Histórias de Amor Moderno: "É um problema que se repete com as raparigas: assim que as mamitas despontam, já as matilhas de rapazes mais velhos começam a rondar-nos"

“Vou apresentar queixa. Os rapazes são maiores de idade, ela, manifestamente mais nova do que um deles, é ainda menor. É ilegal. É crime. Começam os berros e a choradeira, diz-me que vou arruinar a vida dela.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

Mãe tenta proteger filha de investidas de rapazes mais velhos Foto: IMDB
25 de abril de 2026 às 09:00 Maria Olívia Sebastião

A Constança foi a última a dar-me problemas. Apareceu-me em casa muito nervosa, a dizer que precisava de falar comigo, mas que não tinha a certeza de poder fazê-lo. Sosseguei-a. Disse-lhe que estivesse descansada, que podia falar comigo sobre tudo o que acontecesse na sua vida, que a minha função, enquanto mãe, era escutá-la, acompanhá-la, apoiá-la, ajudá-la. Enfim, evitar, tanto quanto possível, que a vida lhe fosse madrasta. Ela riu-se e eu acabei por me rir também. “Madrasta”, repetiu ela, e achámos muita graça porque é isso que eu sou - de outros quatro, não dela. Da Constança sou efetivamente mãe. Dela e de mais três. Já lá iremos, que a composição do meu agregado familiar assemelha-se a uma árvore genealógica em curso, em tempo real.

O problema da Constança: tinha um ardor. Que ardor? Onde é que arde? Sim, aí mesmo. Ok, isso não é necessariamente um problema, Constança, não vamos dramatizar, amiga. “Tive relações com dois rapazes.” Ok, vamos parar um bocadinho. Vou-me levantar, vou respeitar fundo, vou olhar pela janela, deixar que a informação seja processada e assente, prosseguimos logo depois.

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A Constança tem 15 anos, não é uma mulher. É pouco mais que criança. Não quero armar-me em púdica, não vou fazer discurso de conservadora. Também me iniciei cedo, a minha primeira vez foi com 14 anos, não é por aí. A questão é esta complexidade mais, digamos, exótica. Dois rapazes? Como assim? O que é que aconteceu? Diz-me que  muitas amigas fazem assim, que muitos rapazes apreciam. Que idade têm esses rapazes, esses com quem tiveste relações? Diz-me que um tem 18 e o outro 21, e é então que sinto uma raiva a crescer-me por dentro e a aquecer-me, mas tento parecer calma. Pergunto-lhe se foi a primeira vez dela, franze o sobrolho e faz um meio sorriso de desdém. Com a minha experiência, sei perfeitamente que essa expressão significa “really?!”, como quem diz, “achas, mãe? Por favor, que disparate”. Não insisto.

Advirto-a: vou apresentar queixa. Os rapazes são maiores de idade, ela, manifestamente mais nova do que um deles, é ainda menor. É ilegal. É crime. Começam os berros e a choradeira, diz-me que já sabia que não podia confiar em mim, que eu sou louca, que vou arruinar a vida dela. Paro-a: como assim, eu vou arruinar a tua vida? Amua, chama-me egoísta, diz que eu não faço a menor ideia de como funciona a reputação de uma rapariga, hoje em dia. Digo-lhe que talvez seja ela quem não está a perceber bem o que é a reputação de uma rapariga, de uma mulher, no caso dela, de uma menina, quando o assunto é sexo e parceiros.

Às tantas, já ninguém se lembra do que aqui que nos trouxe, do tal ardor. Levantou-se, fechou-se no quarto. Consegui ouvi-la chorar e apeteceu-me acalmá-la, dar-lhe um festinha na cabeça, mimá-la, mas sei que, se entrasse, me iria repelir instantaneamente.

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Não é fácil gerir adolescentes, muito menos numa casa meio caótica, com uma fauna que vai dos jovens adultos até às crianças pequenas, pouco maiores do que recém-nascidos. O meu filho mais novo, o Jacinto, tem 3 anos. Surgiu já fora do tempo. Nem eu nem o pai estávamos à espera que aparecesse nas nossas vidas - eu com quase 50 anos, o pai com perto de 60. Mas ainda bem que veio ao mundo, selando o nosso casamento.

