A mulher levantou-se calma e decididamente, afastou o carrinho de bebé onde o seu mais novo estava deitado, entretido a brincar com os bonecos pendurados diante dos olhos, passou a mão pela cabeça da outra criança e disse ao homem “já vais ver”. Isto acontecia diante de nós e os nossos olhos viam tudo em câmara lenta e quase desfocado, a luz ténue do bar ajudava, as cervejas que bebíamos agravavam. O homem parecia ser o companheiro da mulher, mas não o pai das crianças, decididamente. À mesa, uma outra mulher, um pouco mais velha. Talvez fosse a mãe da mulher que se levantou. Portanto, a avó do bebé e da outra menina, pouco mais velha do que o bebé.
A mulher caminhou pelo bar. Descalçou-se logo aos primeiros passos, e pôs-se por trás do pianista. Eu e a Carina estávamos em silêncio. O silêncio era uma zona confortável naquele momento: estávamos meio trôpegos da bebida e do ambiente abafado dentro do bar, não sabíamos bem o que dizer um ao outro, aquela cena cinematográfica desenrolava-se diante dos nossos olhos incrédulos e expectantes, e, além disso, o pianista, que era também o dono do bar, tocava bastante bem aqueles temas a lembrar o imaginário dos saloons do faroeste.
Quando chegou atrás do pianista, a mulher começou a dançar com gestos lânguidos e movimentos sugestivos. Ele continuava, tocava como se não desse pela presença daquela mulher estranha. Na mesa de onde viera, a outra mulher entretinha as crianças, olhava para a filha e ria-se; o homem observava e mantinha um sorriso, mas um sorriso incerto.
E foi então que se começou a despir, como uma stripper. Talvez fosse mesmo uma stripper. Eu e Carina trocámos olhares de espanto, não percebemos o que se estava a passar. Teria o Manuel - o pianista, dono do bar - contratado os serviços de uma stripper para animar a noite? Porém, a ideia de uma stripper vir trabalhar e trazer a mãe, o namorado e os filhos, parecia demasiado absurda. Nada batia certo.
A música chegou ao fim, a mulher tinha vestidas apenas umas cuequinhas fio dental, tudo o resto estava deitado aos seus pés, saia, top, camisa, tudo. O pianista estranhou que ninguém tivesse aplaudido. Ao invés, a sala permanecia em silêncio. Voltou-se para trás e deparou-se com a mulher quase completamente nua diante de si, os seios nus à altura do rosto, a não mais de um palmo de distância.
Eu suspendi a respiração. A Carina também. As outras pessoas fizeram o mesmo. A mãe da mulher ria-se. O namorado ria-se, presumo eu, por não saber o que fazer, como reagir. As crianças estavam sossegadas. O Manuel, após uma pausa inevitável de dois ou três segundos, natural para quem tenta adequar o cérebro e a razão àquele cenário inesperado, lá recuperou a capacidade falar - e falou. “Então? Estás com calor?” Voltou-se do novo para o piano e começou uma nova música. Foi a gargalhada geral. A mulher, humilhada, vestiu-se rapidamente e compôs-se como pôde. Pegou na sua entourage e saíram.
Tornei-me próximo de Carina quando o meu primo Márcio começou a namorar com ela. Eu e o Márcio partilhávamos casa, na altura. A Carina também vivia numa residência estudantil, que partilhava com outras três raparigas, todas elas giríssimas. Quando o meu primo começou a frequentar a casa, e depois de me ter apresentado a Carina e as amigas, eu próprio passei a ser visita frequente da residência. Na época, não tinha ninguém, e vinha até de uma relação longa, torta e dolorosa. Conhecer pessoas novas, frescas e giras era um bálsamo perfeito para as minhas dores, e um anti-inflamatório seguro e natural para futuros ressentimentos.
As raparigas da casa tratavam-me bem. Acolheram-me com simpatia, acho que gostavam realmente de mim. Infelizmente, todas tinham namorados, embora nenhum deles estivesse na cidade, na altura. Daí resultava que, embora com respeito e uma saudável distância, houvesse entre nós, à vez, pequenas disputas, brincadeiras e picardias a que podemos chamar flirt. Nunca acontecia nada entre nós, mas afagava-me o ego, sentia-me aos poucos a recuperar a confiança perdida. No meio de tudo isto, eu e a Carina desenvolvemos uma proximidade ambígua e, de certo modo, tumultuosa: desafiávamo-nos, enfrentávamo-nos, mas gostávamos um do outro, sem dúvida.
