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Máxima

Padrões de Beleza

Ana Zanatti: "Tenho rugas, mas que fazer? Fingir que não tenho 76 anos? Prefiro um rosto que espelhe a vida"

Aos 12 anos, escrevia sobre um mundo “tacanho e provinciano”. Aos 17, perguntava “como é que eu vou ser feliz se me sentir empurrada a ser quem não sou?”. Quem tem mão no próprio destino nunca se dobra - e é por isso que a primeira capa digital da Máxima define o zeitgeist: sereno, resoluto e graciosamente do contra.

Ana Zanatti
Ana Zanatti Foto: Ricardo Santos / Máxima
26 de março de 2026 às 21:00 Patrícia Domingues
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Julho de 2003. A Máxima publica Ana Zanatti de camisa e calças brancas, óculos escuros, em bicos dos pés, com o mar em fundo. Lança o seu primeiro livro, Os Sinais do Medo, num país ainda pouco disponível para escutar o que ali se dizia: a homossexualidade como exercício de liberdade. “O segredo da mão esquerda”, intitula a jornalista Leonor Xavier, numa analogia ao passado de Ana, quando a amarravam com um lenço para a obrigar a escrever com a direita. Um gesto pequeno, disciplinador, quase invisível, como tantos outros. Até ao dia em que desobedeceu. “Eu não sabia fazer nada, até descobrir que a mão esquerda foi a minha libertação.” 

Hoje, são essas mãos que sustentam o rosto com que nos encara. Nos pulsos finos, prata portuguesa, de Arlindo Quelho, e, no esquerdo, uma fita dos Caminhos de Santiago: percurso de silêncio, corpo e revelação. Nada é acidental.  Atriz, apresentadora, autora, voz - de rádio, de televisão, de livros e de causas -, é a pessoa famosa mais vezes descrita como discreta. Nunca fez da exposição um espetáculo,  nem nunca andou "escondida" nem fez "questão de andar com bandeiras”. E talvez por isso tenha sido sempre mais livre do que o seu tempo. 

A história também se escreve assim: sem estrondo, mas contra a corrente. Como quando, em 1783, no Salão de Paris, a camisa branca de Maria Antonieta tentou dizer simplicidade e acabou por revelar revolução. A roupa nunca é só roupa. O corpo nunca é só corpo. Numa cultura obcecada pelo novo, envelhecer - e mostrá-lo - tornou-se um gesto político. É por isso que estamos aqui: para falar do tempo inscrito no rosto, das rugas como linguagem e de como envelhecer sem pedir autorização - perguntas que continuam a inquietar, mas não a Ana Zanatti.

Numa entrevista dada ao Público, em 2009, dizia que sente que desde o tempo das suas avós muitas coisas não mudaram: “Em Portugal carecemos de espírito iniciador, pioneiro, que exige ousadia, convicção, coragem e sentido de responsabilidade. Há uma grande cultura de medos. Medo de arriscar, medo do julgamento dos outros, medo do ridículo, medo de assumir responsabilidades, medo das pessoas diferentes”. A sua opinião mantém-se?  

Em certos aspectos, alguns desses travões ainda se mantêm. Mas ao reler essas linhas, sinto que não fui bastante clara no que toca o espírito iniciador, a ousadia. Temos entre nós muitas pessoas que têm demonstrado grande capacidade de pôr em marcha novos projectos, quer no campo científico, empresarial, ou cultural. Acontece que o peso da burocracia, o arrastar da máquina dos Estado, deixa as pessoas desanimadas, exangues, retira grande parte do ânimo a quem se lança, cheio de garra, para um projecto. Mas temos, desde o pequeno ao grande empresário, muitos exemplos de ousadia e espírito iniciador. O norte do país é mais prolífico em personalidades ousadas, mas há outras. E começo pelas mulheres, já que ainda são demasiadas vezes relegadas para segundo plano. As que lutaram pela igualdade de género, direitos civis das mulheres, liberdade sexual feminina, direitos humanos, desde a Adelaide Cabete às Marias, Velho da Costa, Teresa Horta e Isabel Barreno, à Natália Correia. Muitas ousaram levar a sua voz, a sua arte, os seus diversos saberes além fronteiras como a Amália, a Maria João Pires, a Paula Rego, a Joana Vasconcelos, a Lídia Jorge, a bióloga Maria do Carmo Fonseca, a cientista Elvira Fortunato e tantas outras. Algumas delas num tempo em que o país vivia num grande isolamento e sufocado por preconceitos.  E alguns exemplos de homens, o Francisco Pinto Balsemão na área da comunicação, o Carlos Avilez encenador ousado que viu tantos espectáculos seus censurados, o Luís Portela na área da farmacêutica, não esqueço o Nuno Artur Silva pelo seu impulso na área da televisão.   

Em relação aos medos, o medo do julgamento dos outros, e o medo de assumir responsabilidades, são enormes travões ao nosso desenvolvimento, quer cultural quer dentro da maioria das empresas. Sem chefias responsáveis não se vai longe. Quanto ao medo das pessoas diferentes, tem-se verificado, lamentavelmente, que ainda há um longo caminho a fazer nesse campo. Mas não é só entre nós. Creio ser um medo atávico difícil de erradicar.  