Antes do Jacinto, ambos tínhamos filhos de casamentos anteriores. Eu, três - duas raparigas e um rapaz -, o meu marido outros três, de dois casamentos diferentes - também duas raparigas e um rapaz. Vive comigo o meu enteado mais velho, filho do meu primeiro casamento do meu primeiro marido, que quis ficar a viver comigo quando nos separámos. É muito apegado aos irmãos e também a mim (a mãe nunca quis muito saber dele, pobre Gabriel).

Neste contexto de irmãos, meios-irmãos e ainda irmãos adotivos, numa ambiente em que cada um tem uma educação diferente da do próximo, uma experiência singular nesta combinação atípica de laços familiares, torna-se difícil estabelecer padrões e construir qualquer espécie de sistema ético. O certo e o errado são definições em curso, um dia de cada vez, uma situação de cada vez. Educo os meus filhos e enteados como se auscultasse o destino no escuro, às apalpadelas. Uma pessoa sabe lá.

Antes da Constança, tive outros dramas, principalmente com as meninas. A Alice, a minha enteada mais velha, começou a experimentar drogas. Ia dizer “drogas que não devia”, mas não há drogas boas e drogas más. É tudo para evitar. Este tipo de hesitação, que ocorre com frequência comigo como se eu fosse praticante assídua dos deslizes freudianos, dificulta ainda mais a concepção de qualquer moralidade fiável para os miúdos. Isto acontece porque não sou hipócrita e sei o que é ser jovem, cometer erros, viver com uma certa loucura. E nem tudo é tão terrível como às vezes pintam. Desde que haja remédio… haja espírito e tolerância. 

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Acontece que a Alice tinha 13 anos e esse tal namoradinho, que andava sempre carregado de comprimidos e sabe-se lá mais o quê, tinha 19. É um problema que se repete com as raparigas, sobretudo quando começam a desenvolver aquilo que os rapazes veem na pornografia online: rabos e mamas. Assim que as mamitas despontam, antes que tenhamos tempo de lhes comprar soutiens, já as matilhas de rapazes mais velhos e babados começam a rondar-nos a porta. 

Com os rapazes, tudo tem sido mais fácil. O único a dar-me problemas - ok, não vamos contar com o pequeno Jacinto, que com a idade que tem ainda nem teve tempo para me dar problemas que não sejam o choro das cólicas e dos dentes a nascer - foi o Eduardo, filho mais velho do meu marido. E qual foi o problema? Andar a filmar-se com a namorada na sua intimidade. Detalhe: ela não sabia que ele a filmava. Felizmente, descobrimos a tempo, ele foi devidamente castigado e, tanto quanto sei, não reincidiu nesse tipo de comportamento. 

Aquilo que vou concluindo da minha experiência é que vivemos um período muito complicado para os nossos jovens, e em especial para as raparigas. Há uma falta de sensibilidade e de respeito que nem no meu tempo de juventude existia - e eu cresci num mundo machista, num tempo em que as mulheres ainda andavam à caça das suas liberdades. Contudo, acredito que piorámos. Retrocedemos. Tenho cada vez mais medo pelas minhas meninas. E pelos meus rapazes, porque temo que cresçam sem boas referências e sem uma noção clara do certo e do errado, e ainda menos do que é aceitável, adequado e até agradável. Parece que ninguém quer saber disso, de o amor ser uma coisa boa tanto para rapazes como para raparigas, sem necessidade de domínios, de abusos ou de filmagens. 

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Voltando à Constança, há uma conversa muito séria que temos de ter. Vai dar-me muito trabalho, mas vou ter de fazer com que compreenda o quão errado é aquilo que os rapazes andaram a fazer com ela e explicar-lhe porquê, sublinhando que, sim, de facto, ela tem todo o direito de fazer o que quiser com o seu corpo. Mas que isso implica uma consciência plena daquilo que é a vida, dos riscos que corre e do que é o abuso. Depois, é com ela. Mas não permitirei que esses gaviões, cheios de manha e de esperteza, tirem partido de miúdas inocentes. 

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