Berta Dávila: "A depressão pós-parto ainda está muito estigmatizada, muito à margem"

Quantas mães sentem um vazio após o nascimento de um filho? E, dessas, quantas ousam falar? A escritora galega Berta Dávila esteve na 27ª edição do Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, para apresentar “Esse Lugar”, um livro sobre uma mãe que precisou de aprender o amor maternal. A Máxima falou com a autora.

Berta Dávila apresenta livro sobre maternidade na Póvoa de Varzim Foto: Getty Images
13 de março de 2026 às 14:35 Rita Silva Avelar

Berta Dávila tinha acabado de chegar ao seu quarto de hotel quando se sentou à secretária para conversar com a Máxima. A escritora esteve em Portugal para apresentar Esse Lugar, Prémio da Crítica da Galiza e Prémio Follas Novas para Melhor Livro, duas distinções importantes na Galiza. Conversamos cada uma na sua língua, Berta é galega, curiosamente só uma palavra destoa ao longo de toda a conversa e se afasta da versão portuguesa, que é mãe (em galego diz-se “nai”). Três letras que soam muito diferentes numa língua e noutra. Berta não é expansiva, escolhe bem as palavras, é ponderada nas respostas que dá e a sensação com que ficamos é que não se lhe acede com facilidade. A voz que empresta ao livro parece ser muito diferente da sua, soa quase cantada. Imaginamos, por sua vez, uma protagonista pragmática, firme.

Estruturado em pouco mais de 100 páginas, Esse Lugar é sobre amor maternal na sua forma mais artificial, numa forma aprendida, e não inata. Conta a história de uma mulher que, cinco anos depois de ser mãe (e de esse processo ser dificílimo tanto na concepção como no pós-parto), se depara com a possibilidade de ser mãe novamente, possibilidade essa que rejeita. É um livro sobre a solidão das mulheres que tomam decisões sobre o seu corpo, das mais variadas formas. No fundo, é também sobre o luto que todas as mães fazem das mulheres que foram (luto aqui aplicado não como uma palavra vilã, mas como uma espécie de reforma assumida de uma versão que não mais será igual, por tantas razões - boas e más). É escrito de modo franco, direto, sem rodeios, sem cair nos lugares comuns, sobre uma experiência absolutamente mundana. O desafio - e o exercício - foi esse, diz-nos a autora, falar de algo verdadeiramente comum sem cair no óbvio. Ao mesmo tempo, sem se preocupar muito que tipo de livro seria esse, à margem da crítica, a galega afirma mesmo que lhe interessava a brincadeira literária afastada dos cânones da ficção contemporânea.

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Berta Dávila Foto: DR

Quando nos preparamos para ter um filho, raramente nos preparam para a realidade crua do que é ver o nosso corpo ser atravessado pela dor e pela invasão. Fala-se da respiração, dos gadgets todos que o bebé terá de ter, mas raramente dos coágulos de sangue que vamos ver durante semanas ao ir à casa de banho ou das dores nos pulsos provocadas pelas vezes sem conta que levantamos os nossos bebés. Essa ausência de solidariedade para com as mães é desde logo muito evidente nas primeiras páginas. Quis deixar isso bem claro?

