Exclusivo Máxima: documentário de La Vie de Marie. "Em Portugal, basta uma pessoa ter um surto para ser reduzida a isso para sempre"

As pessoas diziam que era maluca - e houve uma altura em que Marie acreditou. Ao longo de quatro anos, La Vie de Maria Manuela foi sendo filmado longe do ruído imediato das redes. A Máxima viu-o em primeira mão e falou com a protagonista, o realizador e o produtor.

Exclusivo Máxima: documentário de La Vie de Marie. Foto: João Marques
30 de janeiro de 2026 às 10:25 Patrícia Domingues

Este artigo contém spoilers. La Vie de Maria Manuela estreia nos cinemas a 12 de fevereiro.

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La Vie de Maria Manuela é um filme sobre identidade, sobre crescer quando o mundo inteiro está a ver, e sobre a urgência de voltar ao nome próprio quando a personagem começa a pesar. “O meu canal, o meu conteúdo, sempre foram uma personagem”, diz Marie, numa videochamada conjunta com Justin Amorim, fundador da produtora Promenade, e João Marques, realizador. “Este documentário é o único momento em que sou eu.” O título não é inocente. Maria Manuela não convoca o nome artístico, nem a persona digital que o público aprendeu a consumir. Convoca a mulher por trás do ecrã - a filha, a adolescente deslocada, a artista em permanente reconstrução. Foram quatro anos que incluíram uma participação num Big Brother e uma intromissão cada vez maior numa existência que se perde como uma agulha num palheiro. E é precisamente aí que La Vie de Maria Manuela encontra a sua força. “Fiz muitos erros, mas o meu cérebro tinha sempre como foco principal: tentar ser feliz e tentar ser uma melhor pessoa nas próximas coisas que fosse fazer.”

Desde o início, o documentário assume-se como um coming of age tardio, feito de dores de crescimento que não ficaram na adolescência. Maria Manuela Gomes, nascida em 2001 na Estela, na Póvoa do Varzim, fala de uma infância marcada pela rigidez, pelo silêncio emocional, pela sensação constante de não pertencer. “Viver numa casa onde te sentes estranha, onde não podes falar, onde tudo é muito rígido… isso marca-te”, partilha. “Tu cresces em modo sobrevivência.” É uma experiência profundamente individual, mas também universal - e é nessa tensão que o filme se ancora. A adolescência surge não como nostalgia, mas como uma fase que continua a moldar escolhas, relações e a forma como se ocupa espaço no mundo

Foto: João Marques 1 de 2 / Exclusivo Máxima: documentário de La Vie de Marie.
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Foto: João Marques 2 de 2 / Exclusivo Máxima: documentário de La Vie de Marie.

Este filme existe porque existe uma relação real entre a Maria e o João. Isso sente-se em cada plano. Não há distância segura, nem a tentativa de manter uma objetividade confortável. “Nunca houve guião”, explica João. “Fui descobrindo o filme enquanto o fazia.” Durante quatro anos, a câmara esteve presente nos dias bons, nos maus e, sobretudo, nos dias sem forma. Houve momentos de silêncio, momentos de riso, momentos em que a Marie estava em crise no quarto e a câmara simplesmente ficava ali. Não porque fosse “importante para o filme”, mas porque aquela era a relação que existia.  Essa intimidade transforma-se em linguagem - e o olhar do realizador cria um contraste constante com a sua estética naturalmente performativa. “O filme é o casamento entre a estética plástica da Marie e um olhar mais frio, mais observador”, resume Justin Amorim.  E João confirma: “Até a forma como a filmo ao longo do tempo conta uma história. Vai esfriando.

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A moda entra no documentário tal como entra entra na vida da Maria: como narrativa, não como adorno. “Eu sempre fui muito mais artista do que influencer”, diz, várias vezes, quase como quem tenta corrigir uma leitura pública antiga. “Percebi que tinha de ser influencer para ter dinheiro para sair de casa e poder ser artista.” A roupa, a decoração, o cabelo, a cor, surgem como ferramentas de expressão, mas também criaram confusão. “Houve uma altura em que eu já nem sabia quem eu era. Estava mais preocupada com o que o público queria do que com o que eu era.” Visualmente, essa tensão é traduzida com uma precisão quase intuitiva. Cor quando há performance. Branco quando há recolhimento. O momento em que Marie transforma uma antiga vacaria num espaço habitável é um dos mais comoventes - não pelo que se diz, mas pelo que se repara. “É quase um devolver da infância que sinto que não consegui ter”, explica. Resignificar um lugar pesado num espaço de criação torna-se um gesto de reparação. “Quando ninguém me vê, eu sou mais eu.

Exclusivo Máxima: documentário de La Vie de Marie. Foto: João Marques

Apesar de abordar momentos de profunda fragilidade emocional, La vie de Maria Manuela recusa transformar a saúde mental no seu eixo explícito. Não há diagnósticos, nem discursos explicativos. A escolha é consciente. “Em Portugal, basta uma pessoa ter um surto para ser reduzida a isso para sempre. É um país um bocado medíocre na forma de julgar uma pessoa”, diz Marie. “Eu quis mostrar que, mesmo nos meus piores estados, eu criei coisas bonitas.” O foco desloca-se da dor para a criação: pintar, escrever, transformar espaços, experimentar. A arte surge como gesto de sobrevivência, não como romantização do sofrimento. Num dos momentos mais silenciosamente políticos do documentário, Marie diz algo que fica: “Pintar é a forma mais proxima de me sentir comprendida e bonita – eu sou bonita porque pintei”.

Produzido ao longo de quatro anos por uma equipa mínima, Maria Manuela é também um retrato de como o cinema pode nascer fora das estruturas tradicionais. O apoio institucional do Instituto do Cinema e Audiovisual chegou apenas na fase final - depois de o filme já existir, em bruto, sem garantias. “Até então, ninguém tinha acreditado no projeto fora de nós os três”, admite o produtor. “Ter esse apoio deu-nos credibilidade, mas sobretudo permitiu terminar o filme com a qualidade que ele pedia.” Essa trajetória quase reflete o próprio percurso da protagonista: fazer primeiro, justificar depois. Existir antes de ser validada. 

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Foto: João Marques 1 de 2 / Exclusivo Máxima: documentário de La Vie de Marie.
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Foto: João Marques 2 de 2 / Exclusivo Máxima: documentário de La Vie de Marie.

Para Maria, este documentário não é um ponto de chegada, mas um fecho. “Quando vi o filme sozinha, comecei a chorar”, confessa. “Percebi que não havia nada de errado comigo. Eu só estava assustada. ” O filme termina sem grandes respostas, mas com uma ideia simples, quase doméstica - e talvez por isso tão poderosa. “Às vezes vais a sítios muito escuros e às vezes vais a sítios de onde parece que não há saída, parece que não há ninguém. Mas há sempre uma saída”, diz. “Às vezes a saída é só fazer um chá.”

La Vie de Maria Manuela não promete redenções fáceis, não promete futuro, não promete risos ou choros. Na verdade, não promete nada. Num mundo saturado de personagens talvez seja o gesto mais radical de todos. Isso ou pintar o chão da nossa própria casa.

Exclusivo Máxima: documentário de La Vie de Marie. Foto: João Marques


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