Podem uns ténis contar a história de uma Itália que quase nunca aparece na moda?
Num mercado saturado de colaborações, a união entre a Veja e a Magliano lembra-nos que ainda é possível surpreender - quando para lá da forma há conteúdo.
Foto: DR25 de fevereiro de 2026 às 12:51 Patrícia Domingues
"Poderá a Magliano tornar-se a próxima heritage brand italiana"? Estávamos em 2023 e o mundo acabava de conhecer o nome de Luca Magliano com a entrega do Prémio Karl Lagerfeld, da LVMH. Para os comuns mortais, uma distinção tão ilustre seria suficiente para colocar uma marca no mapa. Mas para o 'velho' exigente (e meio snob vá) mundo da moda este era apenas o início de um triatlo de estilo. Três anos depois, a resposta à pergunta da Vogue norte-americana ainda está em aberto, mas provavelmente envolverá menos etiqueta e mais ténis. A colaboração com a Veja sugere que a verdadeira herança da marca não se mede em história ou preço, mas numa visão estética que habita a fronteira entre periferia e high fashion.
Este parece ser, aliás, o mote da nova geração de criativos italianos. Dando prioridade ao aprofundamento da tradição artesanal, e sem nunca se guiarem pelo desejo de 'estar na moda' (ou de quererem ser a próxima Gucci), a força destes nomes reside na criação de um produto bem-feito, naquele limbo estético entre a intemporalidade e a coolness. Fundada pelo deisgner de 30 e poucos anos Luca Magliano em Bolonha, a Magliano constrói o seu universo a partir de paisagens periféricas, realismo mágico e uma estética que desconstrói o clássico. Pertencente a uma geração de cosumidores que quer saber o boletim de voto das marcas que veste, também Luca deixou claro desde cedo o seu posicionamento. “A moda é uma coisa, mas o estilo não pertence às pessoas que têm dinheiro… Para mim, é uma questão de classe”, dizia à Showstudio ainda em 2023. Esta perspetiva (e esta escolha direta de lados) revela a vedadeira essência da marca: humanidade, ironia e autenticidade acima de qualquer ostentação.
PUB
Podem uns ténis contar a história de uma Itália que quase nunca aparece na moda?
1/3
Ténis unem moda e história italiana num só artigo
Ténis pretos da Veja com atacadores amarelos e o logótipo da marca
Ténis rosa da Veja homenageiam a Itália com design e materiais sustentáveis
A parceria com a francesa Veja transforma este manifesto social em objeto. O icónico Panenka deixa de ser apenas um modelo de ténis de futebol vintage e torna-se um campo de jogo entre cultura e moda. Língua dobrada, amarração assimétrica, três pares de atacadores são o tipo de detalhes que transformam funcionalidade em excentricidade (e que tornam uma colaboração destas interessante). Três cores - preto, branco e rosa - reforçam a narrativa de contrastes que define ambas as marcas. Além do mote unissexo que praticamente inaugura a descrição do modelo, no comunicado oficial enviado pela marca.
A Veja, conhecida pelo compromisso ético e produção sustentável, não é apenas fornecedora. É cúmplice deste gesto de estilo e consciência. Se Carrie Bradshaw calçasse uns ténis (e a fazê-lo provavelmente seriam estes), não deixaria de se interrogar: será esta collab um manifesto sobre margens, deslocamento, identidade? É acima de tudo sobre uma Itália invisível, que existe para quem olha, sente e veste com intenção. Quando “Made in Italy” corre o risco de se tornar apenas um selo de preço, a Magliano propõe uma alternativa; uma herança de olhar, atitude e provocação, em que o clássico é desconstruído, o género é fluido e a moda se torna um espelho da humanidade. O Panenka, sob esta lente, deixa de ser apenas um par de ténis e transforma-se num pequeno tratado sobre quem somos, onde estamos e como escolhemos expressar-nos.
Foto: DR1 de 3 /Veja x Magliano
PUB
Foto: DR2 de 3 /Veja x Magliano
Foto: DR3 de 3 /Veja x Magliano
A própria coleção primavera/verão 2026 da Magliano, na qual estes ténis já desfilaram, parte de uma inspiração improvável para a moda, momentos sabáticos, campismo e a vida nómada. Essa influência traduz-se em peças que parecem estar a caminho de algum lugar, não simplesmente expostas numa passerelle. As formas da coleção são soltas, adaptáveis e pensadas para mover-se com o corpo - como se a roupa não fosse apenas vestir, mas acompanhar uma jornada. Em época de fashion weeks (e uma crise assumida em algumas delas), talvez este represente um novo caminho para a moda: não o das capitais do luxo, mas o que existe nas bordas, nos detalhes e na sensibilidade de quem sente. E o de quem os calça como quem pisa terreno novo.
Esta estação das semanas de moda revelou os resultados de várias reviravoltas nas grandes maisons. Uma delas foi a nova direção criativa da Gucci por Demna Gvaslalia, anteriormente na Balenciaga, que optou por apresentar uma nova era através de uma curta-metragem, “The Tiger”, em vez de um desfile tradicional. O Dicionário de Estilo desta semana explica-nos tudo.