Carismáticas, belas e com estilo. São algumas das características das mulheres árabes que têm dado que falar por todo o mundo. Entre as tradições, as boas causas e os conflitos, elas têm trilhado novos caminhos sem deixar de piscar o olho à moda.
Estilo de rutura
07 de fevereiro de 2014 às 07:00 Máxima
“Em primeiro lugar, havia a questão do vestido de noiva. A secretária de Hussein tomou a decisão de encomendar um vestido à casa Dior, em Londres, e dois designers voaram para Amã com desenhos de requintados vestidos que eu jamais usaria. Eu queria que o vestido fosse muito simples, não extravagante. (...) O resultado foi um vestido branco de seda perfeitamente simples.” A rapidez com que a secretária do rei resolveu a situação prova-nos que muito antes de Lisa Halaby ter aterrado no mundo árabe para se tornar Noor da Jordânia e a primeira rainha americana daquela zona, já a fama das casas de moda ocidentais lá tinha chegado. Rainhas, princesas e primeiras-damas têm invadido a imprensa com o seu carisma e bom gosto. E não é por acaso: uma sensibilidade única para casar na perfeição as tradições dos seus países com o melhor da moda coincide (ou talvez não) com uma série de mudanças que estas mulheres lideram nos seus respetivos papéis. Já sabíamos que o mundo árabe está em mudança, mas poderá a moda ter contribuído?
Mozah bint Nasser al Missned
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Já alguns criadores de moda tentaram introduzir o turbante como uma peça tendência, mas ninguém fez dele uma sensação como Mozah bint Nasser al Missned, mulher do anterior emir do Qatar. Nunca antes dela uma mulher da sua posição tinha aparecido assim em público. Desde que acompanhou o marido a uma entrevista no programa 60 minutos na CNN, em 2003, até ao passado mês de junho, quando o seu segundo filho se tornou o novo emir do Qatar, passaram-se dez intensos anos de mudança. Dos Estados Unidos a Inglaterra ou Espanha, em cada visita de estado, ela destacava-se. A modelos de Alta-Costura e belas joias junta-se ainda o turbante (sempre a condizer), um dos elementos obrigatórios do seu look, dado o facto de ela só poder ter a cabeça descoberta quando está entre mulheres. Mozah é a segunda das três mulheres do anterior emir do Qatar e mãe de sete dos seus 24 filhos, mas as novidades que implementou não se resumem ao exotismo da sua imagem. Dizem que tem um pulso forte e, com o emir, desenhou um projeto de desenvolvimento do Qatar, que incluiu a criação da Qatar Foundation, dirigida por ela, que promove a educação, a ciência e a investigação. Mozah, formada em sociologia pela universidade do Qatar, é um exemplo e inspiração para as outras mulheres e até tem um site em nome próprio onde se pode ler: “Durante mais de 15 anos, sheikha Mozah tem sido a força motora por trás da educação e das reformas sociais no seu país.”
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Rania da Jordânia
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Contudo, o título de rainha da Internet cabe a Rania da Jordânia. Aos 29 anos, tornou-se a rainha mais jovem de sempre quando, em 1999, o seu marido, o príncipe Abdullah, sucedeu ao rei Hussein. Desde cedo soube bem o que queria fazer com do seu papel. Utiliza e domina como nenhum outro monarca as redes sociais e fez do Twitter um dos seus veículos de comunicação, tendo já alcançado os 2,8 milhões de seguidores. Já deu entrevistas a populares programas de televisão norte-americanos e é convidada para inúmeros eventos que partilham as suas causas. Não há quem a ofusque numa passadeira vermelha e no seu guarda-roupa moram modelos das mais famosas marcas de moda internacionais. Esta carismática rainha de uma notável beleza é mãe de quatro filhos, tem a seu cargo a Jordan River Foundation, é licenciada em administração de empresas no ramo da informática pela universidade americana do Cairo e tem feito do bem vestir uma arte e uma arma. No entanto, ao contrário do impacto positivo que esta rainha moderna causou no mundo ocidental, na Jordânia a sua interferência na gestão do país não é vista com bons olhos e há ainda o facto de o seu nome ter circulado pelo WikiLeaks. No artigo Rania en el Volcán, que a Vanity Fair espanhola dedicou à rainha em 2011, pode ler-se: “No verão de 2010, num ato sem precedentes, um grupo de oficiais do Exército, que jamais se havia posicionado politicamente, emitiu um comunicado recordando que a Constituição só atribuía poderes ao Rei, e que nenhum outro membro da Família Real tinha direito a intervir nos assuntos de Estado. Sete meses depois, 36 líderes dos clãs mais influentes do país divulgaram um comunicado onde advertiam para “a ostentação vergonhosa” da imagem pessoal da Rainha. O mundo estava de olhos postos na Primavera Árabe que varreu os líderes de alguns países e colocou tantos outros em sobressalto. Desde então, a rainha, que deslumbrava tanto em luxuosas criações Elie Saab como em modelos que primam pela sobriedade (como o vestido branco que usou na visita a Portugal), tem optado pela discrição.