Ana Zanatti
Ana Zanatti Foto: Ricardo Santos / Máxima

Para fazer face ao conservadorismo é precisa coesão. “Falta-nos sentido de grupo”, também referiu. Em relação às mulheres, como foram as amizades femininas na sua vida? Sente as mulheres portuguesas mais unidas? 

As minhas amizades femininas têm sido, no geral, fortes, duradouras e saudáveis. E tenho sentido ao longo dos tempos que as mulheres estão cada vez mais conscientes do seu valor, e unidas quando é preciso ir à luta.

Acredita que as mulheres têm hoje uma verdadeira liberdade sobre o seu corpo?  

Temos uma liberdade muito maior, mas como a liberdade exige também responsabilidade, é natural que devamos pensar de que forma a usamos para que não se vire contra nós, nem contra terceiros.

Por exemplo, temos a liberdade de fazer cirurgias plásticas e usar determinados produtos para eliminar algumas rugas e outros sinais da idade, no entanto, se exagerarmos na utilização dessa liberdade, corremos sérios riscos de perder toda a expressão, de ficar com um aspecto plastificado e antinatural que não beneficia ninguém, para não falar dos riscos que se podem correr quando a reacção aos produtos é nociva para a saúde. Nunca fiz plásticas, não utilizei produtos injectáveis, nem tenciono fazê-lo. Só o faria por necessidade num caso de acidente. Mas não censuro quem o faz.  Embora prefira um rosto que espelhe a vida que passou por aquela pessoa. Apagar essas marcas é, a meu ver, tapar o sol com a peneira. O olhar não mente, e esse não é operável.

Ainda em relação à liberdade sobre o nosso corpo, fui e sou a favor da legalização da interrupção voluntária da gravidez, porém, não encontrei até hoje justificação para se exceder o prazo das 10 semanas, a não ser em casos muito excepcionais.

Nos países ditos civilizados, não me parece haver desculpa para ignorar que existe a pílula, a pílula do dia seguinte, o preservativo e a vasectomia, um método definitivo mas que a maioria dos homens se recusa a usar, mesmo quando já não quer ter mais filhos. Não podemos isentar os homens da sua responsabilidade nesta matéria. Sei que há pesquisas no campo de se encontrar uma pílula anticonceptiva masculina, mas já vem com muito atraso. A mulher tem sido sempre a grande sacrificada neste e noutros campos. E quando essa pílula para os homens existir, estou para ver, se ainda por cá estiver, quantos a vão tomar…

Ana Zanatti
Foto: Ricardo Santos / Máxima
1 de 2 / Ana Zanatti
Ana Zanatti
Foto: Ricardo Santos / Máxima
2 de 2 / Ana Zanatti

Estar nesta capa, por exemplo, a falar deste tema é algo que acha que muitas mulheres da sua idade fariam? Sente que, como figura pública, é sua obrigação?  

Falar da beleza física não é um tema que me entusiasme particularmente, embora aprecie a beleza tanto numa mulher como num homem, e me preocupe com a minha aparência. O meu sentido estético, e o respeito por mim, não me deixa descuidar esse lado.  Cuido do meu corpo, da pele, mas não sou obcecada por isso.  Tenho rugas, zonas do corpo e da cara com menor elasticidade, mas que fazer? Fingir que não tenho 76 anos? 76 anos vividos intensamente. Muitas noitadas, muito sol, muitos projectores, maquilhagem, muito stress e ansiedade, desgostos, alegrias, medos, esperanças e decepções, enfim, vida. Mas preocupa-me bastante mais a saúde do corpo e da mente, por isso vou ao ginásio quatro a cinco dias por semana, faço pilates, alimento-me à base de legumes, fruta, peixe, tomo suplementos naturais. Não abuso de doces. Bebo litro e meio de água todos os dias e não bebo álcool no dia a dia. Mas uma ou duas vezes por semana, janto o que me apetece e bebo vinho. Adoro comer, adoro bons vinhos, e adoro jantar. Continua a ser a minha refeição favorita, e se o fizer com amigos, como tem sido hábito até agora, é sempre um momento de festa, de enorme partilha e alegria. 

No seu livro Os sinais do medo, Flávia diz o seguinte: "Geração após geração fui-me dando conta dos pequenos sismos que abanavam certas estruturas, das brechas que se abriam". De que sismos precisam ainda as mulheres? E em particular no que toca ao tema da apropriação da sua própria imagem e corpo?  

Precisam de ser mais confiantes em si mesmas, de se fazerem respeitar no campo pessoal e profissional, de não baixarem os braços porque ainda temos muito para conquistar para viver em plano de igualdade com os homens. Essa igualdade é ainda uma falácia em inúmeras situações. Ainda há muitos homens e mulheres que não levam a sério as queixas de mulheres vítimas de violência. Basta ver as decisões de inúmeros juízes e lamentavelmente, juízas, que desvalorizam em tribunal as suas queixas.  É um tema que me preocupa muito e angustia. E no namoro. As raparigas devem ter muita atenção aos pequenos sinais que vão tendo dos namorados quando os humores se descontrolam. E devem acima de tudo,  fazer -se respeitar desde o início e nunca permitir pequenos gestos ou palavras  de agressão. A passividade perante eles pode vir a assumir proporções trágicas. 