Eu escrevi este livro com a intenção de abordar a ideia de que é muito universal, muito normal, digamos, nas nossas vidas, muito comum, mas ao mesmo tempo é um processo muito estranho quando se olha com uma lupa, não é? Então, no momento em que comecei a escrever o livro, ou a vontade que eu tinha quando comecei a escrever o livro, era tentar afastar-me um pouco dos clichés que circundam essa experiência - e que são muito filtrados pelas ideias que partilhamos constantemente sobre eles. Tentei um olhar mais próximo a partir da estranheza que é aceitar que o nosso corpo vai criar outra criatura que terá uma existência autónoma, e que passará por uma série de processos que até então eram totalmente improváveis. Há uma sensação, ou pelo menos era essa a sensação que me interessava, que tem que ver com o corpo e com a forma como experimentamos um processo que é natural, mas também muito invulgar. Sobre ele poderiam dizer-se muitas coisas, e foi isso que quis deixar bem claro no prefácio: quais são as palavras com as quais se pode falar de determinadas experiências na literatura, ou a partir de que ponto se pode fazer literatura de uma experiência sobre a qual falamos constantemente noutros registros que não são a literatura? A escritora Rachel Cusk diz que quando se escreve sobre determinados temas do ponto de vista de uma escritora, passa-se a estar na parte de trás do avião da literatura. Queria escrever sobre a estranheza, observar de que é feito um vínculo e como esse vínculo atravessa um corpo, sair dos lugares-comuns, quis que o livro me fizesse sentir que não importe nada em que parte do avião se pode sentar esta história.

Fala do luto que fazemos quando passamos de mulher a mulher-mãe. Porque será que a natureza faz com que algumas assimilem esse luto mais depressa que outras? Tanto os baby blues como a depressão parecem permanecer um tabu, e estas mães ainda são vistas como “as fracas”. 

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Sim, continuo a pensar que continua a ser assim, tanto agora como na altura em que escrevi o romance. Embora se fale muito sobre mães na literatura, não é tão comum que essas histórias sejam partilhadas na família. Descobri que facilmente posso encontrar um romance de uma escritora dos EUA, Reino Unido, França ou América Latina que me fale de uma determinada experiência que tenha que ver com a vivência feminina, mas que por outro lado não é tão fácil que essa história se debata no seio das famílias. Que seja debatida à minha volta. Não é uma troca que se partilhe espontaneamente. As mulheres da minha família não falam sobre os seus partos com a mesma ligeireza com que se fala sobre outras experiências masculinas, como, por exemplo, fazer o serviço militar. Por isso, achei muito curioso que fosse mais fácil aceder à literatura para conhecer essas histórias do que aceder a elas porque circulam de forma natural. Quando as experiências se tornam conceitos mais ou menos partilháveis, também há um momento em que elas se tornam uma espécie de construção e deixam as pessoas de fora. A depressão pós-parto não é assim tão comum, mas está muito estigmatizada, muito à margem. Os baby blues são mais comuns, são muito habituais, sobretudo se durarem apenas uns dias. Há uma quebra hormonal que faz com que a mulher se sinta um pouco perdida, sem saber como lidar com todas as emoções que está a sentir, além da recuperação, que é um processo que não é igual para todas.

Como fugiu dos tais clichês para contar esta história? Como afirma, é uma experiência comum. 

Quis construir uma história que apontasse para outros lugares. Por exemplo, abordar como um vínculo afetivo como o de se tornar mãe, que é muito transformador, muda o significado de todos os outros vínculos afetivos da protagonista. Ela começa a ver todas as pessoas a quem está vinculada de outro modo. Eu queria que a experiência desse primeiro filho e a decisão que ela tem de tomar [abortar, de um segundo filho não planeado] fossem, de certa forma, uma superfície para apontar para outros lugares. Fui construindo o livro um pouco a partir dessas sensações, ou dessas coisas sobre as quais queria escrever. Inicialmente, escrevi um livro com um enredo maior, mais dominante, fiz uma primeira versão em que havia mais história, digamos assim, mas não se sustentou como tal. Queria, sobretudo, escrever um livro a uma escala menor, que fosse uma pequena meditação sobre um momento, sobre aquela história. 

Esse Lugar, Berta Dávila Foto: DR

Adorei ler o conceito de amor materno. É poderoso, este conceito. É um amor em construção. Como chegou a esta ideia? 