Quando o Márcio e a Carina acabaram, a notícia apanhou-me de surpresa e deixou-me chateado, quase amuado. Perguntei ao meu primo como ele era capaz de fazer isto. Ele olhou-me com uma certa surpresa, “como assim?” E eu, “sim, sem me dizeres nada”. Ele riu-se, “mano, ‘tás-te a passar ou quê? Desde quando é que te devo explicações sobre as minhas relações?” Virou-me costas e saiu. Quando voltou, encheu uma mochila de roupa e saiu novamente. Ficou fora mais de um mês. Na altura, não percebi se tinha sido por causa da nossa pequena discussão. Hoje, acredito que não foi. Penso que precisava de arejar as ideias, de mudar de sítio, de ambiente, de pessoas.
Eu fiquei desorientado, não sabia o que fazer. De repente, a meio da minha recuperação de vida social e dos meus níveis de auto-estima, o Márcio tirava-me o tapete e, de uma assentada, ficava de novo sozinho em casa e perdia o meu refúgio preferido, a casa da Carina e das amigas.
Não encontrava maneira de me conformar com aquele retrocesso na minha situação. Depois de alguns dias de hesitação, tomei uma decisão: mandar mensagem à Carina. Tinha algum receio que o meu primo, se soubesse, viesse a ficar ainda mais chateado comigo. De certeza que iria pensar que eu queria ficar-lhe com a ex-namorada - ainda por cima, tinham acabado há pouquíssimo tempo. Por outro lado, achei que tinha confiança suficiente com ela para que a nossa amizade não tivesse de ser intermediada pelo Márcio. Além disso, sentia genuínas saudades dela, das amigas dela e da casa onde tantas vezes improvisámos jantares, cervejas de fim de tarde, noites de youtube com mojitos.
“Oi, Carina. Como é que estás? Nunca mais falámos desde a vossa situação. Espero que estejas bem.” Enviar. Pronto, feito. Nem dois minutos depois, a Carina ligou-me de volta. “Então, rapaz, que é feito?” Combinámos jantar lá em casa e, depois, sair um pouco. Como de costume, levei uma garrafa de vinho barato - o meu estado financeiro não me permitia mais, na altura. Toquei à campainha, ouvi passos no corredor, perguntei-me qual delas viria abrir-me a porta e pus o meu melhor sorriso. Foi a própria Carina quem abriu. Tinha uma longa trança e um vestido leve. “Entra”, disse, “podes estar à vontade, elas não estão cá.”
Eu não sabia que íamos estar sozinhos. Fiquei bastante constrangido com a situação. Não queria ser indelicado e sair, mas também não me sentia à vontade para jantar a sós com a ex-namorada do meu primo, em casa dela. Foi, por isso, um jantar tenso e sossegado. Falei pouco. Ela escolheu a música. Eu abri o vinho, pedi desculpa por não ser grande coisa, ela sorriu, não se importava, “tudo se bebe”, disse.
Tentei comer rapidamente para que o jantar pudesse acabar depressa e as nossas vidas conseguissem seguir de novo rumo à normalidade anterior - uma normalidade desagradável, bem sei, mas ainda assim sem dramas nem pesos no estômago e na consciência. “Onde é que vamos a seguir?” A pergunta nem devia surpreender-me. Sabia bem que a Carina gostava de sair, tal como eu. Paralisei por uns momentos enquanto a minha cabeça fazia contas entre o bem e o mal, o certo e o errado, até que o meu super ego desistiu e o pensamento “opá, que se dane” emergiu: “Porque não vamos ao Tradicional?”, propus. “Boa, é isso mesmo.”
A parte em que uma mulher se despiu atrás do pianista foi apenas uma das passagens surreais dessa noite. Outra, que gerou em mim algum receio, foi quando a Carina partiu um copo de imperial e apanhou um pequeno fragmento que decidiu engolir - assim mesmo: pegou no pedacinho de vidro, pôs na boca, depois agarrou no meu copo e deu um gole. Perguntei-lhe se aquilo não era perigoso. “Logo vemos”, respondeu.
Quando regressámos, a pé, pediu-me que a deixasse em casa, pois já era muito tarde. Viemos durante todo o caminho a recordar o episódio da mulher a despir-se e a rir de toda a cena e das improbabilidades da vida, da ida acidental àquele sítio. E depois, à porta do prédio, a Carina, ainda a rir, perguntou-me se eu não queria subir. Eu fiz um gesto de “é melhor não” com a cabeça e ela, rindo mais um pouco, disse “é que eu tenho calor”.
Deitámo-nos no terraço quente a beber ice tea de pêssego. Ela despiu-se um pouco mais e eu dei-lhe um beijo no ombro. Depois disso, a vida nunca mais voltou à normalidade anterior.