Enquanto esperamos que a economia dê a volta, a moda toma a iniciativa e traz-nos um sopro de mudança com um significado social e cultural que merece atenção primeiro e reflexão depois.
Estilo: Uma nova esperança
08 de outubro de 2013 às 06:00 Máxima
O exercício exigia mão firme e olho fixo. Não era fácil imitar a costura das meias ao longo de toda a perna com um lápis para olhos. Esta ideia requeria sobretudo criatividade mas, durante e depois da II Guerra Mundial, as mulheres depressa se habituaram a encontrar soluções para as pesadas medidas de austeridade que também chegaram à moda. O racionamento do tecido e a necessidade de desenvolver uma silhueta prática definiram as tendências da década de 1940. As saias nunca tinham sido tão curtas e os cortes rigorosos em linhas direitas só permitiam usar uma quantidade limitada de tecido. O mundo ocidental estava em mudança e, mais uma vez, a moda refletiu o contexto socioeconómico que a rodeava e até ajudou a escrever a história, como prova a obra de autores como Polhemus. Talvez estas características ajudem a explicar a forte influência que a moda dos anos 40 tem nas coleções deste inverno. Ora vejamos.
SENSIBILIDADE E BOM GOSTO
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As tendências passam, as ocasiões mudam mas, para algumas mulheres, o resultado final é sempre perfeito e, para quem vê, até parece fácil. Para combinar na perfeição roupas, acessórios, escolhas de beleza e ainda ter um carimbo pessoal, a maioria de nós precisaria de uma fada madrinha, mas elas não. São elas as experts na arte de bem vestir!
Os cenários de desfiles, como o enorme sol com uma intensa luz amarela que iluminou os primeiros looks de Marc Jacobs, em Nova Iorque, e o gigantesco globo terrestre que a Chanel instalou no centro do Grand Palais, em Paris, já deixavam antecipar uma mudança de pensamento. E agora que nos debruçamos sobre as tendências gerais que as propostas dos criadores desenharam, é notória a presença de silhuetas rígidas e uma certa tendência para o minimalismo com linhas simples e texturas despojadas, levando a crer que estamos a caminhar para o início de uma nova era. De Nova Iorque começaram cedo a chegar sinais: as coleções de Alexander Wang e Proenza Schouler partilham uma paleta de branco, preto e cinzas, uma silhueta retangular e um look frio e austero, embora o sport chic do primeiro também contraste com a feminilidade dos segundos. Muito fiel a si própria, Prada voltou a marcar a semana de Milão. Os tweeds pesados em contraste com os delicados bordados culminam numa inspiração no film noir que resultou numa sensualidade dura, que convenceu a crítica.
A História tem-nos ensinado que os excessos da sociedade acabam por levar a um declínio e consequente início de um novo ciclo, muito mais despojado. As artes são as mais fiéis testemunhas desta narrativa. Se os excessos da corte francesa levaram a uma revolução que, no final do século XVIII, provocou mudanças em toda a Europa e substituiu o barroco pelo neoclassicismo, já o colapso da bolsa de 1987 acabou com a ascensão da cultura yuppie e de um luxo ostensivo. A década de 1990 preparava a chegada do novo milénio. A revolução nas tecnologias começava a abrir caminho para o domínio que hoje reconhecemos aos fenómenos das redes sociais e da blogosfera. Em ambos os casos, a moda aproveitou a onda: seja com desfiles em direto no Facebook ou com o alargamento da imprensa de moda a um grupo de bloggers que não para de crescer e impulsionou o mercado da moda com uma velocidade alucinante. O lugar nas primeiras filas dos desfiles e acesso aos showrooms traduz-se em posts imediatos com uma rede de comentários mundial e seguidores cada vez mais sedentos de informação e novidades. Uma coleção é divulgada (e até dissecada) por um crescente número de pessoas muito antes sequer de chegar às lojas.
Também é verdade que o excesso de informação nos torna mais seletivos. Compramos menos, mas escolhemos melhor. Não é por acaso que os produtos de luxo de moda tiveram um aumento de preço significativo na última década, como prova o artigo Fashion Inflation: Why Are Prices Rising So Fast? publicado no site BoF (BusinessOfFashion.com). A razão apontada como principal é “o facto de haver simplesmente mais pessoas com capacidade para pagar”. E a verdade é que, como também referem, “quanto mais cara uma peça é, mais exclusiva e, portanto, desejável se torna”.
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MORE IS MORE
Algumas mulheres têm o dom de transformar a escolha de um look numa ocasião digna de ser noticiada pela imprensa especializada. Sempre surpreendentes, não se mostram condicionadas pelas tendências da moda e exibem atitude suficiente para fazer as maravilhas dos fotógrafos. Mas quando as semanas de moda acabam fica a pergunta: será que uma pessoa consegue ser sempre (naturalmente) excêntrica? Sim, elas conseguem!
Uma das tendências desta estação aposta, de facto, no luxo não ostensivo, onde o segredo está na qualidade da confeção, no rigor do corte, nas propriedades do próprio material e naquilo que cada casa de moda representa, subliminarmente. Na década de 1930 sofriam-se as consequências do crash de 1929 e os criadores de moda da época estavam decididos a comunicar aquilo que achavam ser o mais importante. Para Chanel era fundamental ser prática, por isso apostou nas roupas em malha e que permitissem a liberdade de movimentos, mas para Schiaparelli o luxo estava na criatividade e, ainda hoje, os seus modelos, como o chapéu em forma de sapato e o vestido cheio de gavetas, são inspiradores. Nesta estação, ambas as marcas estão em grande: Chanel celebra os cem anos da abertura da primeira loja e Schiaparelli ressuscitou não só para o pronto-a-vestir como também para a Alta-Costura, com uma coleção desenhada por Christian Lacroix.
Quanto às grandes apostas deste inverno, o casaco é a peça em destaque, partilhando uma inspiração retro em diferentes casas. No desfile de Burberry Prorsum, o clássico trench-coat manteve a sua silhueta retangular mas vestiu-se de vários materiais, numa seleção de peças glamorosas que seriam indispensáveis num remake de Casablanca. Louis Vuitton Marc Jacobs explorou a ideia de “bem vestir para estar em casa” e apresentou maxi casacos em diferentes texturas, alguns até podiam ter sido inspirados em roupões de quarto. Já em Miu Miu o corte quase militar dos casacos foi dimamizado por padrões às bolinhas e cores fortes.
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As crises provocam momentos de mudança e aquela que estamos a viver está, sem dúvida, a mudar a forma como vemos, compramos e falamos de moda. As últimas estações têm-nos trazido explosões de cor, barroquismos, texturas ricas e até bastante humor. Porém, a tendência clean que invadiu algumas passerelles nesta estação faz-nos parar para pensar e olhar para trás. Estaremos realmente a viver um fim de ciclo? A diversidade que respiramos nos dias de hoje e a rapidez com que o fazemos permitem-nos beneficiar do melhor de todas as tendências, mas também nos confrontam com uma série de dejà-vus. A pergunta parece mais pertinente do que nunca: será que a interminável crise (e os muitos talentos que dominam o universo da moda) é capaz de criar algo verdadeiramente novo? É esperar para ver.