Apropriação cultural ou falta de contextualização? Entrevista à Parfois sobre a coleção SS26
Numa altura em que a moda é cada vez mais escrutinada, as novas propostas da marca portuguesa levantam questões que vão além da estética.
Quando uma coleção é criada, existe todo um processo que acontece nos bastidores e uma vasta equipa que trabalha para a tornar realidade. Ainda assim, há certos elementos ou aspetos que chegam às mãos do público - um público cada vez mais exigente e consciente do que compra e veste - e que acabam por ser analisados ao detalhe. Muitas vezes, essa análise leva à descoberta de referências culturais profundamente enraizadas numa peça, referências essas que, por vezes, nem toda a equipa da marca identificou ou antecipou.
Recordemos o caso recente da Prada, gigante da indústria da moda, que apresentou na coleção masculina primavera/verão 2026 umas sandálias inspiradas nas Kolhapuri - sandálias tradicionais indianas. A peça gerou indignação, e com razão, junto do público, que acusou a marca de apropriação cultural. Mais tarde, a Prada acabou por se desculpar em comunicado e, após cancelar a produção dessas sandálias, criou um novo modelo em colaboração com uma marca indiana.
Toda esta reflexão surge a propósito da reação que tive - e que acredito não ter sido infundada - ao ver a nova coleção da Parfois. Vivemos numa altura em que certas culturas estão mais do que habituadas a serem exploradas pela indústria da moda, o que naturalmente gera um olhar mais atento e, por vezes, desconfiado. Foi precisamente por isso que, após essa primeira impressão, procurámos falar diretamente com a marca, numa tentativa de compreender melhor a narrativa e a intenção por trás da coleção.
Segundo representante da Parfois, esta coleção inspira-se nas mulheres portuguesas do passado, incorporando referências à cultura nacional e cruzando-as com tendências contemporâneas das passerelles internacionais - como Alaïa, Dior, Dries Van Noten ou Jacquemus. Indo mais a fundo, as peças de primavera/verão 2026 têm como ponto de partida "a tradição portuguesa e, mais concretamente, a cultura atlântica", explicam em entrevista à Máxima.
Mais especificamente, a marca aponta para referências como os carnavais de Podence (Entrudo Chocalheiro) e os Cigarróns do entroido de Verín, na Galiza - universos onde, como sublinham, "o som, o movimento e a energia coletiva são protagonistas".
A Festa de Carnaval dos Caretos de Podence, reconhecida como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, é celebrada na aldeia de Podence, no município de Macedo de Cavaleiros, em Bragança. Trata-se de uma prática ancestral associada ao fim do inverno e ao início da primavera, profundamente ligada aos ciclos agrários. Entre o Domingo Gordo e a Terça-Feira de Carnaval, a aldeia - considerada uma das mais coloridas de Portugal - enche-se de vida com os Caretos, figuras mascaradas que percorrem as ruas num ritual de origem pagã, marcando simbolicamente a transição entre ciclos.
Os trajes dos Caretos são compostos por fatos vibrantes com franjas, chocalhos à cintura e máscaras metálicas - elementos que encontramos reinterpretados na nova coleção da marca. A Parfois confirma essa tradução estética, referindo que estes códigos "se traduzem no design através de peças que evocam dinamismo e expressividade: detalhes metálicos, movimento nos acessórios e uma sensação constante de celebração".
É também interessante notar que estes códigos visuais podem ser encontrados em outras culturas, o que pode gerar leituras cruzadas. A própria marca reconhece essa possibilidade: "Estamos cientes de que certos códigos estéticos podem ser encontrados em diferentes culturas", explicam. Ainda assim, é precisamente neste ponto que a discussão se torna mais complexa. Em várias peças - nomeadamente na bijutaria - surgem elementos como brincos de grande dimensão, anéis de pé ou pulseiras de tornozelo, acessórios que não fazem parte de forma evidente da tradição portuguesa, mas que são facilmente associados a outras culturas, nomeadamente a indiana. Essa proximidade estética pode justificar a reação inicial de estranheza - ou até de crítica - por parte do público.
Consciente desse tipo de leituras, a Parfois defende que o trabalho foi desenvolvido a partir de uma lógica de proximidade e autenticidade: "Como marca portuguesa, entendemos as nossas coleções cápsula como uma oportunidade para regressar às nossas raízes e valorizar o património local", explica à Máxima. Nesse sentido, refere também colaborações com artesãos (como a coleção de carteiras de ráfia da Comporta) e projetos ligados ao saber-fazer nacional, numa tentativa de "exaltar a riqueza da tradição artesanal portuguesa".
No seu todo, a coleção apresenta uma forte componente artesanal, com algumas peças em pele - focando no calçado - produzidas em Portugal por artesãos que trabalham manualmente cada detalhe. Há também uma ponte clara com a contemporaneidade: casacos de napa que regressam como tendência, bem como vestidos cujas silhuetas evocam os aventais tradicionais portugueses, reinterpretados numa linguagem atual.
A ideia de encontro e partilha - central à campanha - materializa-se também nos materiais e acabamentos. Como explicam, "esta ideia traduz-se através de uma combinação de elementos muito táteis e expressivos", desde "detalhes metálicos - inspirados nos sinos e guizos -" até "franjas que conferem dinamismo", criando peças que apelam tanto ao movimento como à dimensão sensorial.
Para dar a conhecer esta coleção, a Parfois apresenta a campanha The Table After, inspirada no ritual da sobremesa - aquele momento em que se permanece à volta da mesa, em que a conversa continua e o tempo abranda. "O conceito de sobremesa, entendido como aquele momento de encontro, celebração e prazer partilhado, liga-se diretamente à nossa principal fonte de inspiração", explicam, acrescentando que a coleção procura captar "esse espírito de convívio e diversão". Essa dimensão é amplificada através de colaborações artísticas e musicais que, segundo a marca, surgem de forma orgânica: "Não se trata apenas de acompanhar visualmente a coleção, mas de construir uma atmosfera que reforce a ideia de encontro, celebração e comunidade".
No entanto, permanece uma questão pertinente - e talvez inevitável - na moda contemporânea: até que ponto a intenção é suficiente para garantir uma leitura clara das referências?
Se, por um lado, existe um esforço evidente da marca em ancorar a coleção na tradição portuguesa e em trabalhar com artesãos locais, por outro, a presença de códigos visuais globalmente partilhados - em especial na área dos acessórios - abre espaço a interpretações que escapam ao controlo criativo. E isso diz tanto sobre a coleção como sobre o momento cultural em que vivemos: um tempo em que o público não só observa, mas questiona, cruza referências e exige contexto.
Talvez, mais do que uma resposta definitiva, esta coleção da Parfois funcione como um exemplo claro dessa tensão - entre inspiração e apropriação, entre intenção e perceção. E, nesse sentido, o gesto de procurar explicar, contextualizar e dialogar com o público torna-se, hoje, tão relevante quanto o próprio objeto de moda.
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