Trick or treat? Trump inverteu a pirâmide alimentar e uma nutricionista analisa

As novas diretrizes alimentares dos EUA deslizaram como manteiga para os headlines. Não por acaso, ela faz parte do menu.

Nutricionista analisa novas diretrizes alimentares nos EUA Foto: Getty Images
09 de janeiro de 2026 às 12:50 Patrícia Domingues

Durante décadas, aprendemos a temer a manteiga, a escolher leite magro e a olhar para um bife como um prazer culposo reservado a ocasiões especiais. Mas e se tudo isso estivesse… errado? Num movimento que está a agitar tanto a comunidade científica como as redes sociais, as novas diretrizes alimentares divulgadas nos Estados Unidos propõem uma reviravolta radical: a proteína animal deixa de ser vilã e passa a protagonista. Carne vermelha, queijo e leite inteiro regressam ao centro do prato - e do debate. 

Apresentadas como uma resposta direta à epidemia de doenças crónicas, estas recomendações defendem menos produtos ultraprocessados, menos açúcar e uma alimentação mais “real”. Uma mudança que levanta entusiasmo, ceticismo e muitas perguntas.  Entre o ruído mediático e as tendências virais do wellness, há uma pergunta que importa fazer: o que acontece quando a moda alimentar muda mais depressa do que a ciência? Para além do choque visual desta nova pirâmide, ouvimos a nutricionista Maria Inês Antunes (Clínica Dra Marta Padilha) para descodificar o que faz sentido.

PUB

O que mudou na nova pirâmide alimentar dos EUA em comparação com versões anteriores?

É um ato histórico onde a mudança é a total inversão da pirâmide e o afastamento do modelo centrado em calorias e grandes quantidades de cereais refinados, típico das pirâmides antigas promovidas pela USDA. A nova abordagem valoriza alimentos reais e minimamente processados, dá maior protagonismo às proteínas e às gorduras saudáveis (abacate, azeite, frutos secos, sementes) e reduz drasticamente o espaço dado a açúcares adicionados, ultraprocessados e hidratos de carbono refinados. Também há uma mudança importante na mensagem sobre álcool, deixando de existir “quantidades seguras” rígidas e passando a recomendação geral de redução.

Quais são os principais objetivos desta nova abordagem?

O objetivo central é melhorar a saúde metabólica da população e reduzir a prevalência de doenças crónicas relacionadas com a alimentação, como obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e inflamação crónica. A nova pirâmide procura alinhar melhor as recomendações nutricionais com a fisiologia humana, promovendo saciedade, estabilidade da glicemia, preservação de massa muscular ao longo da vida e maior densidade nutricional, em vez de apenas controlo calórico.

PUB

Como ficaria um prato criado através desta nova pirâmide?

Um prato baseado nesta abordagem deve ter uma fonte central de proteína de boa qualidade (por exemplo peixe, ovos, carne ou leguminosas), acompanhada por vegetais variados e coloridos, ricos em fibra e micronutrientes. As gorduras estão naturalmente presentes dos próprios alimentos e de fontes como azeite, abacate, frutos secos ou sementes. Os hidratos de carbono estão presentes de forma moderada, preferencialmente através de cereais integrais ou tubérculos, e não como base dominante do prato. Açúcares adicionados e produtos ultraprocessados estão ausentes.

Quais evidências científicas embasam as recomendações da nova pirâmide? E que erros devemos estar atentos?

PUB

As recomendações apoiam-se em evidência crescente que associa o consumo de ultraprocessados a maior risco de obesidade, inflamação e mortalidade, bem como em estudos que mostram benefícios de uma ingestão proteica mais elevada para saciedade, manutenção de massa muscular e controlo metabólico, especialmente em adultos e idosos. Há também dados mais recentes que relativizam a demonização das gorduras naturais quando consumidas em alimentos integrais.

No entanto, é importante estar atento a erros comuns: interpretar estas diretrizes como uma “licença” para consumo excessivo de carne processada ou gorduras sem critério, ignorar a individualidade biológica (idade, contexto metabólico, patologia) ou reduzir a alimentação a modas simplificadas. A qualidade dos alimentos continua a ser mais importante do que rótulos isolados como “alto teor de proteína” ou “baixo teor de hidratos de carbono”.

Qual a sua opinião sobre esta abordagem?

Considero esta abordagem um avanço relevante, porque se aproxima mais da prática clínica e do que observamos na resposta real dos pacientes: pessoas comem melhor e têm melhores resultados quando priorizam comida de verdade, proteínas adequadas e alimentos pouco processados. Ainda assim, não deve ser vista como um modelo rígido ou universal. Na nutrição funcional integrativa, estas diretrizes funcionam melhor como um mapa geral, que precisa sempre de ser adaptado ao contexto individual, com um acompanhamento individualizado com nutricionista, respeitando o estilo de vida e o estado de saúde de cada pessoa.

PUB
leia também

Sementes de chia. Superalimento ou mais uma moda da internet?

Prometendo desinchar, regular o intestino e até ajudar na perda de peso, a água de sementes de chia tornou-se uma sensação nas redes sociais. Mas será esta tendência viral apenas mais uma moda passageira ou estamos perante um verdadeiro superalimento com benefícios comprovados pela ciência?

PUB
PUB