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Asma al-Assad
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O que fazer quando o estilo ocidentalizado e atual destas mulheres árabes, de que a imprensa de moda tanto gosta, não está de acordo com a realidade do seu país? Aquela que podia ser uma arma para projetar as suas causas faz um inesperado ricochete. A primeira-dama síria nasceu em Londres em 1975 e casou-se com Bashar al-Assad no final do 2000, pela mesma altura em que este se tornou presidente da Síria. Elegante, bonita e com uma grande vontade de deitar mãos à obra, Asma al-Assad depressa despertou a atenção da imprensa e foi mesmo protagonista de um artigo na edição norte-americana da Vogue, Rose of the Desert (2011),que resultou numa grande controvérsia, dado o contexto em que o seu país mergulhava. Quando os conflitos na Síria começaram, o presidente foi rotulado de ditador e o bom gosto de Asma depressa passou a luxúria aos olhos de uma opinião pública que começou a exigir mais das suas funções. O paradoxo entre um povo em sofrimento e uma primeira-dama preocupada com a imagem causou todo o tipo de reações, entre elas um vídeo feroz e uma petição colocados online pelas mulheres dos embaixadores inglês e alemão nas Nações Unidas (em 2012): A letter to Asma al-Assad, onde exigiam uma reação por parte da primeira-dama. Tal nunca aconteceu.
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Lalla Salma de Marrocos
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Mas então e vice-versa? Estas mulheres que figuram nas listas das mais elegantes e bem vestidas do mundo trazem certamente um pouco da sua cultura para inspirar o ocidente. É o caso da princesa Lalla Salma de Marrocos com os seus caftãs, que tanto deram que falar nos últimos eventos que reuniram na Europa a realeza mundial. A revista Hello! realizou duas votação online para escolher a mulher mais bem vestida da coroação da Holanda, no passado mês de abril, e a princesa venceu ambas, tanto na cerimónia de investidura como no jantar prévio. Quando a vemos entre as restantes famílias reais a representar, sozinha, o seu país ou, em Marrocos, a receber chefes de estado no aeroporto com naturalidade, graciosidade e simpatia nem nos apercebemos da tamanha revolução que ela representa para a casa real marroquina. A primeira rutura com a tradição começou com o anúncio do noivado e, meses mais tarde, com o anúncio do casamento com o rei Mohamed VI, em 2002. Nunca antes o público tinha sido informado com antecedência do casamento de um monarca ou de pormenores da boda. Mas as mudanças não ficaram por aqui. O rei que a revista Time chegou a chamar de king of cool fez da sua mulher uma verdadeira protagonista da realeza marroquina e internacional. Além de ter rompido com a tradição do harém, nunca antes dela a mulher do rei tinha tido um título oficial, ou sequer sido fotografada.
Através das suas posições privilegiadas, ao lado de um chefe de estado, estas mulheres criaram uma ponte entre a moda ocidental e as tradições dos seus países que ajudou a fortalecer a sua imagem e também a dar mais impacto às suas causas, que privilegiam as crianças e as mulheres. Mas em sociedades mais fechadas ou que sofrem conflitos, o agitar das tradições requer alguma moderação e muita coragem.
O mundo está sem dúvida em mudança. Em comum, todas estas mulheres têm o islamismo como religião oficial, estudos avançados e um papel de relevo. Mas não esqueçamos que o seu protagonismo resulta não só do carisma e trabalho como também de um espaço que lhes foi dado por homens que, também eles, romperam tradições ao perceber que não é atrás mas sim ao lado de um grande homem que há sempre uma grande mulher.
1 de 5 /Estilo de rutura
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2 de 5 /Mozah bint Nasser Al Missned com a rainha Isabel II de Inglaterra, durante a visita de estado do emir do Qatar a Londres, em 2010.