“Somos pais de três, um deles é a estrela mais brilhante que está no céu"
O que significa ser mãe hoje? Nesta série de testemunhos, partimos dessa pergunta para explorar a maternidade nas suas várias dimensões - pessoal, cultural e política - e o papel, em constante mudança, das mulheres na sociedade.
Lembro-me como se fosse hoje. Há uns dias que sentia que não estava eu – um sentimento que já conhecia da gravidez da nossa filha Paz. No final do dia 5 de janeiro de 2022, resolvi fazer um teste de gravidez em casa, no meio de toda a rotina de final de dia com uma bebé de três anos, uma cadela louca e um marido com um coração sem fim. Repeti os mesmos erros da primeira vez: não li as instruções direito, fiz o teste e esperei.
Deu positivo, com a previsão de semanas de gravidez e, ao mesmo tempo que foi feliz, carregou um peso que não compreendi. Chamei o meu marido, festejámos, contámos à Paz e passámos a ser uma família de cinco.
Passados uns dias, comecei a perder sangue. O que era pequeno tornou-se em perdas consideravelmente grandes. Depois paravam. Depois voltavam. Entre o dia 10 de janeiro e o dia 14 de fevereiro, foi uma gravidez não evolutiva; depois, uma gravidez evolutiva; e, por fim, uma gravidez ectópica, onde a única certeza que os médicos tinham era de que não estava no útero.
Numa tristeza profunda, fizemos o que melhor sabemos: fomos os dois passar o fim de semana fora, fazer o luto, já confirmado, de um bebé sonhado e de um futuro que não existiu. Começar a aprender a ser mãe de um bebé-estrela, cuja imagem nunca vimos, mas cuja presença sentíamos quase como um abraço quente que nos dizia que tudo ia correr bem. Até que não correu – uma operação de urgência, já de madrugada, uma hemorragia interna que me ensinou a dançar a dança da vida e da morte, com a certeza de que todas as certezas que eram garantidas não valiam de nada.
Fui operada no dia 14 de fevereiro, dia do amor, em que vivi o luto mais intenso da minha vida, em que me despedi do meu marido sem saber se o voltaria a ver. Sem ter a certeza do que me esperaria, confiando inteiramente no abraço deste bebé e numa equipa multidisciplinar a quem só posso agradecer por estar de urgência naquele dia.
Vivo a maternidade deste bebé-estrela sem os primeiros barulhinhos, os primeiros sorrisos e gargalhadas. Sem os olhos curiosos e inocentes de um bebé que anseia conhecer o mundo. Vive em mim, vive em nós e vive nos nossos filhos. Aprendo todos os dias a falar com esta alma amorosa, não em forma de luto – nem num ato de loucura – mas com a confiança de que tudo tem um motivo e de que este bebé é tão, tão especial que o mundo não estava preparado para o conhecer.
E, por ser tão especial, tem um claríssimo lugar na nossa família. É o nosso segundo filho, irmão-estrela da Paz, que ela sabe que existiu, de quem fala e que está sempre nos desenhos dela, e o irmão do Manel – que, a seu tempo, também perceberá que é o nosso bebé arco-íris.
Nesta jornada, percebi várias coisas: o que dizer e o que não dizer a uma família que perdeu um bebé. E a pergunta a não fazer é “estavas de quantas semanas?”. Não interessa, não interessa a ninguém. O sofrimento não se resume a semanas nem é taxativamente exponencial face a esse número: é único e é um caminho solitário, mesmo quando vivido em família.
Por ser solitário, e pela solidão me ter batido à porta em jeito de depressão depois do nascimento da nossa filha Paz, fiz dele um debate comunitário. Há quem não perceba que tenho três filhos. Há quem ache que, por dizer que tenho três filhos, mas que um não nasceu, é quase cómico face ao número de semanas com que perdi este bebé. Mas, para nós, não podia importar menos. Somos pais de três, um deles em forma da estrela mais brilhante do céu, que se tornou a nossa bússola de orientação em tempos de dúvidas.
Quanto a tudo o que aconteceu depois disto, vivi uma gravidez do nosso terceiro filho pouco recomendável. Perdas de sangue, operações de urgência, infeções respiratórias… Com muitas saudades da inocência da primeira gravidez. Foram 40 semanas a ser acompanhada em acupuntura, com o objetivo de controlar a ansiedade, a incerteza da vida e a entrega dessa incerteza a um lugar de amor. Para nos cair ao colo um bebé arco-íris calmo, com os olhos da cor do céu onde vive a nossa estrela mais brilhante.
Carolina Deslandes lança livro: "Precisamos de ser recordados sobre a importância de dizer às pessoas que as amamos"
A obra, inspirada no terceiro dos seus quatro filhos, vem reforçar o papel dos afetos na construção de uma sociedade mais empática.
Berta Dávila: "A depressão pós-parto ainda está muito estigmatizada, muito à margem"
Quantas mães sentem um vazio após o nascimento de um filho? E, dessas, quantas ousam falar? A escritora galega Berta Dávila esteve na 27ª edição do Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, para apresentar “Esse Lugar”, um livro sobre uma mãe que precisou de aprender o amor maternal. A Máxima falou com a autora.
Guia para educar um rapaz decente. "Se queremos homens que enalteçam mulheres, eles precisam de crescer a ver mulheres respeitadas"
Onde estão os homens que elevam as mulheres e contribuem para a sua auto-estima? Da perspetiva de uma mãe de um bebé, menino, de 10 meses, de um pediatra e de uma criadora de conteúdos sobre parentalidade, reconstruimos um caminho que parece sem volta, à luz da masculinidade tóxica do agora.