coisa de rapaz com rapariga, menina com menino. Não havia, no nosso espaço mental, na nossa singela e ingénua concepção do amor, a possibilidade de duas miúdas se pegarem aos beijos e aos apalpões. Que loucura, que disparate seria uma coisa dessas. Demos o nosso primeiro beijo quando tínhamos 15 anos. Fiquei, como tantas vezes ficava e ficaria muitas mais, em casa da Carolina. Dormíamos no mesmo quarto, fazíamos as camas no chão. Ouvíamos música, líamos, víamos revistas, víamos filmes em DVD. O tempo que restava era usado para dormir, mas nunca restava muito.
Os pais da Carolina sempre me receberam como se fosse da família. Do mesmo modo, quando ela ficava em minha casa, os meus pais tratavam-na como se fosse minha irmã. Eu e ela éramos família, desse por onde desse. Só que, naquela noite, demos aquele beijo. E foi estranho. E não soubemos o que fazer com ele. Mas na noite seguinte, em minha casa, decidimos arriscar e ir mais além. Nem eu nem ela sabíamos nada do amor nem do sexo, mas o instinto lá nos conduziu. E foi caótico, atrapalhado, frenético e, por fim, extasiante. “Se eu soubesse que o sexo era assim, já tinha começado há mais tempo”, disse ela, no seu estilo marcadamente “estou-me nas tintas para tudo”, e tirou um cigarro da bolsa da mochila, enquanto eu não conseguia suster o riso e a contemplava… caramba, como era bela e forte e destemida. E divertida. Se eu ainda não sabia que era apaixonada por ela, nesse momento tudo ficou claro.
Na nossa cidade, ninguém sabia que entre nós havia mais do que uma amizade muito forte e muito íntima. As pessoas, mesmo os nossos amigos e colegas, viam-nos muito mais como irmãs espirituais, almas gémeas, do que namoradas e amantes. E, na verdade, éramos tudo isso.
O Rafael gostava de nos fotografar. Gabava constantemente o nosso estilo, “vocês são mesmo giras, suas gatas”, e fotograva-nos em pose. Nós, fazíamos de modelos, ele ensaiava as suas técnicas que ia aprendendo nos cursos de fotografia que amiúde fazia em Lisboa. Nunca fez licenciatura, considerava que a vida académica não lhe dava o que ele precisava: “experiência”, “visão”, “instinto artístico”. Eu ouvia-o dizer aquilo e fazia-me algum sentido. Um dia o Rafael apanhou-me sozinha e perguntou-me “tu gostas mesmo, mas mesmo, mesmo da minha irmã, não gostas?” E eu fiquei muito atrapalhada e não lhe consegui responder. Acho que sorri, que me senti sem jeito, devo ter corado. Talvez tenha gaguejado enquanto tentei balbuciar alguma coisa. Qualquer coisa. Ele riu-se e passou-me a mão pela cabeça, como se cumprimentasse uma criança.
Nesse dia, quando regressei a casa, dei por mim a ter pensamentos que nunca devia ter tido. Um deles foi: o Rafael, em termos de beleza, é ainda mais interessante do que a irmã. Outro foi: como será o corpo dele? E antes de me deixar dormir, pensei nele com muito mais força do que devia, porque depois tive de acompanhar os pensamentos com gestos secretos que só uma mulher conhece. Quando fui estudar para Lisboa, a Carolina ficou a terminar o secundário. Precisava de melhorar notas para entrar numa faculdade pública no curso que queria. Então, ia repetir algumas disciplinas, tentar subir notas e a média final. A minha chegada a Lisboa, a distância, as poucas vezes que nos víamos, tudo junto fez com que tivéssemos aceitado abrir a nossa relação.
Não cometi grandes loucuras nessa época, mas tive as minhas aventuras. Experimentei o outro lado, estive com rapazes. Não namorei com nenhum, mas tive dois casos que quase se tornaram sérios. Também estive com raparigas, três ou quatro casos sem importância nem profundidade. Nenhum desses affairs fugazes teve qualquer espécie de impacto nos meus sentimentos pela Carolina. Nunca deixei de ser apaixonada por ela.
Quando regressei à minha cidade, estava a Carolina fora, a estudar, mas reatámos rapidamente e retomámos toda a normalidade da nossa extraordinária “amizade”. Algumas pessoas começaram a desconfiar da natureza da nossa relação, acho eu. Os meus pais não tocam no assunto, mas penso que sabem. Os pais da Carolina claramente sabem, mas nem querem saber. Ninguém verbaliza. A vida segue tranquila.
Quer dizer: seguia tranquila. Porque, no início deste ano, aquela magricela que tinha encantado o Rafael, trocou-o por um stylist muito prestigiado - e que eu, sinceramente, acho que é gay, mas ela lá sabe - e mandou o meu, enfim, cunhado de volta para a terra dele. Que é a minha. E voltou para casa dos pais, que é a da Carolina. E ele sabe, eu sei que ele, sabe que eu e a Carolina somos namoradas. E também sabe, e eu sei que ele sabe, que eu estremeço quando ele se dirige a mim. E ponho tudo em causa quando, ao passar por mim, pergunta “então, sua gata, quando é que eu te fotografo a sério?” E voltam-me os pensamentos que tive daquela vez, e lembro-me logo daquele em que eu o acho ainda mais belo do que a irmã. E tenho mais pensamentos, ainda piores, que não param, e que vão por mim acima, ou por mim abaixo, já nem sei.