O MUDE - Museu do Design e da Moda, Coleção Francisco Capelo tem revelado dinamismo e excelência na atividade desenvolvida ao longo dos seus quase quatro anos de existência. Com Bárbara Coutinho, a diretora, fizemos um balanço e olhámos para o futuro.
A Paixão do Design
13 de maio de 2013 às 06:00 Máxima
O MUDE abriu em maio de 2009, na sequência do encerramento, em 2006, do Museu do Design no Centro Cultural de Belém (CCB). Em 2002, já a Câmara Municipal de Lisboa (CML) comprara toda a Coleção Francisco Capelo, constituída por dois grandes acervos: design de equipamento – parcialmente exposto e depositado no CCB – e design de moda – nunca exposto, à exceção de um núcleo restrito de peças no Museu de Saint-Étienne –, tendo este último acervo ficado à guarda da CML.
BÁRBARA COUTINHO
PUB
Licenciou-se em História, na variante História de Arte, deu aulas no ensino secundário e, entre 1998 e 2006, foi coordenadora do Serviço Educativo da Fundação Centro Cultural de Belém (CCB), bem como programadora e coordenadora do Programa de Cursos de Formação sobre Arte Moderna e Contemporânea, Design e Arquitetura, ainda no CCB. A convite da Câmara Municipal de Lisboa, desenvolveu o conceito e projeto museológico do MUDE, que abriria as suas portas três anos depois, em 2009. A exigente direção, gestão e programação do novo Museu não a impede de lecionar Teoria, Crítica e História de Arquitetura no Instituto Superior Técnico, de preparar um doutoramento em Arquitetura/Museologia e de escrever artigos sobre história e crítica de design para a revista Arq./a. É casada e mãe de uma menina de 16 meses.
“A coleção foi criada de forma a estes dois acervos comunicarem sempre entre si”, diz Bárbara Coutinho, diretora do MUDE. “Há razões nas escolhas das peças que concorrem para uma perspetiva que era a do próprio colecionador: sublinhar o aspeto da área do design na sua relação com a grande área da criatividade. Estamos a falar de design de autor – daí a coleção de moda ser de Alta-Costura. No seguimento do protocolo assinado entre o colecionador e a CML, eu estava muito ciente de que aquele acervo tinha sido adquirido pela Câmara para dar origem a um museu dedicado ao design na sua mais ampla aceção. Esta é a casa de todas as expressões do design, com um núcleo central, a Coleção Francisco Capelo, e com uma programação de exposições temporárias que gravita à volta do design e da Coleção.”
Francisco Capelo é presidente do Conselho de Gestão da Coleção que tem o seu nome. A programação, na sua quase totalidade, é financiada pelo Turismo de Portugal. O MUDE tem contado ainda com a colaboração de várias empresas, como a Renova e o Ikea, por exemplo. E o orçamento da CML suporta o funcionamento do Museu, os custos com o pessoal e com toda a infraestrutura do edifício.
Em todos os museus, uma grande parte das peças não está à vista do público. Aqui, na área da moda, qual é a relação entre as reservas e as peças da Coleção Francisco Capelo que têm sido expostas?
PUB
Quando abrimos, com um conceito de museu work in progress, era com a consciência plena de que existiam aqui condições de espaço que implicavam algumas opções e decisões concretas sobre o que expor, como expor, e o que não expor. Em relação à moda, passa-se a mesma coisa do que com o design de equipamento. Enquanto não forem totalmente realizadas as obras de infraestruturação do edifício, com equipamento para garantir a temperatura e a humidade adequadas, há uma série de peças de Alta-Costura, e também de design de equipamento, que nunca serão expostas, por questões de conservação. Estou-me a lembrar, por exemplo, de uma peça de Coco Chanel que, pela sua própria especificidade, precisa de ser exposta em vitrina.
Na moda, quantos coordenados tinha a Coleção quando foi adquirida pela CML?
Cerca de 600 coordenados. A apoiar este núcleo de peças, foi depositado no Museu um vasto conjunto de bibliografia, ou seja, livros de referência, e ainda muitos desenhos, fotografias, convites das passagens de modelos a que o colecionador assistiu... Todo este material multidisciplinar, que nunca foi exposto, dará lugar ao nosso arquivo. Está planeado um centro de documentação, aberto a todos os estudantes, profissionais e investigadores, talvez em 2014. Entretanto, este arquivo cresceu, nomeadamente com doações do antigo ICEP e com o depósito do acervo documental do Centro Português de Design.
Qual a sua relação pessoal com a moda?
