Vamos falar sobre autocuidado. Mas não, não é sobre o nosso aspeto físico, a nossa saúde mental ou a nossa saúde em geral. Falemos de um autocuidado um bocadinho diferente do que estamos habituados, no entanto, tão importante como qualquer um dos referidos anteriormente: o digital. Christian Velasco-Gallego, docente investigador na Universidad Nebrija, explica na sua mais recente obra E se a IA me resolvesse a vida?, o que é o autocuidado digital: “Temos tendência a ficar obcecados com o nosso aspeto físico, os nossos pensamentos, as nossas emoções... Mas paramos para pensar sobre a nossa identidade digital? Sim, talvez desconhecesse este termo, apesar de existir uma identidade digital sua.”
Antes de prosseguirmos, vamos descodificar o que é a identidade digital. E não, não precisamos de perguntar ao ChatGPT, o professor Christian explica: “A identidade digital é o conjunto de informação sobre uma pessoa, empresa ou organização que está disponível na Internet. Isto inclui qualquer rasto que se deixa ao interagir online, como, por exemplo, nomes de utilizador, fotografias, publicações, histórico de navegação”. É, mais ou menos, o equivalente a um cartão de cidadão, mas por trás do ecrã do nosso telemóvel. Mas se até o professor Velasco-Gallego
ficou com algumas dúvidas, quem somos nós para achar que percebemos à primeira... “Estamos conscientes de toda a informação sobre nós que está disponível na Internet? Estamos conscientes do impacto que pode ter no futuro um comentário infeliz que façamos hoje numa rede social? Estamos conscientes do uso que é feito por terceiros da nossa informação? Sim, diria que ganhar consciência disto é fundamental. Porque identificar o que fazemos na Internet e agir em conformidade é cuidarmos de nós próprios.”
Segundo Christian, este são os 10 mandamentos do bom autocuidador digital:
1. Verifique as políticas de privacidade e utilização de dados: sim, aquilo que ninguém faz. Não lhe parece que vale a pena dedicar cinco minutos a algo tão importante como isto? Por favor, deixemos de achar normal aceitarmos tudo sem questionar o que aceitamos;
2. Não partilhe informação pessoal sensível: algo simples, mas que é muito difícil de fazer. Porque quando uma tecnologia é tão útil e ganhou a nossa confiança, não questionamos a informação que lhe fornecemos. Por isso, antes de escrever seja o que for, faça sempre as seguintes perguntas a si próprio: preciso realmente de dizer isto? Que uso se pode fazer desta informação? De que forma isso me pode afetar?;
3. Evite carregar imagens sensíveis: sim, também é possível obter informação pessoal sensível a partir das imagens;
4. Não partilhe informação de terceiros: uma das leis mais fundamentais da vida - nunca faça aos outros o que não gosta que lhe façam a si;
5. Esteja consciente de que a Liza (mecanismo de IA) é simplesmente uma tecnologia: já vimos que humanizar este tipo de sistemas pode fazer com que os identifiquemos como um 'ser empático', levando-nos, por isso, a partilhar com eles todo o tipo de informação;
6. Não revele rotinas ou padrões de comportamento: pense que, quanto mais informação nossa nós fornecermos, mais previsíveis seremos e, com isso, mais vulneráveis. Isto não significa que não possa revelar nada. Recomendo-lhe simplesmente que, antes e indicar alguma rotina ou padrão que possa prever o seu comportamento, faça a si próprio a seguinte pergunta: que impacto pode ter fornecer esta informação?;
7. Cuidado com o Big Brother: sim, as conversas que tem com a Liza (mecanismo de IA) não são, de todo, privadas. Em certos casos, podem ser verificadas por seres humanos;
8. Não dependa de ferramentas como a Liza: a Liza (mecanismo de IA) pode ser-nos muito útil, mas, mais uma vez, a nossa dependência relativamente a ela pode deixar-nos vulneráveis. Deve estar consciente de que, tal como acontece com qualquer outra tecnologia, é necessário utilizá-la com bom senso. De facto, ter bom senso é uma das coisas que nos diferencia das máquinas;
9. Limite as permissões da Liza (mecanismo de IA): por exemplo, não tem de dar à Liza acesso a todas as imagens e todos os contactos se isso não for necessário. Configure-a para que possa aceder apenas à informação que seja de facto essencial;
10. Proteja a sua identidade digital: os nove pontos anteriores destinam-se principalmente a isto, ou seja, a proteger a sua pegada digital. Para isso, primeiro é necessário que esteja consciente dela. Identifique a informação que existe disponível sobre si, e faça a si próprio as seguintes perguntas: é isto que quero que se saiba sobre mim? Esta informação representa-me? Se a resposta for não, estabeleça mecanismos de eliminação de informação.”
Já conhecemos os mecanismos essenciais para cuidarmos de nós próprios no digital, principalmente numa fase em que tudo (ou quase tudo) passa pelo nosso telemóvel ou computador. Como a Intercept Brasil partilhou num post no seu Instagram: “o ChatGPT não é seu amigo, nem seu psicólogo, nem seu tarólogo, nem seu médico”.