Quantas vezes ficamos especadas a olhar para o armário e a pensar "não tenho nada para vestir”? É uma pergunta retórica, quando, na verdade, já não conseguimos pendurar nem mais um casaco no armário de tão cheio que ele está, as gavetas da cómoda já não fecham com tantas blusas (todas iguais, claro) e a realidade é que já nem sabemos bem aquilo que temos dentro do armário e das cómodas. Porquê? Porque é mais fácil pensar "não tenho para vestir" e correr para as lojas online para comprar um look novo. E onde é que o vamos "enfiar" depois? O problema está aí. Parece que a típica frase “não tenho nada para vestir” é mais "tenho demasiado roupa e não sei como a usar". Como é que vamos resolver isso? Com as dicas infalíveis que a stylist e personal shopper Helena Assédio Maltez deu à Máxima.
É normal sentirmos que não temos nada para vestir, mesmo quando temos o armário cheio de roupa? "'Não tenho nada para vestir' é mais um sintoma do que uma realidade", começa por explicar. Claro que a logística tem a maior importância: armários demasiado cheios, roupas que nunca foram usadas e demasiado apego, complicam. "A falta de tempo e segurança de saber o que gosta de usar e como vestir, a falta de um estilo próprio e demasiado ruído visual das redes sociais, criam caos. Ou seja, a pouca organização cria a sensação de que faltam coisas… e uma constante insatisfação e frustração."
Com a crescente evolução das redes sociais, o boom das influencers, a facilidade em comprar online e, consequentemente, o erro da comparação e a necessidade de ter o que as outras pessoas têm ('estar na moda e acompanhar as tendências'). Será este 'problema' mais comum hoje do que há 10 ou 20 anos atrás? Segundo a expert de moda, este problema sempre existiu - só teve tendência a piorar. "A facilidade da compra cria uma adição ao novo, e as redes sociais criam uma vontade constante, por comparação, de querer mais e mais perfeição. Só que essa perfeição não se encontra a somar peças, há que haver organização, inspiração, senso comum e, acima de tudo, uma linha condutora do estilo de cada pessoa."
Na opinião da stylist Helena Maltez, a desconexão emocional com a roupa é real e pode mesmo vir a tornar-se um problema de consumismo. "A desconexão emocional com as peças de roupas é um fenómeno de geração - claro que existem muitas pessoas que dizem que 'não ligam' e isso é real -, mas, os que compram muito, sem critério, sem estilo próprio é que em geral não sentem qualquer ligação emocional com peças de roupa nem com qualquer objeto em especial. Essas pessoas também não valorizam o design, a mestria ou o valor das peças, é-lhes indiferente, não valorizam a qualidade." O ser humano tem uma facilidade muito grande em associar objetos a momentos ou pessoas e, com as peças de roupa não é diferente: "'A roupa é a coisa que mais perto está dos seres humanos', disse Issey Miyake. Quando se vive algo intensamente, a memória está ligada ao que se trazia vestido. Se a memória não for boa, jamais tornaremos a usar a mesma coisa, irá trazer sensação de má sorte. Se a memória for boa, em geral, não se consegue separar e libertar essa peça do nosso armário, ou melhor, da nossa vida", reflete Helena.
Ok, todos estamos cientes do problema, então como podemos reverter a situação? Como é que podemos comprar de forma mais intencional e evitar acumular peças? "Quando precisamos, porque podemos e, temos um plano de organização e estilo", explica Helena à Máxima. Muitas vezes não é a falta de roupa que nos faz repetir vezes sem conta 'não tenho nada para vestir'. A resposta pode já estar mesmo dentro do armário: "Um armário desorganizado é sinal de vida desorganizada, logo: é sinal de falta de tempo, acrescenta stress e atrapalha um visual adequado".
'Roupas a mais e ideias a menos' - um sinal evidente da desorganização em que se encontra, muitas vezes, o nosso armário. A Máxima pediu à especialista em stylist que nos dissesse por onde devemos começar o processo de organização quando temos essa sensação: "Deve-se começar por fazer o exercício de colocar de parte peças que já não se usam, que não nos servem, que estão demasiado usadas, ou seja, libertar os armários, as emoções e praticar o desapego." O resultado? Uma sensação de alívio. E a partir daí, ter uma plano de visual de um guarda-roupa cápsula.
Não deixámos de parte a pergunta do momento: enquanto stylist e personal shopper, qual é a sua opinião sobre a compra em segunda mão? "Pode-se comprar pela questão financeira de adquirir por um peço mais razoável. Ou adquire-se pela paixão pelo estilo e pelas peças vintage, mas isso é outra coisa. Acho que neste momento passou a ser um fenómeno mascarado de sustentável e o que observo, é que por vezes acontece só porque é ser “tendência” e não por ser sustentável."
Para evitar compras impulsivas, consumismo e acumulação de peças sem significado no armário, Helena reforça algo que talvez não queriamos ouvir: devemos aprender a apreciar o que vivemos e logo o que temos. "Traçamos um plano, e com a informação que deixei ao longo destas perguntas, a resposta está lá. E como eu, existem pessoas que profissionalmente ajudam e resolvem esse plano de organização e estilo. Com muito respeito pela entidade de cada um."