E, noutros campos, precisamos de não ter medo de envelhecer. Vivemos numa sociedade muito cruel para com as mulheres. As mulheres têm de estar em permanente alerta para não serem desconsideradas por envelhecer. Isso acontece em inúmeras profissões. Não apenas na minha, em que esse espartilho é gritante e motivo de grandes angústias para imensas actrizes. Mas não são apenas as actrizes, as apresentadoras de televisão. A imagem, a aparência, tem vindo a tornar-se numa ditadura. Não se pode ter rugas, engordar uns quilos, ou ser demasiado magra. Vive-se demasiado para a imagem, uma exigência desumana e vazia. Andar bem vestida, de cara alegre, aparentar uma felicidade e um bem estar interior que muitas vezes está longe de existir. Não há espaço para fragilidades, cansaço, tristeza, para enriquecer o que faz de nós verdadeiras pessoas, autênticas, com altos e baixos, nem espaço para a família ou para o lazer. Nem muitas vezes para a doença. Ter mais qualidade humana, não é condição que se exija. Vivemos numa sociedade de atropelo e mentira. Felizmente há ainda quem esteja alerta e não caia nessa ratoeira, mas é preciso estar em permanente vigilância o que é extremamente cansativo, desgastante. 

Ana Zanatti
Ana Zanatti reflete com elegância e estilo Foto:

O que lhe ensinaram sobre beleza ao crescer? Como foi e qual é a sua relação com a sua imagem? 

A beleza e a harmonia andavam muito de mãos dadas. Na minha infância e adolescência, e no meio em que fui educada, a beleza da mulher assentava também numa certa discrição. Uma rapariga ou mulher que desse muito nas vistas, era frequentemente olhada com alguma desconfiança quer fosse pela aparência exterior, quer por ter um forte carácter, e personalidade vincada. Essas mulheres assustavam as outras, e também os homens embora muitas, fossem alvo do seu desejo. 

Lembra-se da primeira vez que notou, ainda que subtilmente, um sinal de envelhecimento no seu rosto ou no seu corpo? 

Não, não me lembro de um dia em especial. Vejo sempre menos rugas do que as que tenho.  

Considera que privilegiam as atrizes e apresentadoras mais novas e que excluem as mais velhas?  

Sem dúvida. Basta olhar para os écrans e ver a quem são distribuídos os papéis de maior relevo ou interesse. Basta ver os inúmeros actos de cirurgia ou injecção de produtos, para perceber que muitos actores e actrizes temem deixar de ser convidados pela sua idade e aparência física. Basta ver programas de entretenimento e os telejornais para perceber que eles, os jornalistas e apresentadores, podem ter cabelos brancos, rugas, estômago proeminente, mas elas são de preferência loiras, magras e sem rugas. 

Passou muito tempo em frente às câmaras. Como era a sua relação com elas?  

Com as câmaras em geral era pacífica, mas preocupava-me a iluminação. Durante anos tive a sensação de que se iluminava mal. Falta de criatividade e flexibilidade na forma de iluminar, parecia que alguns técnicos tinham aprendido que em determinado espaço se usava o valor x, e tanto fazia quem lá estivesse. Ora nem todas as caras e situações pedem a mesma iluminação. 

Já passou por vários períodos e mudanças centrais na vida da mulher: adolescência, fase adulta, menopausa. Qual o mais difícil?  

A adolescência foi talvez aquela em que mais sofri e fiz sofrer os meus pais.  

O envelhecimento aproximou-a mais do seu verdadeiro eu - ou obrigou-a a confrontar-se com ele?  

Desde há muito que tenho a preocupação de ser fiel a mim mesma, de não me afastar demais da minha essência. Vivemos em sociedades que nos desviam de nós, que nos desmembram. Tudo isso é muito desgastante. Sociedades focadas no sucesso a qualquer preço, na competitividade, nos valores materiais em detrimento dos valores do espírito. Esse precioso eixo interno, essa consciência de nós, que nos ajuda a não nos perdermos. A passagem dos anos trouxe-me a sabedoria para não perder o rumo embora frequentemente me veja metida em demasiadas tarefas que me trazem momentos de desorientação.   

Qual a coisa mais fabulosa em ter 76 anos? 

Chegar aqui com saúde mental e física. E ter 76 anos e não me sentir velha. Há dias cruzei-me com esta frase de um autor cujo nome não retive, mas pressinto, que neste campo,  é o meu lema: “A idade não é pretexto para sermos velhos”.

Créditos

Fotografia: Ricardo Santos

Realização: Cláudia Barros

Assistente de realização: Tita Mendes

Maquilhagem e cabelos: Alex Origuella

Assistente de maquilhagem e cabelos: Jenny Helen

Video: Rui Anjos e Cris Andrade

Agradecimentos: Gleba

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