PUB
É uma relação que coloco em pé de igualdade com qualquer outra área da criatividade. Sou uma mulher curiosa, procuro estar atenta às novidades, gosto de ir ver e perceber aquilo que está a ser feito e sou muito crítica, para o bem e para o mal. Gosto de misturar as coisas, não sou uma pessoa que incorpore algo no meu estilo só porque está na moda. O estilo vem com a maturidade, com o conhecimento, com a nossa própria personalidade. Para mim, a moda tem muito a ver com isso, é a forma como eu me visto ou me apresento, como comunico com o outro. E tem muito a ver com o meu estado de espírito, com a forma como sinto o meu corpo e como quero comunicar. E é um fator fundamental.
O aspeto “cru” das antigas e degradadas instalações do Banco Nacional Ultramarino, com a estrutura do edifício à vista, sempre foi do agrado dos visitantes pelo magnífico contraste com as peças expostas. Esta caraterística do espaço poderá ser mantida após as obras?
Continuam a dizer-me isso, é uma das grandes questões. Temos de cumprir a nova legislação para os museus, que irá forçar uma mudança da atmosfera atual. A nossa intenção é respeitar este ambiente ao máximo, o património que recebemos, com as fraturas que tem, com os vestígios de outras épocas. Haverá muitos gestos contemporâneos que têm de ser feitos, para consolidar a estrutura e permitir o acesso aos oito pisos do edifício, com espaços que vão desde a restauração a uma livraria/loja, ao centro de documentação, ao auditório, a áreas de exposição e para passagens de modelos, a áreas educativas... Quando o work in progress for mais ao nível da programação e não da estrutura, existirão certamente algumas mudanças. Serão opções low budget, com materiais que respeitem as pré-existências.
Mantém-se a ideia do restaurante no último piso?
PUB
Sim, mantém-se, mas é preciso ter elevadores e todas as infraestruturas a funcionar. Quando entro aqui, é quase como uma visão esquizofrénica porque tenho a imagem do que é hoje, do que foi e do que vai ser, e o caminho que teremos de percorrer para lá chegar. A exposição permanente passará para o piso 3, ligada a uma área de reservas visitável (ou visível) pelo público. O piso zero será uma espécie de Fnac do design e da moda. Haverá ainda uma área para residências de artistas, designers, a fim de desenvolverem projetos relacionados com o seu trabalho e com o Museu. E um espaço para crianças, como se fosse um museu de design para elas.
E a ligação às escolas e às empresas?
Ambas essas relações já começaram. Dou uma grande importância ao trabalho educativo. Tem de ser muito bem estruturado e absolutamente inovador e certeiro. Estamos na fase da reflexão. Já tive encontros com escolas, universidades, professores. Têm surgido questões muito interessantes. Por exemplo, um dos grandes anseios das escolas é o MUDE poder ser o palco de apresentação dos melhores trabalhos, o que irá acontecer. Com as empresas começámos, em dezembro de 2012, no âmbito da programação, a desenvolver o projeto Made in Portugal (ver caixa).
Têm-se realizado inúmeros eventos de outras entidades e empresas no MUDE. É um meio de obter verbas para ajudar a sustentar o Museu ou é tão só um espírito de abertura à sociedade?
PUB
É um espírito de abertura. Até à data, a seleção dos eventos aqui realizados tem seguido uma política de estabelecimento de parcerias, de abertura à sociedade civil, na área da moda e do design. Mesmo quando esses eventos tiveram uma componente comercial, nunca obtivemos qualquer dividendo financeiro. Tem acontecido a doação de coordenados ao Museu por quem vem aqui ou quem apresenta uma coleção. Sucedeu com a Hermès, o Tommy Hilfiger e a Converse, entre outros. Para nós, é muito mais importante que a contrapartida seja a criação de laços e o enriquecimento do espólio do MUDE.
Como se processa o crescimento da coleção do Museu?
O núcleo principal é a Coleção Francisco Capelo. Além do que o Francisco Capelo vendeu ao MUDE, houve um núcleo muito significativo de peças dele que aqui foram depositadas, sobretudo peças de moda. Mas como qualquer museu, o MUDE não está parado. As doações – de António Garcia e dos “Manéis” [Manuel Alves e José Manuel Gonçalves], por exemplo –, os depósitos – da família de Daciano Costa, por exemplo – e as aquisições são as várias formas de crescimento da coleção.
PUB
Que tipo de público vem aqui?