Sim, acho que é um livro que, desde o início, trata de um conceito que é a escolha. Primeiro, a protagonista escolhe em que registo quer contar a história; depois, pondera se quer ter um segundo filho ou não; e, depois, aborda a ideia de que esse amor [o materno] é, também, algo que se escolhe. O que diferencia o vínculo materno de todos os outros vínculos é que, em todos os outros, há sempre a possibilidade de não permanecerem, não é? Num vínculo entre uma mãe e um filho há algo de incondicional, que de alguma forma também obriga, e que de alguma forma é construído ou pré-construído. É um pacto que se aceita quando essa relação começa. Eu queria falar sobre como esse vínculo entre uma mãe e um filho não é apenas um vínculo maternal, mas é um vínculo entre uma mulher concreta e uma criança concreta. Essa mulher e essa criança têm de aprender a ligar-se de uma maneira concreta, também, e isso tem que ver com quem ela é, e também com quem ele é. Esse pareceu-me um terreno muito mais fértil para a escrita: refletir sobre a relação com as pessoas que amamos, de alguma maneira. Porque um vínculo que se constrói, que se vai acordando ou negociando, não é menos verdadeiro do que aquele que se dá como certo. Quis, porque na vida também isso me interessa, ir à procura da maneira que a ideia de amor maternal pode ser aceite. Que, no fundo, é uma busca que a protagonista faz, através da maneira como ela se relaciona com aquela amiga que nunca vê (não a quer ver, mas quer manter o vínculo); ou da maneira como se relaciona com os pais, de modo muito ligeiro [na história, estes quase não surgem] e isso não significa que esses vínculos são menos fortes. 

Depois, há a culpa, omnipresente em todas as coisas, logo desde o momento em que descobrimos uma gravidez. A protagonista tem uma relação estranha com a culpa, porque à luz da sua situação atual parece já tê-la dissecado. Assim o é? 

Sim, acho que há uma relação com um sentimento de dupla culpa. Por um lado, ela fala a partir de um momento, que foi há cinco anos, então toda essa experiência é algo que ela já sabe por que aconteceu, sobre a qual já pensou. Com a segunda gravidez, surge uma nova culpa, uma culpa por estar a enganar, por exemplo, a sua avó; a culpa que sente durante o processo pelo qual ela está a passar, mas não pelo que aconteceu antes, o que demonstra que podem sempre surgir novos acontecimentos na vida que nos fazem sentir culpados. Eu queria uma protagonista que não enfrentasse um dilema moral sobre o aborto, porque não me apetecia escrever esse livro, e porque não me apetecia problematizar a questão do aborto a partir daí. Da mesma forma que não queria que houvesse um conflito de casal. Essa relação que a protagonista tem com a primeira culpa não tem nada que ver com a relação que tem com a segunda. Quis escrever um livro contido, um livro muito tranquilo, não queria escrever um livro, por exemplo, visceral ou fora do mundo das ideias. E por isso é que há essa sensação pacificadora da protagonista com a culpa. 

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Que comentários fazem os seus leitores, em apresentações, sobre o livro? O que mais os espanta? Questionam-na muito se é autobiográfico? 

Depende do tipo de contexto, em geral é um livro que me traz momentos muito bonitos de pessoas que me contaram que se sentiram incluídas neste livro, que se sentiram acompanhadas por ele. Contaram-me histórias sobre as quais queriam muito falar, e outras coisas. Depois, há contextos, por exemplo, como o dos clubes de leitura, em que é muito interessante ver as ideias que pessoas de diferentes idades podem ter sobre este romance. Interessam-me as pessoas que associam a experiência [da leitura deste livro] a uma experiência de nicho. Gosto de tentar perceber as pessoas que entendem que um romance que fala sobre uma mãe é um romance que só as mães têm de ler. É preciso entender que a experiência da maternidade é absolutamente universal e que qualquer pessoa pode lê-la, e que [pensar o contrário] seria tão absurdo quanto pensar que um romance sobre um soldado pode ser lido apenas por soldados, ou que um romance em que há uma médica pode ser lido só por médicos.

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