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Rosácea. Uma estranha no espelho: quando a pele afeta a autoestima e a saúde mental

Esta doença de pele crónica, que se manifesta no rosto, é mais comum nas mulheres entre os 30 e os 50 anos e tem uma componente hereditária. Em entrevista à Máxima, a dermatologista Maria Goreti Catorze diz que “doentes com rosácea apresentam maior incidência de depressão e ansiedade” e explica como pode ser controlada.

Rosácea afeta o rosto, mais comum em mulheres entre os 30 e 50 anos
Rosácea afeta o rosto, mais comum em mulheres entre os 30 e 50 anos Foto: Getty Images
23 de abril de 2026 às 20:43 Madalena Haderer

Nada é mais difícil do que, de manhã, quando nos arranjamos para sair, termos de enfrentar no espelho um rosto que não nos pertence. Aquela não é a cara que conhecemos. Está ruborizada, quente, desconfortável, inflamada, com pústulas. Na rua somos olhadas com estranheza e julgamento, como se aquilo fosse culpa nossa, como se tivéssemos passado demasiado tempo ao sol, sem protecção, ou bebido demasiado vinho ao almoço. Ao contrário de outras condições de pele, que podem ser escondidas debaixo da roupa, a rosácea é difícil de disfarçar. Aliás, como tem uma componente reactiva, faz aumentar o receio de que a maquilhagem contenha algum ingrediente que aumente a inflamação.

Por outro lado, tem um factor de imprevisibilidade. É uma doença crónica, que tende a surgir por surtos, muitas vezes sem aviso claro, e essa falta de controlo gera frustração. O facto de nunca se saber, ao certo, que cara se vai ter no dia seguinte causa ansiedade. E depois, claro, há o peso das expectativas estéticas, que recaem de forma desproporcional sobre as mulheres. A pressão para ter uma pele perfeita, uniforme e luminosa é constante, seja nas redes sociais, na publicidade ou no cinema, e quando a realidade da pele não corresponde a esse padrão, o golpe na autoestima pode ser devastador.

Em entrevista à Máxima, Maria Goreti Catorze, dermatologista e secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia, fala dos sintomas, dos tratamentos, mas também do impacto emocional e psicológico da doença, que não deve ser desvalorizado pelos médicos. A médica explica ainda que as mulheres têm maior propensão para desenvolver rosácea do que os homens, e que há uma componente hereditária significativa. Um dos principais factores desencadeantes é a radiação UV, ou seja, o sol. Mas há mais.

O que é a rosácea e quais os principais sintomas?

A rosácea é uma doença inflamatória da pele que afeta principalmente a região central do rosto, isto é, bochechas, nariz, queixo e testa. Caracteriza-se por eritema persistente, rubor facial, pápulas, pústulas e telangiectasias (vasos sanguíneos dilatados visíveis). Os sintomas incluem ainda sensação de ardor ou picada na pele e, em até 75% dos casos, manifestações oculares que se caracterizam por uma sensação de corpo estranho, secura, ardor, vermelhidão e fotofobia. Pode progredir entre diferentes fenótipos, e alguns doentes desenvolvem alterações fimatosas (espessamento da pele), sendo o rinofima (nariz bulboso) a manifestação mais comum. A progressão não é inevitável, mas a doença tende a persistir e pode agravar-se com o tempo, especialmente se os fatores desencadeantes não forem evitados.

A rosácea é uma doença crónica? Existe cura ou apenas formas de controlo?

A rosácea é uma doença crónica sem cura definitiva. Caracteriza-se por períodos de remissão e recaída, sendo o controlo a longo prazo o objetivo terapêutico. Embora os doentes possam ter remissões, as recaídas são comuns, pelo que a terapêutica de manutenção é recomendada, preferencialmente com tratamentos tópicos. Estudos demonstram que o tratamento de manutenção com metronidazol tópico, ácido azelaico ou ivermectina reduz significativamente as taxas de recaída após o controlo das lesões inflamatórias. No caso da rosácea ocular está recomendada a higiene palpebral e lágrimas artificiais, ciclosporina tópica oftálmica, e doxiciclina oral em casos graves. A gestão eficaz requer uma abordagem combinada que deve ter em conta a educação do doente, a identificação e evicção de fatores desencadeantes, cuidados adequados da pele e tratamento farmacológico adaptado aos sintomas presentes. Os tratamentos tópicos são considerados de primeira linha para doença ligeira a moderada. 

Há uma componente hereditária na rosácea? Quem tem maior predisposição para desenvolver a condição?

Sim, existe uma componente hereditária significativa. Estudos em gémeos demonstram que aproximadamente 46% da gravidade da rosácea pode ser atribuída a fatores genéticos, sendo os restantes 54% devidos a fatores ambientais. As mulheres são mais afetadas do que os homens, e a predisposição também é mais elevada em pessoas de pele clara, especialmente de origem celta. A doença inicia-se tipicamente entre os 30 e os 50 anos, e o avançar da idade correlaciona-se com maior gravidade da doença. No entanto, o rinofima, a forma fimatosa mais comum [estágio avançado da rosácea, que causa o aumento, engrossamento e deformação do nariz que fica com aspecto avermelhado, bulboso e nodular], ocorre predominantemente em homens.

