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Novos talentos da joalharia portuguesa: Beatriz Jardinha

A tradição da joalharia em Portugal não é o que era. A uma arte antiga no masculino juntou-se a energia de uma nova geração feminina com ideias novas. O resultado são estimulantes projetos de empreendedorismo e de criatividade. Convidámos joalheiras a posarem com as suas peças e a partilharem as suas histórias. Beatriz Jardinha é uma delas. Fotografia de Ricardo Lamego. Styling de Marina Sousa
Por Carolina Carvalho, 22.11.2019

Com um sorriso sempre aberto, Beatriz Jardinha esclarece que nunca planeou o que quer que fosse e que esse é o ponto transversal a todo o seu percurso. As coisas foram-lhe acontecendo, explica. E com o tom descontraído de quem conta uma história, levou a nossa conversa por uma viagem pelo mundo e pelos anos mais recentes da sua vida. "Eu lembro-me de ter dito à minha mãe que nunca tive nenhuma ambição de profissão a seguir. Só quero estar feliz e isso dá-me muita liberdade." Beatriz, de 29 anos, é de Lisboa. Quando entrou para a licenciatura em Design de Moda, na Faculdade de Arquitetura de Lisboa, a ideia era estar ocupada até poder estudar para ser piloto de avião. Rapidamente os planos mudaram, sobretudo quando os estudos a levaram para o Brasil. "Fui para o Rio [de Janeiro] com 18 anos e isso mudou a minha vida." De regresso a Portugal, o objetivo foi acabar o curso para voltar a atravessar o Atlântico, mas começou a trabalhar como designer gráfica numa empresa de e-commerce e depois partiu numa viagem pelo Alentejo, à boleia de uma paixão por lavores e trabalhos manuais para aprender técnicas.
Em Londres, ao abrigo de uma bolsa, fez um estágio com Faustine Steinmetz, na Índia viveu durante dois meses com uma família cigana em Pushkar, cidade no meio do deserto e muito rica culturalmente, a aprender técnicas para trabalhar com missangas. Quando as temperaturas chegaram aos 50 graus centígrados partiu para os Himalaias, desta vez para aprender a trabalhar com pratas numa pequena loja nas montanhas, conhecimentos que foi explorar no Peru, numa aldeia perto de Machu Pichu. "Eu sou muito fascinada com o ser humano e com a sua capacidade de criação. Uma coisa que admiro, tanto nos etruscos como nos bizantinos, e na experiência que eu tive, agora, quer nos Himalaias quer no Peru, é o facto de ser natural do ser humano esta ‘vaidosice’ e a vontade de querer embelezar. Mesmo em sítios muito isolados e pobres, os povos são muitíssimo vaidosos. Toda a gente tem pulseiras e brincos e preocupam-se em estarem pintados. Os homens também. Em qualquer ponto de autocarro há bugigangas à venda. Essa vontade de enfeitar é muito genuína. É maravilhoso. [Na nossa sociedade] existe uma vergonha em sentir vontade de se estar mais bonito."
De regresso a Lisboa, Beatriz foi convidada pelo criador João Magalhães a criar joias para acompanhar a coleção de moda que fez desfilar na edição da ModaLisboa de março passado. No ambiente caseiro do próprio quarto e com um kit de ferramentas vindo da Índia nasceram cerca de 25 peças que se revelaram um sucesso. "A joalharia satisfaz-me. É uma coisa que vejo a acontecer. Com o projeto do João [Magalhães], o bom feedback que eu tive levou-me a decidir que me ia dedicar à joalharia." Neste momento, Beatriz Jardinha está a estruturar uma marca, diz sentir-se uma artista e quer manter o diálogo que existe entre a sua identidade e as suas peças. "Gosto do desafio de alguém chegar com um pedido e eu poder fazer a leitura da pessoa e a interpretação [desse pedido]. Eu gostava de trabalhar num registo de autor, mas também ter uma linha mais simples e acessível às pessoas." Diz que a sua maior preocupação é estar em paz e ser feliz. Gosta de viver um dia de cada vez e a verdade é que as oportunidades lhe têm aparecido. Gostar de sair e de conviver com os amigos valeu-lhe uma rede de conhecimentos e de "passa a palavra" que tem contribuído para a divulgação das suas criações, o que se começou a revelar quando usou brincos seus, criados com as técnicas de trabalhar missangas que aprendeu na Índia, nos casamentos das amigas. Além destas contas coloridas, a prata e as pedras são os materiais que gosta de trabalhar e sobre os quais mais sabe. No entanto, confessa ter projetos para introduzir tecidos e bordados nas suas criações. (beatrizjardinha.com)

Fotografia de Ricardo Lamego. Styling de Marina Sousa

Maquilhagem: Elodie Fiuza. Cabelos: Luzia Fernandes. Assistente de fotografia: Ana Viegas. A Máxima agradece o apoio do Teatro Thalia 

Tags: joias joalharia portugal nacional design creatividade
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