Existem diversas formas de fazer terapia. E, aparentemente, fazer compras online, é uma delas. À primeira vista pode parecer inofensivo, mas deixa de o ser quando se transforma num vício, incentiva consumismo ou nos coloca em constante estado de ansiedade, com refresh atrás de refresh no site de tracking da encomenda.
Com apenas alguns cliques, qualquer produto pode chegar a casa em poucos dias ou até em poucas horas. Esta comodidade trouxe vantagens indiscutíveis, mas também riscos: a facilidade de acesso pode abrir espaço a compras impulsivas, feitas mais para aliviar emoções do que por verdadeira necessidade, explica Débora Bento Correia no seu mais recente livro A Minha Terapia Diária. Quantas desculpas já demos aos nossos companheiros de casa ao ouvir, mais uma vez, a campainha a tocar com o estafeta à porta e um pacote nas mãos?
A partir do momento em que nos começamos a sentir desconfortáveis ao ter de justificar a alguém o “porquê de mais uma compra online” o mais provável é estarmos a entrar num ciclo vicioso (difícil de sair, i guess). O ato de comprar, em especial online, ativa os circuitos de recompensa do cérebro através da libertação de dopamina - o neurotransmissor ligado ao prazer imediato e à motivação. Por isso, durante alguns instantes, a sensação é de euforia ou alívio, mas esse efeito é temporário. O problema surge depois: quando o entusiasmo desaparece e fica apenas a culpa, o vazio ou o arrependimento, esclarece Débora B. Correia, psicóloga clínica.
E é aqui que tudo começa a complicar, deixamos de fazer compras por necessidade e passamos a comprar para curar uma ferida emocional ou para comemorar uma situação pontual. “A compra procura regular estados internos como ansiedade, tristeza, solidão ou aborrecimento", lemos no livro. E é lógico que a facilidade de fazer compras a partir do conforto do nosso sofá (exceto quando temos de nos levantar para ir buscar o cartão) aumentou significativamente este “problema”.
A autora Débora Correia, refere que os impactos não se limitam apenas à esfera financeira. As compras impulsivas podem afetar diferentes dimensões da vida:
Financeira: acumulação de dívidas, ausência de poupança, instabilidade económica.
Emocional: sentimento de culpa, vergonha ou ansiedade após a compra.
Relacional: discussões com parceiros ou familiares devido a gastos excessivos e perda de confiança.
Funcional: acumulação de objetos que não são usados, contribuindo para a desorganização e sensação de sobrecarga no espaço físico.
Mas há uma regra que nos vai fazer repensar todos os carrinhos de compras que temos em stand-by. O primeiro objetivo é ignorar os emails das marcas, como: “esqueceu-se do seu carrinho?”. A seguir, é colocar em prática a regra das 24 horas. O objetivo desta regra é criar um espaço entre o impulso e a ação. Antes de confirmar uma compra online, esperar um dia e, durante esse período, refletir: Preciso mesmo deste objeto ou é um desejo momentâneo? Tenho algo semelhante em casa? Como me vou sentir daqui a uma semana se não comprar?
Se, após 24 horas, a compra ainda fizer sentido, pode ser um sinal de que se trata de uma necessidade real, sugere a especialista. A nossa sugestão? Mesmo com alguma dose de racionalidade à mistura, peças de roupa que nos fazem o coração bater mais rápido são quase sempre um "sim".