O ódio a pombos está enraizado na sociedade e foi incutido desde a infância - aprendemos cedo não nos devemos aproximar e pontos extra se os conseguirmos afastar (nem que seja com um suave chuto sem tocar...). Os tão apelidados “ratos com asas” são a prova viva de que o pretty privilege existe: ninguém odeia pombas brancas. Pelo contrário, quase que aposto que sempre que vê uma a fica a admirar – um símbolo de amor, esperança e paz, talvez a recordação de alguém que lhe era querido e já não está cá. E está tudo bem com isso. São de facto animais bonitos, mas, se pensar, a espécie é a mesma, só muda a cor. São ambos pombo-das-rochas (Columba livia), o que significa que comem o mesmo, fazem o mesmo tipo de cocó (aquele que tantas vezes nos acerta e que nos mancha o carro) e até podem transmitir as mesmas doenças.
O ser humano, aquele que um dia domesticou o pombo e quando já não precisava dele, o abandonou, declarou uma guerra aberta a este animal: alimentá-los tornou-se crime, abatemo-los, envenenamo-los, capturamo-los, eletrocutamo-los, administrámos-lhes contraceptivos tudo para os manter afastados de nós. A Audubon Magazine descreve-os como “um inimigo essencialmente inofensivo que mereceu um nível de desprezo desconcertantemente desproporcional aos seus crimes. Temos relações tensas, por vezes conflituosas, com outras pragas e animais incómodos - alguns dos quais são mais destrutivos e perigosos -, mas o pombo é absolutamente desprezado”, escreve o jornalista Jon Mooallem, no seu artigo na New York Times Magazine, Pigeon Wars. E continua: “é impossível quantificar a totalidade do nosso desdém e desconfiança em relação a estas aves”, e acrescenta, “é difícil até mesmo de explicar”.
O sociólogo Colin Jerolmack, na sua investigação sobre a sociologia das cidades e as interações entre humanos e animais, analisou cerca de 155 anos de artigos do The New York Times para chegar a uma conclusão: como e por que razão as aves foram rotuladas como pragas. Apesar de os pombos sempre terem vivido entre nós, só recentemente passaram a ser vistos como um problema. Aliás, as primeiras referências aos pombos em jornais remontam ao século XIX e são na verdade favoráveis porque condenavam a caça aos mesmos enquanto desporto oficial. Mas o século mudou e a opinião pública também. “Os pombos tornaram-se um incómodo ao longo das décadas de 1930 e 1940, fazendo ninhos e defecando dentro e sobre monumentos, estátuas e passeios”, escreve o jornalista no seu artigo, How Pigeons Became Rats: The Cultural Spatial Logic of Problem Animals. "Na década de 50 descobrimos que os pombos são portadores de doenças. Em 1963, foram rotulados por várias autoridades como pragas ameaçadoras a serem exterminadas.".
Tudo isto são fatores que explicam o porquê de o ser-humano não adorar esta ave, mas nada justifica o ódio extremo a que são sujeitos. As doenças são chatas, claro, e de preferência evitáveis, mas não existem casos documentados que provoquem esta reação. Em 1963, uma notícia publicada no The New York Times associou duas mortes humanas a doenças transmitidas por pombos e, mais tarde, provou-se que o artigo era falso, mas já era tarde mais: a indústria de controlo de pragas, que hoje gera milhões de euros, aproveitou-se do estigma para perseguir estas aves até aos dias de hoje (e nem os morcegos que causaram uma pandemia que nos deixou dois anos fechados em casa recebem tanto hate). Epidemiologistas do Centers for Disease Control and Prevention explicaram à Audubon Magazine que as pessoas e os pombos raramente interagem de forma a que as aves possam transmitir-nos doenças.
Nesse mesmo estudo, Colin relaciona o pombo como praga com a ideia que as pessoas têm de que os ambientes que construímos estão separados dos ambientes naturais. Apelidados pelos sociólogos como “geografia imaginária” das cidades, para nós existe uma fronteira que separa a civilização limpa e ordeira da natureza selvagem e descontrolada. “Isso não significa que não haja natureza, mas, idealmente, a cidade é o lugar onde convidamos a natureza a entrar de formas que controlamos”, explica. “Cortamos pequenos quadrados no betão e é aí que as árvores pertencem. Não gostamos quando a relva e as ervas daninhas começam a crescer através das fendas nos passeios, porque isso é a natureza a romper os limites em que queremos mantê-la."
Long story short: o problema não és tu, pombo, sou eu. Ou no caso nós, humanos, e a nossa vontade de controlar tudo e todos. Mas tudo é ciclico e parece que os pombos estão a reunir fãs, novamente. A Gen Z - e não só! - está a defender os pombos com unhas e dentes. No podcast Las Culturistas, a atriz Sarah Paulson defendeu os pombos, enquanto enumerava inúmeras razões pelas quais são animais especiais, como o facto de escolherem um só parceiro na vida para acasalar. “O ódio aos pombos tem de acabar”, afirma a atriz. E não é a única, numa sequência ilustrada no Instagram, a cartoonista Sophie Lucido Johnson pergunta: “Fazem ideia da sorte que temos de viver na Terra ao mesmo tempo que os pombos?”
A Geração Z está a mudar a opinião em relação a estes animais, em parte, por causa da internet e de toda a informação a que estamos expostos. No meu caso, culpo todos os TikToks que me aparecem na For You a explicar a história dos pombos. Devido à sua má reputação, poucos sabem que os pombos jogam pingue-pongue, conseguem fazer contas básicas (ao contrário de mim), identificam células cancerígenas e distinguem a arte impressionista de abstrata. Tal como os cães e os gatos, adoram mimos e festinhas na cabeça. Digam todos em uníssono: wowww.
Esta paixão parece recente mas não é. Aliás, há cerca de dez mil anos gostávamos (precisávamos?) tanto deles que os domesticámos. A The Nod Mag conta que os egípcios soltavam um bando no céu para anunciar a ascensão de um novo faraó e até ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, os pombos serviam como ferramentas de comunicação à prova de pirataria, numa altura em que as comunicações de rádio regulares eram muitas vezes interceptadas. Pelo seu exímio serviço, 32 pombos chegaram a receber a prestigiada Medalha Dickin.
Com uma história por contar, a ajuda do algorimo e o ódio que a Gen Z tem ao capitalismo, o revival dos pombos representa algo muito mais profundo. A maior mensagem de defesa aos pombos vem da economia? O capitalismo põe vidas em risco, primeiro explorando-os e depois descartando-os quando já não são úteis. É uma história triste, principalmente se pensarmos que apesar do ódio e de toda a violência a que são sujeitos, os pombos não deixam de confiar em nós e de querer estar por perto. É aliás por isso que continuam a construir ninhos nas nossas janelas: na esperança de serem protegidos. A frase da investigadora Tori - que gere uma conta no Instagram dedicada à investigação histórica-, deixa-nos a pensar: “Ensinámos-lhes a voltar para casa, apenas nos esquecemos de estar lá quando o fizeram”.