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"O Diabo Veste Prada 2" aos olhos de uma ex-jornalista da Vogue

Long live Miranda Priestly.

Meryl Streep e Anne Hathaway juntas novamente para "O Diabo Veste Prada 2".
Meryl Streep e Anne Hathaway juntas novamente para "O Diabo Veste Prada 2". Foto: IMDB
04 de maio de 2026 às 17:40 Patrícia Domingues

Estive quase para não ver O Diabo Veste Prada 2. Até cheguei a anunciá-lo, quase como um statement que me faria melhor que os comuns mortais, tão diferentona. Na verdade, tinha apenas medo que um dos meus filmes favoritos fosse destruído com uma versão forçada, mal vestida e escrita por alguém mais velho a tentar ser Gen Z (And Just Like That, sim, é sobre ti). Mas tal como a minha resolução semanal de não comer açúcar, também eu me sentei na cadeira do cinema este fim de semana, lado a lado com a minha desconfiança e, claro, um balde de pipocas.

Aterrei na secretária da Vogue Portugal quatro anos após o filme original estrear. Como uma Andy Sachs recém-chegada a um escritório de ‘clackers’ portuguesas, pouco ou nada havia para comparar - e, ao mesmo tempo, juro que era tudo igual. Não foi preciso mudar de rasos para saltos porque já os usava, mas foi quando comecei a fumar, emagreci mais de 10 quilos, troquei de carteira e de amigos e criei uma devoção por um trabalho que - até ao burnout (diagnosticado, na altura ainda nem era trendy) - definiu em grande parte quem eu era. Ali aprendi que as cores não são tendência, que a moda é política e que em momento algum se diz estilista (é designer). Ao mesmo tempo que todos os clichés do grande ecrã aconteciam na copa, também aprendia que o jornalismo de moda e lifestyle não é menor - bem pelo contrário, é uma arte difícil, que requer cultura, inteligência e maturidade.

O privilégio da beleza também é válido quando escreves para uma revista de nome pomposo, mas posso garantir que só os melhores passavam no crivo da minha editora. Em cada reunião de redação, esforçava-me para ‘vender’ as minhas ideias como se estivesse no Shark Tank, entrevistava especialistas até à exaustão e tentava ver o mundo pelos olhos do futuro. Já nessa altura, sentia que tinha chegado um pouco "no fim da festa": os budgets eram cada vez menores e a pressão comercial maior, mas nada nos fazia antecipar este presente.

Fast-forward 20 anos, chegamos a uma era em que girlboss deixou de ser cool. Não é okay ficar até mais tarde no trabalho. A maioria das revistas de moda passou a ser digital e redações de mais de 20 pessoas são hoje equipas de três. Durante aquelas duas horas no cinema, vi a minha vida passar-me à frente dos olhos: os artigos com conteúdo que não geram cliques, as marcas que detêm parte do controlo criativo, até a imagem de Miranda Priestly a pendurar os seus próprios casacos me deixou desconfortável (Síndrome de Estocolmo, és mesmo tu?).

Mas há algo mais profundo que mudou - e não apenas na indústria e nos lugares do avião, mas na forma como olhamos para o poder feminino. Infelizmente não como o vivemos: as mulheres continuam a ganhar, em média, menos do que os homens para funções equivalentes, continuam sub-representadas em cargos de liderança e continuam a ser penalizadas socialmente por comportamentos que, nos homens, são lidos como assertividade. Em Portugal - e no resto da Europa - o chamado gender pay gap persiste, e os lugares de decisão continuam esmagadoramente masculinos. A ideia de que “ter tudo” é possível permanece mais pressão do que realidade.

É neste enquadramento que uma frase de Miranda me atingiu com mais força do que qualquer look: "I love to work, but people should know it comes at a cost." Há quase duas décadas, O Diabo Veste Prada apresentou-nos uma das figuras mais icónicas da cultura pop, interpretada como o arquétipo da mulher que teve de sacrificar a empatia para conquistar poder. Mas, à luz de uma sequela e de um novo contexto cultural - e económico - talvez esteja na altura de rever esse julgamento. Durante anos, a ambição feminina no ecrã foi enquadrada como um traço perigoso, quase uma falha moral. Mulheres que queriam mais - mais carreira, mais influência, mais controlo - eram frequentemente punidas narrativamente, transformadas em vilãs ou forçadas a escolher entre sucesso e humanidade (ou as twins). Em contraste, a ambição masculina sempre foi tratada como motor.

É precisamente esse duplo critério que começa agora a desfazer-se - ou quero acreditar, depois do ângulo dado ao filme. Afinal, a revisitação deste universo surge num momento em que a cultura popular está mais disposta a aceitar mulheres complexas: líderes que não pedem desculpa, profissionais que colocam o trabalho no centro das suas vidas, figuras que recusam encolher-se para caber em expectativas ultrapassadas. Mesmo sabendo que o sistema continua longe de ser equilibrado.  "Se a Miranda Priestly fosse um Michael Priestly, não haveria O Diabo Veste Prada", disse Meryl Streep. "O que ela faz é um pouco horrível, mas seria considerado 'adorável' se fosse um homem a dizer."

Nesta nova leitura, Miranda deixa de ser apenas a “chefe impossível” e passa a ser entendida como produto e também arquiteta de um sistema que sempre exigiu mais das mulheres do que dos homens. A sua dureza já não é apenas um traço de carácter; é uma linguagem de sobrevivência num espaço historicamente hostil à autoridade feminina, onde erros são menos perdoados, onde a idade pesa mais e onde a ambição ainda é, muitas vezes, confundida com frieza.

Isso não significa romantizar tudo (ou aceitar comentários menos apropriados sobre a aparência). A ambição continua a ter custos: relações tensionadas, decisões moralmente ambíguas, um certo isolamento emocional. Mas essa complexidade é, finalmente, tratada com equilíbrio - e, sobretudo, com justiça. Porque são dilemas há muito normalizados em narrativas masculinas, raramente usados como prova de falha de carácter. O que esta evolução nos diz é que a ambição feminina pode ser contraditória, imperfeita, até desconfortável (omg, aquela cena no quarto de hotel em que Miranda aparece desmaquilhada e abatida, nos braços do marido). Tem é de ser rápida.

É como escreve Nikki Peach para  da Grazia inglesa: “Depois de tudo, se estamos 130 anos atrasados no calendário da igualdade de género, não temos tempo a perder”. Uma frase que não me soa apenas a urgência, mas também a uma espécie de convocatória coletiva, um “nós” que já não espera permissão para avançar. A passagem de “Everybody wants to be me” para “Everybody wants to be us”, no universo do filme, marca uma evolução subtil mas decisiva na forma como o poder se veste e se projeta. Se antes o glamour era uma afirmação individual, o auge de uma ambição pessoal quase sempre solitária, agora dissolve-se num plural que vale mais que páginas de pub. “Nós” deixa de ser apenas companhia para se tornar pertença, um pacote de batatas fritas que se comido em conjunto não tem calorias.   

Num panorama mediático que começa, finalmente, a abraçar mulheres como protagonistas completas das suas próprias histórias, a maior mudança não está nas personagens, mas no olhar com que as vemos. E talvez Miranda - ou eu, uma millennial que durante muito tempo acreditou que a sua paixão pelo trabalho era um defeito - nunca tenha sido a vilã que pensávamos. Apenas mulheres que chegaram ao topo antes de estarmos prontos para as compreender.

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