'O Diabo Veste Prada 2' aos olhos de uma ex-jornalista da Vogue
Long live Miranda Priestly.
Maya Angelou disse que podemos esquecer o que as pessoas nos disseram, mas nunca esqueceremos como nos fizeram sentir. E isso é, talvez, particularmente verdade na infância ou, aliás, quando olhamos para trás para reflectir sobre esses anos.
A memória, ainda tão pouco treinada, talvez nos traia, recusando acesso a conversas azedas, frases maliciosas, palavras mais ríspidas, comentários menos generosos, mas vai sempre trazer à tona as sensações e emoções que esses episódios nos causaram. Por que é que isto interessa? Porque nunca na história recente da terapia foi tão comum, como agora, a recomendação de cortar relações com pessoas tóxicas e cada vez mais pais estão a ser confrontados com filhos adultos que se recusam a falar com eles. Em certa medida, a toxicidade, como a beleza, está nos olhos de quem a vê, ou na pele de quem a sente. A maior parte dos pais dirá que sempre fez o que achou ser melhor para os filhos, mas, frequentemente, depois de crescerem, esses mesmos filhos têm uma opinião diferente sobre o que teria sido “melhor”.
Num artigo recente, escrito para a revista digital especializada em psicologia, Psychology Today, o psicólogo norte-americano Jeffrey Bernstein, que desenvolve a sua prática clínica junto de crianças, jovens e famílias, diz que é fácil perceber quando as relações entre pais e filhos estão a caminho do ponto de ruptura, se nada mudar. De acordo com Bernstein, há uma frase com escassas sete palavras que todos os jovens adultos dizem quando estão no limiar de cortar relações com os pais: “Nem sequer tentas perceber o meu lado”.
A frase, explica o psicólogo, não tem de ser textualmente esta, mas será sempre uma variação que demonstre um sentimento de frustração por parte do filho que não se sente compreendido pela mãe, pelo pai ou pelos dois. Bernstein diz que é comum, na sua prática clínica, ser procurado por pais confusos porque o filho ou filha deixou de falar com eles, apesar de eles acreditarem que tinham uma boa relação, livre de conflitos, tensões ou discussões. Em todos os casos, porém, o psicólogo diz que houve sempre um sinal de alerta, como a frase já referida. Os pais é que não se aperceberam.
“Não estás a ouvir o que estou a dizer. É impossível falar contigo sobre isto. Não compreendes o que estou a querer dizer.” As opções são inúmeras, mas o resultado é sempre o mesmo. E, curiosamente, a sensação é muito semelhante àquela queixa comum que as mulheres têm sobre os maridos ou namorados, quando elas tentam simplesmente desabafar e eles começam a impingir soluções.
O psicólogo dá vários exemplos para ilustrar o seu ponto de vista: pode ser um filho adulto que liga ao pai para se queixar de dificuldades no trabalho e que nem chega a acabar a frase porque o pai começa logo a dizer “és tão inteligente, tenho a certeza que vais dar conta do recado”; ou pode ser uma filha que liga à mãe para partilhar pequenos conflitos no seu relacionamento amoroso e a mãe começa a tentar “consertá-la”, apontando tudo o que ela está a fazer mal na relação, como se o problema fosse só e apenas ela; ou pode ser também um pai ou uma mãe que só sabem falar de si próprios e que viram todas as conversas que os filhos tentam ter com eles para temas sobre as suas próprias vidas.
Em todos estes casos, e em centenas ou milhares de outros com contornos semelhantes, os filhos vão dando o alerta com uma ou várias das frases lapidares descritas acima e, aos poucos – ou de uma vez por todas –, vão deixando de ligar, deixando de atender o telefone, deixando de aparecer, ou só mantêm conversas superficiais, sobre tempo e saúde, e desistem de falar sobre coisas íntimas, criando uma barreira intransponível.
Bernstein, porém, deixa uma nota de esperança, garantindo que é possível recuperar a proximidade e que, regra geral, quando os filhos começam a sentir-se ouvidos e compreendidos, retomam a relação. Lembre-se que, como dizia o filósofo grego Epicteto, se temos dois ouvidos e uma boca é para ouvirmos duas vezes mais do que falamos.