Quais são os principais fatores desencadeantes? Do ponto de vista prático, o que uma pessoa com rosácea deve evitar?

Mais de 90% dos doentes identificam fatores desencadeantes, que devem ser evitados, e que incluem fatores ambientais, como a radiação ultravioleta, que é o fator ambiental mais relevante, calor e frio extremos, e vento. Acrescentam-se fatores dietéticos, como os relacionados com o consumo de bebidas alcoólicas (especialmente vinho branco e licores), bebidas quentes, alimentos picantes, cafeína, baunilha, canela e produtos lácteos. Também devem ser tidos em conta os fatores emocionais, e 69% dos doentes relatam exacerbações mensais relacionadas com stress, bem como a prática de exercício físico intenso, e a toma de determinados medicamentos. 

Também é aconselhado evitar produtos cosméticos irritantes, como maquilhagem à prova de água, por ser mais difícil de remover, tónicos e adstringentes com álcool, mentol, hortelã-pimenta, cânfora, cosméticos com lauril sulfato de sódio, fragrâncias fortes, ácidos de fruta, esfoliantes abrasivos. Evitar hábitos prejudiciais como a fricção excessiva da pele, banhos muito quentes ou saunas. Os ambientes muito quentes também são desaconselhados. Manter um diário para identificar fatores desencadeantes individuais é fundamental para um acompanhamento eficaz.

Existe alguma ligação entre a rosácea e processos inflamatórios ou outras condições de saúde?

Sim, a rosácea está associada a múltiplas condições sistémicas, sugerindo que é "mais do que uma doença de pele". A rosácea envolve desregulação do sistema imune inato e adaptativo, com ativação de vias inflamatórias (TLR2, IL-17, JAK-STAT) e produção de péptidos antimicrobianos como LL37. Comorbilidades associadas como depressão, ansiedade, stress são responsáveis por um risco aumentado em 1,5-2 vezes. São de considerar também as comorbilidades cardiovasculares, gastrointestinais, metabólicas, como diabetes mellitus e obesidade, e neurológicas, como enxaquecas e demência, e autoimunes, como artrite reumatoide. O eixo intestino-pele é particularmente relevante, com estudos a demonstrar que o tratamento de SIBO [proliferação bacteriana do intestino delgado] e H. pylori [bactéria que se aloja no estômago ou intestino e estimula a inflamação] pode proporcionar resposta terapêutica eficaz e prolongada na rosácea.  

Ao nível dos cuidados de pele, que tipo de rotina recomenda? 

A limpeza da pele é fundamental para quem vive com rosácea, e deve ser feita de forma suave, sem sabão, duas vezes ao dia, evitando produtos com fragrâncias ou ingredientes irritantes. O passo seguinte é a hidratação, optando por produtos sem óleo e sem fragrância, preferencialmente com cremes hidratantes que melhorem a função de barreira cutânea. Alguns produtos contêm pigmento verde para neutralizar a vermelhidão. A proteção solar é indispensável e de uso diário, devendo optar-se por um protetor solar de amplo espectro (UVA/UVB) com FPS 30 ou superior, preferindo filtros físicos de óxido de zinco ou dióxido de titânio, formulações à base de água e produtos com dimeticona ou ciclometicona para minimizar a irritação. A maquilhagem, quando usada, deve privilegiar o uso de base e corretor sem óleo e evitar os produtos à prova de água.

Num contexto em que se fala cada vez mais de padrões de beleza e aceitação da pele real, como é possível equilibrar o tratamento médico da rosácea com o impacto emocional e estético que a condição pode ter nas pacientes?

A rosácea tem um impacto psicológico significativo que não deve ser subestimado. Estudos demonstram que os doentes com rosácea apresentam maior incidência de depressão e ansiedade (num risco 2-3 vezes superior), embaraço, baixa autoestima e falta de confiança, evitamento social e estigmatização, com qualidade de vida significativamente reduzida quando comparada com a população geral. É importante que os médicos reconheçam que o impacto emocional é real e significativo, embora em muitos casos tendam a subestimar o impacto da doença de pele na qualidade de vida. 

Tratar os sintomas físicos melhora comprovadamente a qualidade de vida, por isso, é importante avaliar o impacto psicossocial e, se necessário, referenciar para apoio psicológico, assim como considerar o uso de cosméticos de camuflagem. 

A educação para a doença é um aspeto muito relevante e deve ter em conta a educação sobre a natureza crónica, mas controlável da doença. Ensinar a identificar e evitar fatores desencadeantes, e explicar que tratamentos eficazes estão disponíveis e que melhoram significativamente os sintomas. 

Do ponto de vista do doente, aceitar “a pele real” não significa renunciar ao tratamento médico adequado, que visa aliviar sintomas físicos e prevenir a progressão da doença. A abordagem ideal integra a aceitação da condição crónica com tratamento ativo dos sintomas, sempre respeitando a autonomia e os objetivos individuais de cada doente.

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Nascida em São Tomé e Príncipe e criada em Portugal, Roselyn faz da moda um território de identidade, memória e afirmação cultural. Através da seleção cuidadosa de tecidos de forte carga simbólica o seu trabalho ultrapassa a dimensão estética para se tornar uma narrativa viva onde cada peça é uma história e cada padrão uma voz.

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