Entre as sleepovers na infâcia e as de agora mudou muita coisa e ao mesmo tempo muito pouco mudou. Cresci com toda a gente lá em casa e a minha mãe foi sempre maravilhosa nesse aspecto. Fazíamos autênticos acampamentos no meu quarto e tenho memórias de várias sleepovers, mas o período em que estudei na António Arroio foi o mais marcante. Entre saídas à noite e fins de semana, crescemos muito e ainda hoje há um grupo nuclear que vem desses DIY em minha casa.
Agora há uma maior percepção de que a intimidade é também um espaço político e que pode ser radical. Sleepovers entre pessoas adultas requerem um nível de vulnerabilidade maior, onde se partilham experiências, pensamentos, segredos e desejos com menos reserva, mas também com maior respeito, definição de limites, confiança e autenticidade. É aquele tipo de amizade que nos faz olhar para dentro, enquanto realmente vemos a outra pessoa.
Lembro-me de uma noite em que abri uma nova porta da percepção. Entre lareira e mais 3 amigues, com sincronismos à mistura, todes sabíamos que as nossas vidas estariam prestes a mudar. Assim mais recente, num dia triste - os melhores para sleepovers - estava a cozinhar para mim e para uma amiga, enquanto ela tomava banho. Quando regressou à cozinha ficou admirada por eu estar a ouvir o Feijão com Arroz, da Daniela Mercury - albúm icónico, que me acompanha desde sempre e para sempre, só bangers - porque sabe que frequentemente ouço mais post-punk e afins. De facto, ouço um pouco de tudo, e isto deu para rir porque a surpreendeu, mas aquele riso com vontade que sem grande lógica se transforma em qualquer outra coisa, com muito de catártico à mistura. Acabámos a chorar a rir, sentadas no chão (ok, eu cheguei a rebolar a rir, admito), e ela muito bem encaixada entre o caixote do lixo e a reciclagem, encostada à parede, o que foi hilariante de notar. You had to be there. Tivemos medo que a vizinhança se queixasse das nossas gargalhadas.
Precisamos de nos rodear de amor. De todas as formas de amor! A amizade é a forma mais bonita de amor, talvez por ser a mais desinteressada, se for saudável. A paisagem familiar muda, nós mudamos. Construímos a nossa família e passa a ser composta por pessoas mais parecidas connosco, no meu caso, pessoas livres, artísticas, mesmo que não sejam artistas, queer ou aliadas, com uma visão interseccional do mundo, "surfistas" das 4ª vaga. Tenho muita sorte por ter muites amigues próximos. Acredito que também há recompensa na entrega, e eu entrego-me, abraço, mas sobretudo porque fui muito abraçada e sei o que é o amor.
Há qualquer coisa de muito bonito nestas noites, que são tardes e também manhãs, claro. Entre derreter no sofá, ver as estrelas ou dançar para espantar os males, há sempre algum processo de cura, e a diversão pode também ser terapêutica.
É um luxo poder ter espaço nas nossas vidas para brincar, para não nos levarmos tão a sério e apreciar a companhia de alguém pela noite fora, entre pijamas, munchies, música, jogos de tabuleiro e skincare. Podendo, uma lareira, o luar e psicadelismos também são bem vindos.
Os últimos meses têm sido de rebirth e como tal, preenchidos de amizade e às vezes queremos prolongar o tempo que temos juntes, não é? So we do. Também adoro aquela ideia de estar alone together. É maravilhoso. E quão incrível é fazer algo infantil, em adulta? Poder brincar como uma criança, já não o sendo? F*ck the rules.