É um público muito diversificado, tanto nas faixas etárias como no seu background cultural, nas suas nacionalidades, e isso é uma das coisas mais agradáveis de reconhecer. São pessoas que vêm aqui de propósito e sabem perfeitamente onde estão a entrar, e muitas outras que não sabem ao que vêm e entram desconfiadas porque não pagam nada, mas saem muito agradadas porque reconhecem uma qualidade e uma excelência no que quer que se apresente aqui.
Há alguma coisa em particular que gostaria de já ter feito nestes três anos e ainda não conseguiu?
Há algumas. Sobretudo tenho pena de não termos conseguido finalizar o projeto e arrancar com a obra. Não sou uma pessoa de estar a chorar sobre leite derramado. Os problemas não são para ser vividos, são para ser resolvidos. Quando nos pomos a viver os problemas, não os conseguimos resolver.
PUB
FALAM OS NÚMEROS
Até 31 de dezembro de 2012:
. Total de visitantes Cerca de 849 mil
. Média de visitantes por dia 850
PUB
. Exposições temporárias 23
. Eventos Cerca de 100
. Catálogos e publicações 14 catálogos e 4 brochuras
. Prémios Associação Portuguesa de Museologia (APOM) e revista Marketeer
.
Fãs Facebook 3200
PUB
. Peças adquiridas ou incorporadas no espólio através de doação e depósito
. Aquisições: 120
. Doações: 287
. Depósitos: 282
PUB
. Total: 589
. Peças da Coleção Francisco Capelo apresentadas até hoje
Design de Produto: 443
Design de Moda: 341
PUB
. Equipa 11 + 1
ONTEM, HOJE E AMANHÃ
Com esta voz me visto - O Fado e a Moda
“É uma exposição sobre o Fado através da Moda. O repto foi olhar para as nossas fadistas, desde a Amália até à Carminho e a outras intérpretes contemporâneas, e perceber como é que elas veem a sua imagem e como é que se apresentam, como é que comunicam. Foi muito interessante porque, além da história do Fado nos últimos 60 anos, abrange uma época que vai desde a Ana Maravilhas, a Maria Teresa Mimoso e a Ilda Aleixo ao Augustus, ao Zé Carlos, ao João Rôlo e a todos estes novos designers de moda, representados através de peças vindas das próprias fadistas. Conseguimos juntar cerca de 70 coordenados”, tendo alguns de Amália sido cedidos pela Fundação que tem o seu nome e pelo Museu do Teatro. Uma mostra em coprodução com o Museu do Fado, patente em simultâneo nos dois museus até 31 de março.
PUB
Tesouros da Feira da Ladra
O design dos utensílios e ferramentas de ofícios tradicionais que foram desaparecendo faz as delícias de quem costuma calcorrear a Feira da Ladra em busca de preciosidades como estas – A beleza do design anónimo, como dizia o subtítulo da mostra que reuniu parte da coleção de David Usborne no ano passado.
Made in Portugal
“Tenho um particular empenho no Made in Portugal. Hoje, é preciso termos um discurso que valorize o que de bom estamos a fazer no nosso país, em diferentes áreas: têxteis, calçado, moldes, caiaques, bicicletas, pranchas de surf, enfim, nos mais diversos equipamentos. Temos pessoas e empresas que estão a desenvolver um trabalho pioneiro, associando a tecnologia a um bom design, a uma boa estratégia de marketing, e que já vendem para o resto do mundo mas que ainda são pouco conhecidas cá. Começámos com a Iberomoldes, líder em moldes industriais. De três em três meses, esta presença de excelência terá aqui um espaço circunscrito mas permanente.”
PUB
Felipe Oliveira Baptista será alvo de uma grande exposição no MUDE, prevista para setembro, que promete “uma série de surpresas” e que assentará sobretudo no trabalho processual que o mais famoso designer de moda português desenvolve até chegar às suas coleções.
Portugal-Brasil
Exposição Design Brasileiro – Mobiliário Moderno e Contemporâneo, patente em 2012. Agora, uma exposição de design português viajará até ao Brasil e o MUDE receberá, em abril, uma mostra de design de moda brasileiro dos últimos 20 anos.
BNU
PUB
A exposição Nacional e Ultramarino - O BNU e a Arquitetura do Poder: entre o antigo e o moderno, patente até 28 de abril, apresenta algum do mobiliário desenhado e produzido, entre 1960-1964, pela Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva especialmente para o novo edifício do BNU, atual casa do Museu. Reconstituiu-se o gabinete do Governador, decorado no estilo Império, sendo esta a sua primeira abertura ao público.