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O mistério do primeiro look

Numa altura em que nos lançamos nas coleções de primavera/verão descodificamos, com a ajuda de alguns criadores, um dos elementos mais importantes dos desfiles: o primeiro look a entrar em passerelle.
Por Carolina Carvalho, 10.03.2017
Tal como o armário que C. S. Lewis criou nas suas crónicas de Nárnia, também as portas dos desfiles de moda, quando se abrem, devem transportar o seu público para mundos paralelos. Algumas marcas apostam na criação de cenários inesperados, outras numa simples passerelle rodeada de cadeiras para os convidados. Quando todos os lugares estão ocupados, põem-se os telemóveis em posição, faz-se silêncio e tudo começa com a primeira modelo a entrar em cena, como se de um espetáculo se tratasse. A primeira modelo traz o primeiro look da coleção que está prestes a ser mostrada e a responsabilidade de, quase como uma mestre de cerimónias, fazer a melhor introdução possível.

Este primeiro look deve ser, então, realmente importante! Michael Kors explica à Máxima: "É muito importante. O primeiro look deve resumir o mood geral da estação, mas também causar um forte impacto. Não é tarefa fácil. É preciso que tudo funcione junto: o cabelo, a beleza, as roupas, a rapariga, a música, é isso que cria o mood e é assim que a magia da moda acontece." Sendo assim, pedimos ajuda a alguns criadores para perceber a sua importância e reunimos na galeria em cima alguns dos mais relevantes primeiros looks das coleções para esta primavera/verão 2017.
 
Como uma história
Uma coleção de moda é como uma história. Tem inspirações, personagens, por vezes até tem cenários e tem, com certeza, uma banda sonora, e cada criador escolhe como contar a sua. Nas palavras do porta-voz da casa Salvatore Ferragamo, destaca-se precisamente esta ideia: "O primeiro look de um desfile é como a primeira linha de um livro ou os primeiros segundos de um filme: estabelece o mood de toda a coleção, é um statement, uma revelação. É o momento mais entusiasmante do desfile, quando a música começa, as luzes ligam-se e o desfile tem início…" Como confirma também Ian Griffiths, diretor criativo da Max Mara: "Eu começo a pensar no desfile como uma peça de teatro, a contar uma história. O cenário, a música, as roupas e a beleza, todos contribuem para a narrativa. Todas as decisões sobre o primeiro look derivam da história – como as primeiras falas de uma peça, criam uma expectativa."

Na Lacoste, explicam-nos a química do primeiro look, ilustrando com o exemplo da própria marca. "O primeiro look de um desfile sintetiza o início de uma nova história. Se pensarmos na Lacoste, ao longo dos seus mais de 80 anos, sabemos que é uma marca francesa que combina desporto com elegância descontraída. A cada estação procuramos, a partir dos arquivos da marca, reavivar esse espírito, homenagear a criatividade única de René Lacoste e contar uma nova história através do seu icónico polo." E acrescenta: "Um desfile concretiza uma atmosfera que nunca pode ser alheia ao tema da estação e aos códigos e valores da marca. Sendo o primeiro look uma síntese, ele deverá resumir o essencial da coleção e todos os elementos que o compõem foram propositadamente escolhidos e harmonizados nesse sentido."
Na Max Mara, o criador destaca a importância de saber manter o interesse do público ao longo de toda a apresentação. Ian Griffiths diz que é importante manter o fator-surpresa e saber gerir os conteúdos da coleção: "O primeiro look prepara todo o desfile. Tem de haver algo de intrigante nele. Levanta questões para que quem assiste preste atenção ao que se segue para encontrar as respostas. É uma má jogada dar logo tudo no primeiro look." É claro que, ao contrário de um jogo de futebol, ninguém se vai levantar e sair a meio de um desfile. Os cerca de 20 minutos de duração, em plena semana de moda, são tempo bem empregue para quem espera meses para conhecer as novas propostas de uma marca em primeira mão. Mas no meio de um calendário tão preenchido em que os desfiles se sucedem nas diferentes capitais da moda, as marcas sentem a pressão de fazer a diferença e dar ao seu público uma apresentação memorável.
 
Muito além da roupa
Mais do que simples passagens de modelos, os desfiles são verdadeiros acontecimentos. Alguns talvez cheguem mesmo ao patamar artístico de um happening… Para a história ficam os desfiles que Christian Dior fazia no quartel-general da marca, no n.º 30 da Avenue Montaigne, em Paris, onde salões e escadarias eram invadidos pelas clientes da época. Da década de 1950 para hoje mudou-se o contexto e também as ferramentas, mas um lugar nestes eventos continua a ser muito, muito cobiçado.

Depois de ter levado os seus convidados para locais inesperados como um supermercado ou um terminal de aeroporto, através de cenários criados sob a cúpula do Grand Palais (Paris), no mais recente desfile da maison Chanel (outono/inverno 2017/18), o mesmo espaço inspirou-se numa central espacial e houve mesmo um foguetão que levantou do chão. Outro exemplo é a casa Fendi, que celebrou o seu 90.º aniversário com um desfile de alta-costura (outono/inverno 2016) sobre a Fonte de Trevi, em Roma, e a primeira a "caminhar sobre a água" foi Kendall Jenner, uma das modelos mais requisitadas do momento, que goza também do título de it girl.

No primeiro look, também é importante a modelo que dá vida às criações da marca. Como nos explicaram na casa Versace, as modelos não são apenas mulheres bonitas, elas têm uma personalidade e vestem uma personagem que incorpora as características fundamentais da marca. Já na Lacoste, procuram "sempre um casting que represente a diversidade e elegância descontraída de uma marca global, onde o desporto e a vida ao ar livre desempenham um papel fundamental, sem nunca esquecer um forte sentido de contemporaneidade estética", elucidando-nos assim sobre a importância da escolha do conjunto das modelos que vai apresentar a coleção.

"As modelos são uma parte fundamental da narrativa – como atrizes mudas, elas expressam o mood sem palavras. Pensamos em quem vamos escolher no casting quando estamos a montar o look. Normalmente, há uma rapariga que incorpora perfeitamente o mood da estação", diz o diretor criativo da Max Mara. No fundo, muito mais do que um rosto e uma silhueta bonita, as próprias modelos são, também elas, símbolos de um estilo e fenómenos de popularidade. Depois da elevação ao estatuto de celebridades que as supermodelos dos anos 90 tiveram, hoje são as redes sociais que funcionam como rastilhos para a fama e ajudam a criar verdadeiras legiões de seguidores que tornam algumas das modelos mais famosas do momento muito desejadas pelas marcas.

Como nos dizem na casa Salvatore Ferragamo, "a modelo é tão importante como o look que está a usar. Têm de ser a personagem ideal para representar a coleção e têm de conseguir comunicar os valores da coleção com a sua personalidade e atitude". E Michael Kors sublinha esta ideia, rematando: "Eu adoro uma modelo com personalidade, com um ponto de vista, porque dá vida às roupas." Passam os anos e as tendências, mas um desfile continua a ser como um banquete de moda que procura provocar o desejo e o primeiro look é o poderoso aperitivo que cria água na boca.
 
Carolina Carvalho
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